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O que dizia o profeta Cristiano quando era preciso salvar o Real Madrid frente ao Wolfsburg em 2016? (Sim, ele já tinha feito isto antes)

Em 2016, nos quartos de final da Liga dos Campeões, o Wolfsburg derrotou o Real Madrid, na Alemanha, por 2-0. Mas, na 2ª mão, Cristiano Ronaldo fez exatamente o mesmo que fez esta terça-feira pela Juventus: salvou a equipa de ser eliminada, ao marcar um hat trick

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Anadolu Agency/Getty Images

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Na gaveta da memória de Zinedine Zidane ainda vivia aquele zurdazo de ouro ao Bayer Leverkusen. Santiago Solari, o treinador que agora Zizou substitui no Real, lançou Roberto Carlos pelo túnel das travessuras e o lateral mandou a bola para o céu para avisar as estrelas para o que estava por acontecer. Com som, se faz favor:

As estrelas aplaudiram, principalmente aquelas inscritas na bola da competição de clubes mais importante. Zidane pertence àquela prateleira dos futebolistas especiais da Liga dos Campeões. Penduradas as botas, quando chegou ao banco do clube de Madrid, esse território que desconhecia e de que pouco tinha ouvido falar, queria voltar a beijar a orelhuda mais bonita que anda por aí. Desta vez, em vez de inventar aquela bola com a canhota (na qual provavelmente poucos canhotos teriam sucesso), escolheria a tática, as ideias e a posição das peças. Estávamos em janeiro de 2016.

Tony Marshall - EMPICS/GETTY IMAGES

Rafa Benítez, o homem que caiu para entrar o francês, tinha feito tudo direitinho no Grupo A, terminando à frente de PSG, Shakhtar e Malmö. Cristiano Ronaldo, o maior goleador da competição, marcou 11 dos 19 golos. Nos “oitavos” veio a Roma: 2-0, 2-0. Ronaldo? Mais dois. A empatia com Zidane ia sendo vislumbrada nas celebrações. O português era o seu maior aliado, uma espécie de porteiro simpático para a terra dos sonhos.

Até que chegou o Wolfsburg de Dieter Hecking. Soava a mera formalidade a chegada à semifinal. Vieirinha, Bas Dost e Diego Benaglio faziam parte dessa equipa, que contava ainda com estrelas como Draxler e Schurrle. Depois de um golo anulado a Ronaldo logo aos 2’, Ricardo Rodríguez adiantou os alemães, de penálti. Pouco depois, aos 25’, Maximilian Arnold antecipou-se a Sergio Ramos ao primeiro poste e empurrou para o dois-zero. Acabou assim. Vida difícil para o sonhador e pacato Zidane.

Calma, mister. “Terça-feira [segunda mão] será uma noite perfeita, será mágica, com o vosso apoio vamos dar o melhor no campo e vamos ultrapassar a eliminatória”, anunciava aos adeptos Cristiano na véspera do jogo decisivo com os germânicos. “A equipa tem confiança, o treinador tem confiança e os adeptos têm de ter confiança também. Tem de ser uma noite perfeita. Todos os aspetos são importantes. Os futebolistas têm de correr, lutar e ser intensos durante os 90 minutos. Temos de ter a cabeça fria, paciência e estar preparados para sofrer.”

John Walton - EMPICS/Getty Images

Palavras sábias. Cristiano Ronaldo pode ser criticado por muita coisa, certas atitudes aqui e ali ou até algum alheamento em determinados jogos, participando pouco, mas há algo que nunca vai faltar: mentalidade. E isso é contagioso, até porque ele era e é o primeiro a acreditar que é possível. Seja o que for.

Conclusão: na segunda mão, Cristiano marcou três golos a Benaglio e o Real Madrid seguiu viagem para as “meias” (e venceria a final vs. Atlético). Afinal, e graças a um adivinho português, Zidane voltaria a beijar a sua esbelta orelhuda. A lenda do francês, que soluçou na Alemanha, começaria ali.

“Estejam prontos para a reviravolta”

Na final de tarde de domingo, agora em Turim, a mensagem de Cristiano voltou a iluminar os olhos de quem precisava. “Terça-feira à noite vamos pensar positivo. Vamos acreditar. É possível mas precisamos da vossa ajuda", começou.

"Façam do estádio [um lugar] bom e bonito. Estejam todos juntos. Vamos fazer o nosso trabalho no campo, para tentar marcar golos e ganhar o jogo. Precisamos do vosso apoio. Eu estou pronto. Estejam prontos para a reviravolta."

E foi assim, recordando as palavras que fizeram a caminha para o jogo com o Wolfsburg, que o déjà vu se cumpriu: hat trick, engolindo a derrota por 0-2 contra o Atlético, que não mordeu como costuma morder, quem sabe deslumbrado e atarantado pela ambição e eletricidade alheias.

O que se passou já todos sabemos, mas, pelo sim pelo não, dê um salto à crónica do jogo (que até lágrimas mete): AQUI.