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Desperdiçar e ver jogar

Com golos de Keita e Firmino, Liverpool fica mais perto de alcançar as "meias" da Liga dos Campeões. FCP não conseguiu jogar e sofreu com a pressão dos homens de Anfield

Hugo Tavares da Silva

Julian Finney/Getty Images

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Danny Murphy, Lei de Murphy e os 6599 dias entre eles. A primeira vez que o FC Porto encontrou o Liverpool na Europa foi numa noite de março de 2001: Murphy marcou o primeiro golo desta história (Owen fez o outro, 2-0). Esta noite voltaram a jogar, em Anfield, e as coisas não correram nada bem aos portugueses, que continuam sem ganhar em Inglaterra. E tudo começou com um golo de Keita, aos 6’. Foi uma infelicidade (a bola desviou em Óliver). Murphy.

“O resultado do último ano é mais valioso para o Porto do que para nós”, refletia Jürgen Klopp na véspera. Aquele zero-cinco, no Dragão, podia relaxar uns e espicaçar os outros. Mas não foi nada disso que aconteceu. O Liverpool esteve quase, quase sempre em cima do FCP. E melhor. Muito melhor.

Sérgio Conceição deixou Yacine Brahimi no banco e lançou uma equipa com Danilo, Óliver, Ótavio, Corona, Marega e Soares. Até poderia esboçar-se alguma ousadia no pensamento, mas rapidamente ficou perceptível que Maxi Pereira ia fazer companhia a Felipe e Militão muitas vezes, convidando Corona a descer para formar a linha de cinco. Marega, que teria uma noite infeliz, fechava na esquerda, quem sabe para abrandar as aventuras de Alexander-Arnold.

O FCP até entrou bem, com uma combinação entre Otávio-Corona-Marega, mas o maliano chutou para fora. Apesar do atrevimento no campo dos homens que nunca andam sozinhos, a partir daí foi uma cantiga triste para os forasteiros.

Fabinho, atento e sábio, fazia as coberturas e fechava os triângulos, quando era preciso ajudar a bola a viajar de bota em bota. Keita fez lembrar o Keita do Leipzig, com conduções venenosas e arrojo no toque de bola. Henderson, que oferece dimensão física à inglesa, esteve particularmente bem com bola e chegou-se à frente, complicando a organização defensiva dos portistas. Na frente, nem vale a pena explicar muito, certo? Salah, Firmino e Mané são de outro campeonato…

Aos 6’, Klopp festejou à Klopp. Milner apropriou-se da bola no meio-campo e lançou, de primeira, Mané na esquerda. O camisola 10 esperou, olhou nos olhos Maxi e Corona, e tocou para Firmino na área. O brasileiro, quem sabe o que pensa mais rápido no relvado, meteu atrás para Keita, que chutou e beneficiou de um desvio em Óliver, 1-0.

O campo ficou gigante. O Porto tentava encolher, esmifrar a qualidade dos ingleses, mas também via a baliza de Alisson Becker cada vez mais longe. Precipitações atrás de precipitações. Poucas soluções para sair a jogar. Muito jogo direto. Pouco tempo para respirar e pensar. Os erros acumulavam-se e, depois de um passe de Otávio cheio de sentimento de culpa, Salah apareceu isolado, mas a mancha de Iker Casillas impressionou o egípcio, que desviou para fora.

Alex Livesey - Danehouse

Danilo tentava apagar todos os fogos e até tocava para começar curto, mas não havia serenidade para guardar a bola longe dos pés dos rapazes de vermelho. O Liverpool de Klopp é como Klopp: urgente, alegre e esfomeado.

E foi numa destas vagas imparáveis, como as ondas do mar que acabam sempre por vir, que o Liverpool chegou ao dois-zero. Firmino, recuado como gosta, encontrou Henderson perto do corredor direito. O capitão dos reds estava ali para fazer a cobertura à subida de Arnold. A linha do Porto estava montada com cinco homens (seis, se contarmos com Marega, muito perto de Alex Telles). Henderson descobriu Arnold naqueles buracos que só os futebolistas deste nível logram fazer; o lateral cruzou, Firmino encostou, 2-0.

Marega, tal como aconteceria três ou quatro vezes durante o jogo, teve oportunidades para marcar, umas mais flagrantes do que outras. Com a canhota, obrigou Alisson a ir ao chão. Foi uma bela bola de Óliver, que viveu amordaçado quase todo o jogo. O perigo dos caseiros era sempre mais perigoso do que o perigo dos outros, por isso Firmino ameaçou o três-zero, depois de um passe sublime de Keita.

Brahimi já aquecia.

Antes da segunda parte arrancar, Iker Casillas foi aplaudido pelos adeptos ingleses atrás da baliza. Genial, diria o espanhol.

A segunda parte não teria golos e até teve um Liverpool mais contido, menos avassalador. O heavy metal de Klopp talvez esteja a amolecer. Talvez o alemão considere que seja útil, por vezes, controlar o jogo com a posse de bola. O FCP continuaria sem ideias.

Brahimi entrou aos 62’ e, nos momentos posteriores, até se viu a equipa com mais coragem para passar a bola aos colegas. Não durou muito, é certo, mas voltaria a ver-se a mesma atitude. O argelino não teve muitas oportunidades para assustar aquela gente, mas trouxe firmeza na alma.

É verdade também que a pressão do Liverpool era menos intensa.

Os reds continuavam a explorar as linhas, com Mane, Firmino e Salah, que, ainda assim, foi travado várias vezes por Militão, um dos melhores do FCP. Do outro lado, Van Dijk ia dando ralhetes e cortava quase tudo.

Sérgio Conceição acabaria por lançar ainda Bruno Costa (por Óliver) e Fernando Andrade (Maxi), mas pouco ou nada mudaria. Nem o desacerto de Marega, que aos 78’ voltou a ter uma bola dentro da área. A canhota chutou para fora. Otávio implorava, junto à pequena área, por um bilhete para a glória.

Apito final em Anfield. A primeira parte até obrigou a memória a contar coisas do passado, mas a segunda metade trouxe mais calma, menos desatino.

Dois-zero: difícil mas recuperável. Agora não há nada a perder. Mas é melhor deixar todos os Murphys fora do Estádio do Dragão.

E o desacerto.