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A soma de todos os medos

Sérgio Conceição pediu eficácia, equilíbrio e cuidado com as saídas rápidas do Liverpool. À vez, tudo foi falhando: o FC Porto começou por não aproveitar a entrada forte e depois permitiu que o Liverpool navegasse nas águas onde se sente mais confortável, o contra-ataque. A derrota por 4-1 é pesada, talvez exagerada, mas foi com ela que acabou a aventura na Champions para os dragões esta época

Lídia Paralta Gomes

Matthew Ashton - AMA/Getty

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“Ser eficaz”, “evitar as saídas rápidas do Liverpool”, “equilíbrio no processo ofensivo para não sofrer golos”, “controlo de espaços”. Estes são pedaços mais ou menos avulsos do discurso de Sérgio Conceição na conferência de imprensa de antevisão ao encontro desta quarta-feira com o Liverpool.

Não há nada de estranho no discurso. Foi até bastante pragmático. É possível que o Liverpool seja a melhor equipa do Mundo no contra-ataque. E era certo que o FC Porto precisava de arriscar para marcar. E que o risco só valeria a pena sem erros, com todo o acerto.

Mas o que se passou esta quarta-feira no Dragão foi uma espécie de soma de todos os medos de Conceição. O FC Porto entrou muito forte, de coração nas mãos à procura do golo, mas não foi eficaz. Tentou evitar as saídas do Liverpool tendo bola, mas na primeira vez que o Liverpool chegou à área marcou. E depois do 2-0 do Liverpool, descontrolou-se, desorganizou-se e permitiu que os reds saíssem do Porto com um 4-1 pesado para os campeões nacionais.

Que não poderão ser pelo menos acusados de falta de coragem. Porque com mais gente no meio-campo e apenas Marega no ataque, o FC Porto começou por dominar o jogo, com muita posse, muita pressão. Mas, novamente, sem eficácia. Ainda os ponteiros não tinham acertado no primeiro minuto e já Corona assustava, com um remate cruzado que saiu um pouco acima da baliza de Alisson. Mas foi Marega, num daqueles dias, o rosto do desacerto: cabeceou ao lado aos 14’ e acertou mal na bola no minuto seguinte após um cruzamento de Alex Telles.

E os dias assim de Marega são fatais quando o assunto é Champions.

O FC Porto da primeira meia-hora de jogo foi uma equipa de muito volume, muito pulmão mas, ao mesmo tempo, trapalhão e com dificuldades a definir. O pragmatismo do discurso de Conceição não teve resposta a condizer dentro de campo e o golo do Liverpool aos 28’ deitou por terra aquilo que teria de ser um FC Porto épico para chegar às meias-finais da Champions.

Matthias Hangst/Getty

O golo, diga-se, é daqueles que só o olho clínico do VAR descortinaria. Mané parecia em fora de jogo após passe de Salah, mas as linhas imaginárias disseram-nos que Mané não estava em fora de jogo após passe de Salah. E o FC Porto de vários pulmões viu-se de repente a perder. A perder mesmo tendo aos 25 minutos 13 remates, ainda que apenas quatro deles enquadrados. Perigosos? Só mesmo o de Corona.

Talvez não tenha recuperado mais a equipa de Sérgio Conceição, apesar de ainda ter controlado até meados da 2.ª parte. Logo após o golo de Mané, Brahimi viu-se num tête-à-tête com Alisson mas rematou sem força suficiente para atrapalhar as mãos milionárias do brasileiro. O domínio do FC Porto foi, quase sempre, estéril.

E não conseguindo ser eficaz, o FC Porto perdeu-se também na organização. Na 2.ª parte, o Liverpool praticamente só contra-atacou. E marcou três golos. Aos 62’, Salah recebeu um passe de Alexander-Arnold e, à saída de Casillas, chutou para o 2-0. E já depois de Éder Militão reduzir de cabeça, aos 68’, os reds continuaram a brilhar na sua especialidade, os ataques rápidos, os tais que Sérgio Conceição queria controlar mas, às tantas, deixou de conseguir controlar.

Aos 77’ Firmino, solto de marcação, deu o melhor seguimento a um cruzamento de Jordan Henderson e aos 84’ Mané penteou um canto na esquerda, com Virgil van Dijk a aparecer para a emenda. Todos os medos, juntos.

Acaba assim a época europeia para o FC Porto, que anda inquinado nos quartos de final da Champions: nas últimas três vezes que lá chegou, por lá ficou. Em 2009, 2015 e agora em 2019. Já o Liverpool, à procura da 2.ª final consecutiva, segue para uma meia-final explosiva com o Barcelona.