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O senhor Champions manda cumprimentos para Madrid

Depois de perder em Madrid, por 2-0, a Juventus virou a eliminatória frente ao Atlético, graças a um homem de 34 anos que já leva 124 golos na Champions: Cristiano Ronaldo marcou os três golos que puseram os italianos nos quartos de final da prova... nos quais já não está a ex-equipa do português, atual detentora do troféu: o Real Madrid

Mariana Cabral

MARCO BERTORELLO

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A 10 de julho de 2016, aos 25 minutos da final do Europeu, sentada na bancada de imprensa do Stade de France, a ver Cristiano Ronaldo a sair do campo em lágrimas, numa maca, chorei. Umas filas mais atrás, com olho de lince, o meu colega Diogo Pombo, sabendo da minha, vá lá, "preferência" por Lionel Messi no maior duelo contemporâneo do futebol, nunca mais deixou passar uma semana na Tribuna Expresso em que não me atirasse, com um sorriso trocista, esse momento de fraqueza: "Então e aquela vez que choraste com o Ronaldo?"

Lembrei-me, obviamente, disto, esta noite, quando as câmaras no estádio da Juventus mostraram Georgina Rodríguez, namorada de Ronaldo, e Diego Simeone, treinador do Atlético de Madrid, emocionados com o que tinha acabado de acontecer na segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões - por razões díspares, claro está.

Quem ama verdadeiramente o futebol, como disse um dia Luís Freitas Lobo de forma tão poética, não é capaz de ficar indiferente quando vê história a acontecer.

E, esta noite, em Turim, todos nós vimos história, daquela verdadeiramente épica, a acontecer, graças a um homem que, aos 34 anos, desafia quase toda a lógica que nos impingem no futebol.

Daniele Badolato - Juventus FC

Porque a lógica dizia-nos que Ronaldo ainda só tinha um golo marcado nesta Champions; a Juventus não jogou nada bem em Madrid e já tinha dois golos de desvantagem; e as equipas de Simeone não se importam por aí além de passar quase todo o jogo atrás da linha da bola, defendendo a vantagem com unhas, dentes e cabeçadas.

Lembrei-me, também, daquele jogo em 2015/16 quando o Bayern de Munique de Pep Guardiola até massacrou o Atlético de Madrid de Simeone, mas, mesmo assim, não conseguiu recuperar da desvantagem de apenas 1-0 fixada em Espanha. Naquela altura, na 2ª mão, na Alemanha, o Bayern ainda conseguiu marcar dois, sim, mas sucumbiu porque sofreu um, marcado por Griezmann, o que permitiu aos espanhóis eliminar os alemães com um golo fora e chegar à final da Champions de então.

E é precisamente aí que reside a diferença relativamente ao jogo desta noite: a equipa de Simeone, hoje com Morata na frente de ataque (Diego Costa estava castigado - e Griezmann passou ao lado do jogo) - praticamente abdicou de atacar, nem sequer criando perigo em transições ofensivas - os jogadores travavam sempre o ímpeto de acelerar o ataque. Contam-se, aliás, pelos dedos de uma mão as vezes em que os espanhóis chegaram à baliza de Szczesny, que acabou por ter uma noite relativamente descontraída.

MARCO BERTORELLO

Para isso também contribuiu, em grande medida, a forma como Massimiliano Allegri decidiu apresentar a equipa em campo. A imprensa italiana tinha falado muito, durante a semana, numa possível mudança para um sistema de três centrais, e a verdade é que Allegri, não colocando em campo os três centrais, jogou, ainda assim, com três centrais.

Explicando: em organização ofensiva, Emre Can baixava para junto de Chiellini e Bonucci, mais à direita, o que permitia aos italianos não só ter superioridade numérica perante a primeira linha de pressão do Atlético, composta por Morata e Griezmann, como lançar de forma bem larga e profunda os laterais-que-foram-extremos João Cancelo, pela direita, e Spinazzola, pela esquerda, com Pjanic, Matuidi e Bernardeschi a aparecerem por dentro, e a permitirem a Ronaldo e Mandzukic focarem-se essencialmente na finalização na área.

Logo aos três minutos, Cristiano dava o primeiro alerta, com a bola a entrar na baliza adversária, mas houve falta do avançado sobre Oblak. Os adeptos tiveram de esperar até aos 27 minutos para ver o primeiro golo da noite: depois de um belo lance de Bernardeschi (grande jogo), que cruzou para a área, Ronaldo apareceu nas costas de Juanfran - esta noite a lateral esquerdo, pela ausência por lesão de Filipe Luís - e, utilizando a impulsão que lhe é conhecida, cabeceou para o 1-0.

Ao contrário do que seria expectável, até foi depois do primeiro golo da Juve que o Atlético esteve melhor: saindo lá de trás - defendia quase sempre com 11 jogadores atrás da linha do meio-campo - e conseguindo manter a posse mais à frente em alguns períodos permitiu afastar o perigo da baliza de Oblak, mas um cabeceamento de Morata, ao lado, em cima do intervalo, foi o melhor que conseguiu. De resto, manteve-se lá atrás, praticamente só a defender e - pior - a defender perto da área.

Porque, do outro lado do campo, havia um homem que não falhava cabeceamentos: e mais, cabeceamentos estando ladeado por dois centrais duros e experientes como são Godín e Giménez. Aos 48 minutos, depois de um cruzamento de Cancelo, Ronaldo saltou melhor e mais alto entre os centrais do Atlético para cabecear a bola para dentro da baliza de Oblak, que ainda defendeu, mas já para lá da linha final (a tecnologia da linha de golo deu uma ajudinha ao árbitro).

Se com um 2-2 e dois golos de Ronaldo a noite já assumia contornos épicos, mais ainda ficou quando o senhor Champions - é o melhor marcador da história da prova, com 124 golos - fez o hat trick. Já depois de Allegri arriscar tudo e encostar o Atleti às cordas - Dybala e Keane entraram para a saída de Spinazzola e Mandzukic; e Keane até falhou um golo isolado em frente a Oblak -, Bernardeschi (já disse que fez um grande jogo?) livrou-se de Correa (que tinha entrado para o lugar de Lemar), entrou na área e... foi rasteirado.

Aos 86 minutos, penálti que, como não podia deixar de ser, Cristiano Ronaldo assumiu sem problemas. Oblak para um lado, bola para o outro.

E estava feita a remontada, em mais uma noite histórica: para Ronaldo, para a Juventus, para a Liga dos Campeões, para o futebol e, claro, para quem, como nós, gosta tanto deste desporto.

PS: Diogo, esta noite, a vê-lo na televisão, chorei outra vez. Podes gozar à vontade. Futebol é emoção.