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Liga dos Campeões

Nuno Amado

Nuno Amado

Professor universitário

A estratégia da identidade: o atrevimento e a insolência do Ajax (porque, quando há qualidade, o piano carrega-se sozinho)

"Quão estúpido seria se, com jogadores tão atrevidos como aqueles, Erik Ten Hag tivesse optado por uma estratégia de menor risco?", questiona Nuno Amado, elogiando a identidade do Ajax perante a Juventus (e não só), que quebra com alguns preconceitos do futebol: "Afinal sempre é possível jogar à bola sem carregadores de piano?"

Nuno Amado

FILIPPO MONTEFORTE

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Há um certo franciscanismo que, de quando a quando, se manifesta no adepto de futebol. Refiro-me em concreto àquele sentimento, comum aliás a todos os desportos, que nos leva a torcer pelos mais fracos e pelos mais pobres. Parece existir um certo regozijo no ser humano comum em ver tombar os gigantes. É como se a queda os tornasse mais humanos. Quando um campeão é derrotado, o mundo volta a fazer sentido para os que o rodeiam. É mais fácil dormir à noite sabendo que essas pessoas não são diferentes de nós, e que as proezas delas afinal não as distinguem da nossa vulgaridade. A menos que sejamos adeptos ou gostemos muito do favorito num determinado confronto, a tendência geral é torcer pelo contendente teoricamente mais fraco. E maior é essa tendência, creio, quanto menor for o conhecimento e o interesse pelo desporto em questão.

Confesso que este fenómeno, como outros que caracterizam o comportamento irracional das massas, me aborrece um pouco. No caso particular do futebol, aborrece-me que não se tenha em conta o mérito de cada uma das equipas e que não se avalie aquilo a que se propõem, a audácia com que encaram o desafio ou, simplesmente, a forma como procuram confirmar ou contrariar o favoritismo teórico. A menos que as nossas preces tivessem o poder de equilibrar a contenda, e servissem portanto para aumentar o nível do espectáculo ou a incerteza no resultado, desejar o sucesso dos menos aptos é tão absurdo como desejar que um rato vulgar tenha a sorte de ficar com o queijo pelo qual se vai babando enquanto se encaminha lampeiro e desprevenido para a ratoeira. O desporto é competitivo, por definição, e é normal que tenha mais sucesso quem quer que melhor compita. A tendência para torcermos pelos mais fracos é, por isso mesmo, de espírito antidesportivo.

O Ajax de Erik Ten Hag acaba de fazer à Juventus o que tinha feito há umas semanas ao Real Madrid. Mas este Ajax não é apenas um tomba-gigantes, no sentido normal da expressão. É surpreendente que tenha conseguido eliminar dois colossos e esteja nas meias-finais da Liga dos Campeões, claro, mas quem viu as duas eliminatórias não pode com franqueza recusar que os holandeses tenham sido bem superiores a qualquer um dos adversários. Ainda que, teoricamente falando, o Ajax não fosse o favorito a passar, foi claramente a melhor equipa em campo nos quatro jogos. Não o foi apenas por ter ganho, como tantas vezes sucede entre quem comenta futebol. Pela forma corajosa com que encarou as eliminatórias, pela qualidade que apresentou, merecia sempre estar onde está, mesmo que, por qualquer incidência infeliz, não tivesse conseguido ultrapassar estes adversários.

O futebol, por ser um jogo no qual os detalhes muitas vezes são decisivos, presta-se a muitasinjustiças, e era perfeitamente possível que o Ajax, mesmo tendo sido mais forte, não tivesse conseguido seguir em frente. Mas isso não apagaria o extraordinário desempenho dos holandeses. Torcer pelo Ajax, em qualquer destas duas eliminatórias, não era pois torcer pelo mais fraco.

Ter sido mais forte, aqui, não é simplesmente ter sido mais eficaz ou competente na hora de atirar à baliza. Pelo contrário, se o Ajax tivesse sido eficaz e competente a definir aquilo que criou, teria goleado os espanhóis e os italianos, e estaríamos a falar de humilhações históricas. O Ajax foi mais forte na medida em que subjugou por inteiro esses dois adversários. Falando apenas dos quartos de final, não houve momentos em que se sentisse que a Juventus estava mais próxima do apuramento. Mesmo quando se pôs em vantagem, deu sempre a sensação de que o Ajax podia e iria recuperar. E a forma como os holandeses iam construindo as suas jogadas, como faziam deslocar as peças defensivas adversárias a seu bel-prazer, como punham aqueles jogadores consagrados todos a correr atrás da bola, impotentes para impedir a invasão das suas linhas e para assumirem eles o protagonismo, é uma inegável demonstração de força.

Mas como é que é possível? Como é que se explica que uma equipa teoricamente mais fraca se tenha afinal mostrado a mais forte em campo? O que é que esta equipa tem que lhe permita mandar assim nos jogos, seja em que campo for e contra quem for, e do princípio ao fim? Como é que é capaz de tirar a iniciativa assim a adversários tão poderosos? Como é que consegue furar blocos defensivos geralmente difíceis de furar, e arranja tantos espaços susceptíveis de invasão? Como é que pressiona tão alto e, mesmo sem jogadores particularmente agressivos no meio-campo ou na defesa, não fica à mercê das transições adversárias? Note-se que não há um único jogador na equipa, e muito significativamente naquele meio-campo, que seja especialmente indicado para tarefas defensivas. Afinal sempre é possível jogar à bola sem carregadores de piano? É que não é haver poucos; é não haver um único! Quando há qualidade, o piano carrega-se sozinho.

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A ideia de que, contra adversários teoricamente mais fortes, há essencialmente que aceitar essa supremacia teórica e encontrar uma estratégia para a contornar enfrentou ontem o sabor amargo da derrota. O Ajax demonstrou, e tem-no demonstrado ao longo desta edição da liga milionária, que a melhor estratégia é e será sempre a da identidade própria. Quão estúpido seria se, com jogadores tão atrevidos como aqueles, Erik Ten Hag tivesse optado por uma estratégia de menor risco? A alegria daqueles jogadores em campo depende do protagonismo que conseguem ter e dos riscos que correm. Jogadores como aqueles sentem-se confortáveis é com a bola, e gostam sobretudo é de se recriar com ela e de apoucar os adversários.

Toda e qualquer ideia estratégica, por mais pequena que seja, cria constrangimentos e desconforto na própria equipa. Às vezes, pequenas alterações estratégicas produzem dividendos e compensam o desconforto que causam. Um extremo que se sente mais confortável na linha pode, por exemplo, ser utilizado mais por dentro para permitir ao lateral do mesmo lado outro tipo de espaços, e isso pode revelar-se particularmente útil para a equipa. O mesmo não acontece com grandes alterações estratégicas: as vantagens geralmente não compensam o enorme grau de desconforto causado na própria equipa. O que seria deste Ajax ontem se, para não ser apanhado em transição, não pressionasse tão alto? Quanta qualidade não perderiam em construção se, em vez de jogadores extraordinários do ponto de vista do passe e da tomada de decisão, como Frenkie de Jong e Lasse Schöne, Ten Hag apresentasse um meio-campo mais musculado? De que modo se ressentiria a equipa, em termos de criatividade, se aos quatro jogadores mais adiantados não fosse dada tanta amplitude de movimentos?

Em organização ofensiva, o Ajax junta muitas vezes três, quatro, cinco jogadores num espaço muito reduzido. Essa aproximação pode parecer exagerada, e vai contra alguns princípios gerais do jogo. Mas também tem virtudes. Por exemplo, produz mais soluções de passe curto, dá origem a mais tabelas e atrai mais marcações. Desde o Barcelona de Guardiola que não se via uma equipa tão entusiasmante na criação de lances de toque de curto e triangulações constantes como este Ajax. O jogo posicional não é tão perfeito como, por exemplo, nas equipas de Pep Guardiola ou Maurizio Sarri, e é também por isso que a equipa holandesa não consegue gerir muito bem os ritmos de jogo.

Mas a harmonia com que combinam entre si, a inteligência com que fixam adversários e a criatividade que colocam nas manobras ofensivas está ao nível do melhor que há. A força colectiva deste Ajax depende muito do atrevimento e da insolência dos jogadores, e qualquer alteração estratégica poderia cerceá-los. Felizmente para todos, Ten Hag parece perceber isso. Fazem falta mais equipas atrevidas e insolentes como esta, e fazem falta mais treinadores que não se limitem a ser estrategas de balneário. O Ajax está nas meias-finais da Liga dos Campeões por mérito próprio. Foi assimilando ideias, foi cimentando uma identidade e, na hora das decisões, não se traiu a si mesmo. Apresentou-se em campo como sempre, igual a si mesmo, e venceu com toda a justiça. Não é certo que chegue para ser campeão europeu, mas a partir de agora já não se pode exclui-lo do grupo dos favoritos. Johan Cruyff deve estar orgulhoso.

Nuno Amado escreve de acordo com a antiga ortografia