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Uma 1.ª parte não faz a primavera

Ganhar era uma obrigação e o Benfica entrou bem frente ao Ajax, com uma atitude competitiva a léguas daquilo que se viu na 6.ª feira frente ao Moreirense. Mas na 2.ª parte, sem Jonas e Salvio, voltaram os velhos hábitos, a apatia face à adversidade, a falta de soluções perante um adversário que, ainda por cima, falhou muito. Está muito difícil a continuidade na Champions após este 1-1

Lídia Paralta Gomes

VI-Images/Getty

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Quando Gianluca Rocchi apitou para o intervalo do Benfica-Ajax, muito benfiquista terá respirado de alívio. Antes de mais, por uma razão bastante imediata: já nos 45’, os holandeses estiveram a centímetros de marcar, neste caso, de empatar, naquela que foi a única jogada de perigo digna de registo dos visitantes.

E depois, consequência-causa, porque se aquela era a única oportunidade que o Ajax havia deslindado ao longo de 45 minutos, é porque algo o Benfica estaria a fazer bem. E isso, para uma equipa em crise, já é motivo de alegria. Isto porque num jogo em que era obrigatório ganhar, sob pena da qualificação para a fase a eliminar da Champions passar a ser apenas uma miragem, os encarnados entraram com uma atitude competitiva a léguas daquela que penosamente mostraram no jogo da última sexta-feira frente ao Moreirense.

Com um meio-campo renovado, em que Gabriel e Gedson coabitaram (Pizzi começou no banco), e com o regresso de Salvio e Cervi ao onze, o Benfica conseguiu secar o meio-campo do Ajax, não permitindo, por sua vez, que chegasse qualquer bola ao rapidíssimo trio de atacantes constituído por Neres, Tadic e Ziyech. Do talentosíssimo Frenkie de Jong, o próximo grande médio do futebol, nem sinal.

E para lá de anular, o Benfica conseguia o resto. E por resto diga-se pressionar e atacar com perigo. Logo a abrir Grimaldo esteve perto do golo e aos 6 minutos Onana teve de defender com os pés um remate de Cervi, lançado em velocidade por Salvio. Ainda antes da meia-hora, a pressão encarnada deu os seus frutos. Depois de errar e ser obrigado a um chutão de recurso para a sua linha final, Onana saiu mal ao canto, deixou a bola passar e esta foi magneticamente para os pés de Jonas. O brasileiro, que não é rapaz de desdenhar presentes destes, viu a baliza órfã de guarda-redes e fez o primeiro.

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Com uma exibição frustrante na 1.ª parte, o Ajax ia-se vingando em lances a que podemos chamar de “viris” para não chamarmos de violentos. Porque futebol, havia pouco: aos 35 minutos, nem um remate, enquadrado ou não enquadrado, por parte dos holandeses.

Só de bola parada, no tal lance que fechou a 1.ª parte, houve Ajax. Schone marcou o livre, o Benfica, por razões que alguém explicará talvez um dia, colocou apenas três homens na barreira, e Vlachodimos salvou apertado. E depois de uma recarga que Ruben Dias cortou, Donny van de Beek rematou ao lado, com a baliza à mercê. De Jong, em cima da linha, também não foi capaz de fazer a emenda.

Suspiros de alívio, portanto, até porque o Benfica não merecia sofrer aquele golo.

Mas se não é apenas uma andorinha que faz a Primavera, no futebol não é uma 1.ª parte melhorzinha que vai levantar uma equipa errática como tem sido a do Benfica nos últimos meses. E perder Jonas e Salvio, os faróis individuais de um coletivo que anda meio fundido, foi fatal.

Na 2.ª parte o Benfica foi deixando o Ajax crescer, deixou de pressionar, deixou espaços onde eles não deveriam existir e o talento dos homens de Amesterdão apareceu. Aos 61’, Ziyech, quase do meio-campo, viu Tadic a fugir aos centrais do Benfica. A bola para lá seguiu, como que teleguiada, o primeiro remate ainda embateu em Vlachodimos, mas à segunda tentativa o sérvio marcou mesmo.

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E face à adversidade, agudizaram-se os problemas do Benfica, que já se adivinhavam desde o regresso para a 2.ª parte. Os encarnados deixaram de dominar o meio-campo, Gedson desapareceu e Rafa e Seferovic, que entraram para a vez dos lesionados Salvio e Jonas, foram em tudo inconsequentes.

Trapalhão e pouco objetivo, a certa altura o pecado do Benfica nem foi exatamente o perigo que deixou o Ajax criar, que na verdade nem foi muito, mas aquilo que não conseguiu aproveitar: as falhas dos holandeses cá atrás, a moleza de Schone e Van de Beek. A atitude da 1.ª parte que se esfumou na 2.ª, para dar lugar à total ansiedade de quem está em crise. E nem as duas bolas que miraculosamente Onana salvou já para lá dos 90’ disfarçam isso.

O 1-1 é bom para o Ajax, terrível para o Benfica, que podia e devia ter ganho, porque o Ajax não foi o Ajax que, por exemplo, empatou em Munique. E oportunidades destas não se desperdiçam. Mas o Benfica desperdiçou e agora está tudo muito complicado: com apenas 4 pontos, os encarnados têm de ganhar os dois jogos que restam e esperar que o Ajax não faça mais do que 1 ponto.

E isso seria um milagre ainda maior que aquelas duas bolas salvas por Onana antes do apito final.