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Liga dos Campeões

As memórias de Adrián

Quem diria que o homem que mantém vivo o FC Porto na Liga dos Campeões seria Adrián López? Num jogo em que os dragões só apareceram na hora de correr atrás do prejuízo (que é como quem diz, a 10 minutos do fim), um golo do espanhol, logo após o 2-0 da Roma, deixa o FC Porto a um golo de distância dos quartos-de-final da prova. Perspectivas bem melhores que a exibição no Olímpico

Lídia Paralta Gomes

ALBERTO PIZZOLI/Getty

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De Adriano dizia-se ser um rapaz dado às contradições. Ali nos inícios do século II, quando por Roma andou a imperar, tanto se preocupava magnanimamente com as finanças públicas e com a cultura como desatava cruelmente a fazer desaparecer gente que o havia aborrecido, rivais políticos, dissidentes, essas tramas imperiais dos tempos romanos.

Era um imperador enigmático, curioso.

Não consta, passados quase dois mil anos, que todos os Adrianos sejam figurões como era o Adriano de Roma mas esta terça-feira, na capital do império, houve pelo menos um Adriano, ou um Adrián, que manteve a Lusitânia a respirar na Champions. O salvador improvável do FC Porto parece até um rapaz pacato, de várias vidas e que vai esperando pacientemente pelas suas oportunidades.

Que, diga-se, nem sempre aproveita. Mas talvez agora esteja mais perto de escrever nas suas memórias que um dia foi essencial para virar uma eliminatória que aos 76 minutos da 1.ª mão parecia perdida, depois de dois golos de rajada do garoto Nicoló Zaniolo, um craque em potência aos 19 anos, depois de quase 80 minutos sem ideias de um FC Porto em que o único farol foi Danilo, pendular, o homem da calma infinita, o único capaz de manter a ordem.

Depois de uma 1.ª parte em que o FC Porto até entrou bem, a pressionar, mas rapidamente se extinguiu em bolas perdidas, passes de risco e pouca ligação ou criatividade, a Roma, que até já tinha tido a melhor oportunidade dos primeiros 45 minutos (remate ao poste de Dzeko aos 37’), foi à procura de resolver em casa estes oitavos-de-final da Liga dos Campeões.

ALBERTO PIZZOLI/Getty

Aos 50’, Bryan Cristante quase surpreendia Casillas, num remate-surpresa após uma receção que deixou a defesa do FC Porto congelada no relvado. Foi também do ex-Benfica o cruzamento tenso que aos 66’ deixou a bola à mercê do remate forte de Pellegrini, que mais uma vez Casillas salvou. Não foi à segunda, foi à terceira: aos 70’ Zaniolo aproveitou um grande trabalho de Dzeko na área, a segurar a bola até o jovem italiano se posicionar para o remate cruzado que dava uma vantagem merecida à Roma.

Talvez exagerada a vantagem de dois golos, conseguida apenas seis minutos depois. Numa jogada de transição rápida, Dzeko rematou ao poste, que caprichosamente ofereceu a recarga a Zaniolo que, por sua vez, agradeceu a gentileza.

Face a um FC Porto que até aí quase nada produziu (salvou-se um cabeceamento perigoso de Danilo aos 57’), esperava-se o pior.

ANDREAS SOLARO/Getty

Mas, na adversidade, viu-se o FC Porto que até aí se tinha escondido, ou não tinha conseguido fazer melhor. A troca do lesionado Brahimi por Adrián valeu jackpot a Sérgio Conceição. Apenas três minutos após o bis de Zaniolo, o intermitente espanhol recebeu um passe longo de Felipe, deixou para Soares e o brasileiro, quando tentava rematar, atrapalhou-se. Mas tal como o poste tinha sido simpático com a Roma, oferecendo-lhe de bandeja o 2.º golo, a atrapalhação de Soares acabou por ser uma bênção para os dragões: aquilo que deveria ser um remate tornou-se num passe de morte, que Adrián transformou em golo.

E assim, do nada, ficou tudo em aberto.

A melhor fase do FC Porto seguiu-se ao 2-1, com muita presença na área e um remate em arco de Herrera que quase empatava o jogo. Foi tarde e foi pouco, que jogar 10 minutos de bom futebol na Champions tende a não chegar para se ser feliz. O certo é que, mesmo chegando ao Dragão em desvantagem, o FC Porto está vivo, graças a um golo do inesperado Adrián, nome de imperador, nome de, quem sabe, salvador.