Tribuna Expresso

Perfil

Liga dos Campeões

Em Roma sê favorito

Está de volta a mais importante competição planetária de clubes, perdoem-nos a FIFA e o Campeonato do Mundo e os nossos amigos sul-americanos e a Libertadores, inflamada na última edição por um superclássico River-Boca. Há Liga dos Campeões para celebrar esta semana e por isso Luís Mateus tem algumas reflexões a adiantar sobre o Roma-FC Porto

Luís Mateus

JOSÉ COELHO

Partilhar

O Roma-FC Porto desta terça-feira (TVI e Eleven Sports 1, 20h) recolhe grande parte da atenção dos portugueses. Os dragões partem com um favoritismo que só os dois empates sucessivos na Liga (Vitória e Moreirense) e a lesão do influentíssimo Moussa Marega parecem de certa forma atenuar. Sérgio Conceição é um dos treinadores que pouca atenção dão à estatística, mas os números, ainda que tenham importância relativa, servem-nos de enquadramento: nunca o FC Porto foi derrotado pelo emblema da capital italiana - em quatro partidas houve dois empates e dois triunfos portistas, 6-1 em golos.

O primeiro confronto data de 1981, a contar para a segunda ronda da Taça das Taças. A 21 de outubro, nas Antas, o irlandês Mikey Walsh e o português José Alberto Costa dão vantagem confortável na primeira mão da eliminatória, numa época em que o FC Porto era treinado pelo austríaco Hermann Stessl. O 0-0 em Roma confirma a passagem aos quartos, com os belgas do Standard a serem aí carrascos inesperados, depois de 2-0 em Liège e 2-2 em Portugal.

O mais recente cruzamento entre FC Porto e Roma aconteceu no play-off de acesso à fase de grupos da Champions, em 2016-17: André Silva ainda evita a derrota da equipa de Nuno Espírito Santo, mas o 1-1 no Dragão parece comprometer as aspirações portistas. Só que uma exibição de gala no reduto dos giallorossi, com consequente triunfo por 3-0 após golos de Felipe (8), Miguel Layún (73) e Jesús Corona (75), valem mesmo a qualificação. A derrocada dos romanos começa também no capítulo disciplinar, com duas expulsões: Vermaelen em Portugal, De Rossi e Emerson no Olímpico. Outra máxima que os técnicos gostam de repetir é que não há jogos iguais e não há como não lhes dar razão.

A Roma deu sinais no início da época de estar mais consistente e até mais trabalhada, com um futebol mais ligado e assente na posse, em comparação com essa equipa de há duas temporadas que esteve no Dragão. Se o terceiro lugar na Serie A transata foi mais do mesmo, já a campanha na Liga dos Campeões, em que eliminou o Barcelona e só foi travada nas meias-finais pelo Liverpool – os Reds são mesmo a besta negra dos italianos, que já os tinham vencido na final da Taça dos Campeões Europeus de 1984 no desempate por grandes penalidades –, parecia ser uma boa base de trabalho para Eusebio di Francesco no seu segundo ano. Não começou mal, mas o rumo terá sido perdido a certa altura, o que não será alheio as recorrentes lesões entre os futebolistas mais importantes – dos quais se destacam Lorenzo Pellegrini, que falha também este embate, Javier Pastore e Diego Perotti.

O investimento foi na ordem dos 130 milhões – chegaram Nzonzi, Pastore, Justin Kluivert, Defrel, Schick e Olsen, entre outros –, contudo suplantado pelas receitas, que atingiram os 150. O excelente guarda-redes Alisson saiu para o Liverpool a troco de 62,5 e tem brilhado na Premier League e recebido inúmeros elogios de Jürgen Klopp, Nainggolan reforçou o rival Inter por 38 e Strootman foi contratado pelo Marselha por mais 25. Chegou também Iván Marcano, a custo zero, que reencontra agora os antigos companheiros. Também Bryan Cristante, antigo jogador do Benfica, cruza-se com os rivais do curto período que passou em Portugal.

Se o FC Porto continua líder apesar dos últimos tropeções, a Roma está certamente longe dos objetivos traçados, com um cinzento 6º lugar, atrás de Inter e Milan, que ocupam os dois poleiros Champions mais próximos, do líder Juventus (a 25 pontos) e do seu mais direto competidor Nápoles (a 14), e da Atalanta, em zona de Liga Europa. Os 7-1 sofridos em Florença nos quartos de final da Taça de Itália acrescentam travo ainda mais amargo à campanha e a pressão à volta do treinador tem-se intensificado.

Por sua vez, os dragões assinaram uma fase de grupos brilhante, com cinco vitórias em seis possíveis num grupo que sempre pareceu bem ao seu alcance, mas que podia ter-se complicado com o acidente de percurso que foi a perda de Aboubakar por lesão quando não havia Soares inscrito. Com competência, o obstáculo foi ultrapassado e agora Sérgio Conceição pôde recuperar o avançado brasileiro – inscrevendo ainda Fernando Andrade e Pepe –, embora saiba que agora é Marega quem não entra nas contas para a eliminatória. O maliano, pela versatilidade que possui e influência que acrescenta nos dois esquemas preferenciais, o 4x4x2 e o 4x3x3, é baixa de vulto. Se lhe juntarmos a ausência por castigo de Corona, as dores de cabeça aumentam certamente para o técnico.

O 4x3x3 deverá ser para manter, apesar do 1-1 em Moreira de Cónegos, com Otávio, Fernando Andrade e André Pereira a assumirem-se como os candidatos mais bem posicionados para substituir o mexicano, oferecendo obviamente cada um coisas diferentes à equipa.

A Roma, que cumpriu o seu papel, qualificando-se atrás do Real Madrid e eliminando CSKA Moscovo e Viktoria Plzen no grupo G, já pareceu bem mais acessível, sobretudo quando havia outro momento portista de forma e Marega em campo, mas mantém-se ao alcance da equipa de Sérgio Conceição, que também ele regressa a uma casa que bem conhece, embora vestindo outras cores. Ao serviço da rival Lazio conquistou uma Taça das Taças, uma Serie A e duas Taças nacionais, depois de ter representado também Parma e Inter.

Se o cenário clínico não é muito favorável do lado português, o mesmo acontece com os transalpinos. Com várias baixas de longa duração (Perotti, Ünder e Schick), também o guarda-redes titular Robin Olsen e o central Kostas Manolas ficaram de fora por problemas físicos da vitória em Verona frente ao Chievo (0-3).

No aspeto disciplinar há cuidados extra a ter do lado portista: Éder Militão, Otávio e Pepe estão em risco para a segunda mão, enquanto os romanos apresentam cadastro limpo.

A 11ª vítima do “baby-face killer”?

Jogo grande, daqueles imperdíveis, em Old Trafford: Manchester United-PSG (Eleven Sports 2, terça, 20h). Faltam-lhe ingredientes, sejamos honestos: as lesões de Neymar e Cavani (Meunier é também baixa) desfazem um dos melhores tridentes de ataque da atualidade, só comparável talvez ao do Barcelona, e obviamente é ainda mais especial assistir a um jogo com jogadores deste calibre. No entanto, não deixa de ser um must see.

O PSG regressa a Inglaterra, onde já passou por momentos difíceis mais a oeste, em Liverpool, há uns meses. A falta de concorrência interna contraproducente face a uma maior exigência sempre que atravessa fronteiras é recorrentemente ponto de discussão num conjunto que, ano após ano, sonha com o maior troféu continental e que contratou um treinador obcecado com o pormenor.
Pela frente há um Manchester United de sorriso rasgado, com as nuvens negras de crise definitivamente afastadas. A era Solskjaer, no pós-Mourinho, com o “baby-face killer” a somar 10 vítimas em 11 possíveis, que é como quem diz 10 vitórias e 1 empate em 11 jogos, está inflamada. Vê-se que a equipa recuperou alegria e sente-se livre para jogar o seu melhor futebol. Nem as baixas de Valencia, Rojo e Darmian assombram o moral de uma equipa que até entrou na zona Champions no fim de semana, com o 4º lugar da Premier depois do atropelamento do Chelsea ali ao lado, no Etihad.

É a primeira vez que os dois gigantes se defrontam e tem tudo para que seja especial. Um deles, já se sabe, quebrará um ciclo negativo na Europa: o Manchester United, que tem três taças no currículo (2007-08, 98-99 e 67-68), não chega aos quartos de final desde 2013-14 (eliminado pelo Bayern), enquanto o PSG foi afastado nas últimas duas edições nesta fase por Barcelona (4-0 no Parque dos Príncipes, 6-1 no Camp Nou) e Real Madrid (1-3 no Bernabéu, 1-2 em casa), e continua longe do melhor registo: as meias-finais de 1994-95, quando caiu perante o Milan, finalista vencido.

Sancho a preparar a traição ou Kane a continuar besta negra?

Na quarta-feira (Eleven Sports 2, 20h), mais dois embates muito aguardados. Em Londres, o Tottenham, 3º classificado da Premier e qualificado em 2º atrás do Barcelona num grupo B que contava ainda com Inter e PSV, recebe um Borussia Dortmund novamente de alta rotação, líder da Bundesliga, embora com o Bayern a apertar na luta pelo título. Na fase de grupos, os alemães, orientados por Lucien Favre, passaram em primeiro, com o Atlético de Madrid colado e Club Brugge e Mónaco eliminados.

A excelente equipa de Mauricio Pochettino, que entrou na história em Inglaterra por ser a primeira a não se reforçar nas duas janelas de transferências da mesma época e continua bem dentro da luta pelo título, tem em Harry Kane a principal figura e também a besta negra dos alemães, uma vez que marcou três golos em outros tantos encontros entre as duas equipas. Só que no histórico de confrontos regista-se um empate técnico: quatro partidas, dois triunfos para cada lado, 7-6 em golos para os germânicos.

Nos oitavos de final da Liga Europa de 2015-16, o Dortmund venceu os dois jogos frente ao Tottenham com um 3-0 no Westfallenstadion e um 2-1 no White Hart Lane. Marco Reus, que se encontra em dúvida e falhou o empate a três golos do fim de semana frente ao Hoffenheim, assinou um bis nessa primeira mão. Por sua vez, o Tottenham vingou-se na última edição da Liga dos Campeões, ganhando igualmente as duas partidas da fase de grupos. 3-1 em Wembley, casa emprestada até hoje devido às obras no seu estádio, e 2-1 na Alemanha.

Se Reus continuar de baixa, todas as atenções viram-se curiosamente para um inglês, Jadon Sancho, que tem quebrado vários recordes aos 18 anos. Depois de ser o mais novo a marcar nesta Liga dos Campeões, tornou-se no sábado igualmente aquele que chegou aos oito golos na Bundesliga com mais tenra idade. Um jogador muito especial. Também Götze, a atravessar bom momento, tem obrigatoriamente mais responsabilidade, numa altura em que Paco Alcácer continua sem marcar em 2019.

O melhor que os Spurs conseguiram na prova foi a presença nas meias-finais em 1961-62, caindo perante o Benfica na então Taça dos Campeões Europeus. Na Liga milionária, os quartos de final de 2010-11, com a eliminação perante o Real Madrid, continuam como melhor registo. Já os alemães venceram a prova milionária em 1996-97. Jogava nessa equipa o português Paulo Sousa.

Ciclos invertidos no Arena

O melhor Real Madrid da época, 13 vezes vencedor da competição, enfrenta esta quarta-feira, em Amesterdão (Eleven Sports 1, 20h), um Ajax a atravessar o seu pior momento - está a seis pontos do PSV, depois de uma derrota inesperada em Almelo, frente ao Heracles, resultado que se segue à goleada sofrida em Roterdão frente ao Feyenoord por 6-1 em finais de janeiro e a um 4-4 com o Heerenveen em casa uma semana antes. Mas a ideia de jogo do Ajax, e que tantas dificuldades colocou a Benfica e Bayern na fase de grupos, continua lá, tal como o já reforço do Barcelona para a próxima época Frenkie de Jong (embora em dúvida, por questões musculares).

Quanto ao Real, embalados por um Karim Benzema a faturar em grande, subiu ao segundo lugar da liga espanhola e reduziu distâncias para o Barcelona. O quarto troféu consecutivo também aqui pode estar na mira de um emblema que não tem rival na competição. O único senão é o estado físico do francês, que apresentou queixas nesta segunda-feira e terá de ser reavaliado.

Se os holandeses estão longe dos tempos áureos dos três títulos seguidos na década de 70-71, 71-72 e 72-73, comandados por Rinus Michels primeiro e Stefan Kovacs depois, e até das equipas de 90, com Louis van Gaal no banco, tendo levantado o troféu em 94-95, o grupo atual será certamente um dos que mais perto estiveram recentemente desse nível - tem perante o Real Madrid uma grande oportunidade para fazer história.