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A lenda de Rambo Okan, o mais louco entre os loucos adeptos do Fenerbahçe

Já passou uma noite no estádio do Galatasaray para vingar o seu clube e chegou a roubar uma arma a um polícia. Mas Rambo Okan, apesar de ser um "maluco certificado", nada tem de perigoso. Todos os clubes têm um ou dois adeptos mais conhecidos, mas o Fenerbahçe, que esta terça-feira joga com o Benfica na Luz para a 3.ª eliminatória da Liga dos Campeões, tem um bem especial

Lídia Paralta Gomes

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Quase todos os clubes de futebol têm um ou outro adepto mítico. Pelo que diz, pelo que faz, pelo que veste, pela paixão exacerbada. Se nos perguntam por adeptos do Benfica, as primeiras respostas que nos surgem serão o Barbas ou até Jorge Máximo.

Já se chegar às ruas de Istambul e perguntarem a um qualquer adepto de futebol qual é o mais conhecido dos adeptos do Fenerbahçe, equipa contra quem os encarnados jogam esta terça-feira para a 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões, é possível que toda a gente responda Rambo Okan.

Mas, para que não haja qualquer tipo de dúvidas, falar de Rambo Okan é falar de outro nível de dedicação ou, e perdoem-nos o coloquialismo, maluquice por um clube.

A lenda de Rambo Okan, na verdade Okan Guler, começou, curiosamente, com alguém de quem os benfiquistas bem se lembram, ainda que nem sempre pelas melhores razões. Ainda antes de treinar o Benfica, Graeme Souness aceitou a sempre complicada tarefa de treinar o Galatasaray. Estávamos na época 1995/96 e é possível que o treinador escocês não se tenha informado convenientemente da rivalidade virulenta que existe entre os adeptos dos principais clubes de Istambul.

Porque se estivesse bem informado, talvez tivesse pensado duas vezes antes de cravar uma bandeira do Galatasaray no centro do relvado do estádio Sukru Saracoglu, casa do Fenerbahçe, depois do Galatasaray ali ter conquistado a Taça da Turquia em 1996.

O ato foi visto como uma afronta de todo o tamanho por parte dos adeptos da equipa do lado asiático de Istambul. Muitos tentaram invadir o relvado e por pouco não aconteceu um motim. Já Souness teve de ser escoltado pela polícia para sair do estádio - anos mais tarde, numa entrevista à Sky Sports, admitiu que não foi “a coisa mais inteligente” que havia feito na sua vida.

A vingança não aconteceu ali, para sorte do técnico escocês. Mas, o ditado “a vingança serve-se fria” foi inventado por alguma razão. Porque há pessoas como Rambo Okan, por exemplo.

Passaram dois anos desde que Graeme Souness se lembrou de correr pelo relvado do estádio do Fenerbahçe com uma bandeira do rival na mão, mas Okan Guler nunca esqueceu. No início da época 1997/98, Rambo esperou pelo primeiro jogo do Galatasaray em casa para o campeonato. Pequeno e esguio, conseguiu entrar no estádio na véspera do jogo e escondeu-se dentro de um painel de publicidade. No dia seguinte, antes do pontapé de saída, munido de uma pequena faca e vestido com o amarelo e azul da sua equipa, correu para o relvado e espetou uma bandeira do Fenerbahçe bem no centro. Tal como Souness havia feito.

Apesar de ter uma faca em riste, Rambo Okan nunca foi violento e rapidamente dezenas de polícias conseguiram manietá-lo. Mas a imagem estava ali para a posterioridade: a bandeira do Fenerbahçe espetada no relvado do Galatasaray. Os adeptos da equipa do bairro de Kadikoy sentiram-se vingados.

E Rambo Okan passou a ser um verdadeiro herói.

“Rambo Okan é um maluco certificado. Um louco doce, uma dessas figuras públicas que já são difíceis de encontrar neste mundo contemporâneo”. A poética explicação foi dada à Tribuna Expresso por Erden Kosova, conhecido crítico de arte turco e adepto fervoroso do Fenerbahçe.

Por ele sabemos que a invasão ao relvado do Galatasaray está longe de ser a única loucura de Rambo Okan, que já tem lugar entre as grande figuras do Fenerbahçe à conta de episódios do género.

“Há muitas histórias reais sobre ele, mas também muitos mitos”, alerta-nos Kosova. Fiquemos então pelas histórias reais. Como aquela em que Rambo Okan roubou uma arma de um polícia: “Sempre que é detido acaba por ser rapidamente libertado porque nunca ninguém provou que ele é uma ameaça às pessoas. Um dia, numa dessas detenções, ficou amigo de um polícia e quando este teve de atender uma chamada aproveitou para lhe roubar a arma. Na altura o estádio do Fenerbahçe preparava-se para receber uma final europeia e toda a polícia de Istambul ficou em estado de alerta, temendo que ele fizesse alguma coisa com a arma. Mas nada aconteceu: passado uns dias o Rambo foi encontrado a dormir numa casota de um cão com a arma ao seu lado”.

Menos perigosa mas igualmente louca foi a vez em que, devidamente equipado com a camisola do Fenerbahçe, participou na Maratona de Istambul. “Surgiu na meta no final da prova do seu grupo de idade e chegou a receber medalha e dinheiro como prémio pela participação. Mas logo descobriram que ele tinha enganado toda a gente: tinha apanhado um táxi durante a prova”, conta-nos Erden Kosova.

Estes são apenas os episódios de maior monta. Porque ver Rambo Okan a invadir o relvado do estádio do Fenerbahçe e a abraçar os seus jogadores favoritos já é considerado apenas mais um dia normal.

O amado Ali Koç

Rambo Okan deve andar feliz da vida. Principalmente desde que Ali Koç é presidente do Fenerbahçe. Koç é um dos homens mais ricos da Turquia e chegou a ser vice-presidente do clube. Agora, e numa altura em que o Fenerbahçe atravessa uma dura crise financeira, voltou com a promessa de recuperar o clube, ganhando as eleições frente ao antigo presidente, Aziz Yildirim.

“Ele sempre adorou o Ali Koç. Um dia disse que tinha três deuses: Ataturk [o pai da Turquia moderna], Ali Koç e o Uche, um antigo jogador nigeriano do Fenerbahçe”, diz Kosova. Rambo Okan terá mesmo pedido em tribunal para legalmente mudar o nome para Ali Koç.

Por isso, quando Ali Koç venceu as eleições, em junho, Rambo Okan foi uma espécie de estrela da festa.

É impossível saber se Rambo Okan estará mais logo nas bancadas do Estádio da Luz (estará com certeza daqui a uma semana em Istambul). Ou mesmo qual será a sua próxima aventura do mais louco entre os loucos adeptos do Fenerbahçe.