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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Atenção, FC Porto: 11 razões para temer o Liverpool

O FC Porto joga esta terça-feira em Liverpool (20h, Eleven Sports e TVI) e o treinador Blessing Lumueno explica por que razão (ou melhor, razões) é que a equipa de Sérgio Conceição deve temer a equipa de Jürgen Klopp

Blessing Lumueno

Laurence Griffiths

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1. Salah, Mané e Firmino: É impossível pensar numa frente de ataque do Liverpool sem a conexão e as sinergias criadas por estes avançados quando estão juntos. Sempre que um falta, a equipa ressente-se: Salah mais focado nos momentos para ser ele a finalizar, Mané e Firmino mais altruístas nos momentos de notoriedade. Dificilmente aparecem sozinhos nas situações de finalização, fazendo cada um deles o sprint (quando outro se isola) para criar superioridade contra o guarda-redes. A complementaridade entre eles é incrível; sabem sempre onde devem aparecer, para onde devem ir, facilitando a tarefa dos colegas. Conhecem-se como ninguém, e sabem com exatidão o que cada um vai fazer com bola, antecipando-se, assim, aos defesas. É muito boa a forma como se comportam em ataque posicional, e é assinalável a qualidade e precisão com que resolvem as situações em que há espaço.

2. Wijnaldum: Pequeno e franzino, com perfil de jogo discreto, mas de uma inteligência extraordinária. É o elemento preponderante e diferenciador do meio-campo do Liverpool, e joga com tanto foco nas tarefas coletivas que dificilmente alguém lhe dá o mérito que tem tido no sucesso da equipa. A sua entrega às necessidades da equipa só tem paralelo com a inteligência com que joga quando a bola lhe chega aos pés. Se o Liverpool tem pausa, é por Firmino, e muito pelo trabalho deste médio a refrear os ímpetos dos ciclistas que dominam a equipa.

3. Virgil (é mesmo com minúscula o “van”) van Dijk: Contam-se pelos dedos de uma mão os centrais com o nível deste. Qualidade na perceção das jogadas e dos posicionamentos a adotar, inteligência na abordagem aos lances mesmo que em inferioridade, fabuloso no jogo de cabeça (atenção às bolas paradas!) e intuitivo. Se a isso somarmos a velocidade, a força, e a forma como lidera a equipa, temos aqui um central ímpar no futebol mundial.

4. Alexander-Arnold: Quem é que se lembra que é um miúdo de 1998, com apenas vinte anos? Diz-se sempre, no caso dos jovens, que o futuro lhes pertence; deste devemos dizer que apesar do futuro risonho que se adivinha, no presente já é uma figura do futebol mundial. É difícil sobreviver no futebol vigoroso dos graúdos em Inglaterra, mais ainda numa posição onde defende em quase todos os jogos o melhor jogador do adversário (os extremos). Ainda assim, não se deixa prender pelo perigo que pode significar subir no terreno e vai somando assistências nas situações em que se envolve no último terço.

David Ramos - FIFA

5. Alisson: Do guarda-redes titular da seleção brasileira bastaria dizer que relega, sem discussão, Ederson para o banco. Das qualidades técnicas na defesa da baliza, à fantástica velocidade de reação, soma um bom controlo da profundidade, um competente jogo de pés, e um controlo incrível dos lances em que deve sair da baliza para se impor como dono e senhor de todas as bolas onde as mãos devem chegar primeiro que as cabeças. Juntamente com tudo isso, ainda é dono e senhor de uma personalidade monstruosa, que não se deixa levar pelos erros que aqui ou ali vai cometendo.

6. Organização Defensiva: A forma como a equipa pressiona é única no mundo. Todos orientados para fechar linhas de passe exteriores, com os avançados a entenderem no pormenor como e quando devem pressionar os centrais, quem fecha o médio defensivo, e de que forma devem evitar que o adversário consiga variar o corredor. Fechando as linhas de passe exteriores, e induzindo o adversário a jogar dentro, pressiona de forma feroz os passes verticais, que estão assinalados como momento fundamental para recuperar a bola. Uma das coisas mais impressionantes da equipa de Klopp é que, para lá da agressividade, que não dá espaço ao adversário para jogar por entre as suas linhas, existe uma preocupação em não fazer falta no momento de pressão. Estão claramente focados em provocar o erro, para depois o aproveitar o contra-ataque. No meio campo defensivo alterna entre 1x4x3x3 e o 1x4x4x2, com o extremo do lado contrário a ficar um pouco mais subido focado no movimento que deve fazer quando a equipa recupera a bola.

7. Transição Ofensiva: É no seguimento do momento de recuperação de bola que a equipa se notabiliza. Não há, no planeta, melhor contra-ataque do que este. Pela forma como os jogadores estão orientados para pressionar, e depois se organizam para aproveitar rapidamente o erro; Firmino, que fecha o médio defensivo, está entre linhas para receber de costas, tocar de frente, e atrair a pressão – Salah e Mané, que se dividem entre fechar a linha de passe exterior e o central do lado contrário, disparam para aproveitar o espaço existente entre os defesas. Um numa desmarcação mais horizontal, abrindo por já estar na linha dos defesas, e outro num movimento em diagonal do corredor lateral em direção à baliza. A passagem do 1x4x3x3 para o 1x4x4x2 em organização defensiva no meio-campo defensivo, que resulta numa troca posicional entre Firmino, que aparece no corredor lateral para arrastar jogadores, e o extremo que se movimenta em direcção ao corredor central, sendo ele a primeira prioridade para receber bola nesse momento.

8. Ataque Posicional: Apesar de não ser declaradamente, nos jogos grandes, uma equipa de organização ofensiva, tem referências de ataque muito boas. Tem apoios frontais seguidos de ruturas, tem movimentos para criar e aproveitar os espaços à frente da última linha, tem combinações nos corredores laterais, e tem milhões de movimentos de profundidade. Tem uma variabilidade muito boa nas posições em que os extremos aparecem, dando-lhes a possibilidade de receberem dentro e de costas para combinar ou acelerar, como fora e enquadrados para atacarem a defesa. A tudo isto junta uma agressividade ímpar no ataque à baliza – sempre que tiverem uma possibilidade de rematar não vão perdoar.

9. Transição Defensiva: Tem no momento em que perde a bola das reacções à perda mais agressivas da Europa. Os jogadores pressionam, nesses momentos, com ferocidade para facilitar ao máximo o trabalho dos homens que ficam mais atrás a dividir os lances em que o adversário consegue fugir da pressão e jogar mais directo. Tem jogadores rápidos na percepção dos lances, e com passada larga para ajudar a resolver esses problemas.

10. Não sofre quando não tem a bola: Percebe-se conforto que todos os jogadores sentem no momento de organização defensiva, entendendo que esse momento é um dos que mais aproveitam, se recuperarem a bola, para chegarem rapidamente e em boas condições à baliza.

Simon Stacpoole/Offside

11. Jürgen Klopp: É um treinador com uma ideia de jogo bem vincada e tem conseguido que as suas equipas sejam sempre o reflexo da sua personalidade. A equipa beneficia do que o treinador lhe transmite e não perdoa na hora de “matar” os jogos quando o adversário está por baixo do ponto de vista emocional. O entusiasmo com que Klopp vive os jogos é o mesmo com o qual a equipa joga e arrasta os adeptos consigo. Não é coincidência já ter conseguido duas finais europeias com o Liverpool, uma vez que é um treinador que prepara muito bem os jogos de detalhe, de pormenor. O modelo de jogo, o treinador, e a qualidade dos jogadores são a mistura perfeita para que se possa temer este novo Liverpool na regularidade e, sobretudo, nas eliminatórias. A obra é de Klopp que conseguiu transformar uma equipa que não entra no top 5 das equipas com melhores individualidades no mundo, mas que se posiciona como a segunda melhor equipa da actualidade.