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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Os pecados de Pep Guardiola... e uma hecatombe na melhor equipa do mundo

O Manchester City de Pep Guardiola foi eliminado nos quartos de final da Liga dos Campeões, pelo Tottenham (perdeu 0-1 e ganhou 4-3, sendo eliminada pelos golos marcados fora), e o treinador Blessing Lumueno explica-nos como é que isto aconteceu àquela que é, ainda assim, "de longe, a melhor equipa do mundo"

Blessing Lumueno

Marc Atkins

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Quando o sorteio dos quartos de final da Liga dos Campeões ditou o embate entre Pochettino e Guardiola, imaginei dois jogos como aquele que foi jogado na segunda volta em Manchester. Mas a abordagem do treinador catalão, na tentativa de controlar o jogo, retirou do mesmo o ingrediente principal para que o jogo fosse de exposição das melhores capacidades de cada uma das equipas.

Em Londres, vimos um Manchester City a ter bola, mas a esquecer-se de onde ficava a baliza do adversário. O onze inicial de Guardiola não o indiciava, mas desde logo deu a entender que a estratégia passava por ter uma equipa menos ofensiva, pela forma como Gundogan se colocava ao lado do Fernandinho, passando a equipa a jogar com dois médios de cobertura.

Não há nada que justifique a mudança de Guardiola que não a tentativa de controlar o incontrolável: os ímpetos de jogo. E por isso, nessa tentativa absurda de controlo, Guardiola acabou por operar uma mudança estratégica que lesou a equipa de forma irreparável. Acontece, normalmente, quando os treinadores pensam mais no adversário do que na própria equipa e acabam por alterar a forma de jogar que tanto sucesso lhes permitiu até então.

Não há justificação alguma que pudesse fazer Guardiola duvidar do seu modelo de jogo, e da forma como os seus jogadores interpretam cada jogo, mantendo-se fiéis ao que treinam e jogam habitualmente. As performances da equipa nos jogos contra adversários mais fortes, a jogar da mesma forma e com a mesma estrutura, foram maioritariamente boas, e os resultados também. Na época passada, Guardiola só não venceu os dois jogos da Liga dos Campeões contra o Liverpool; neste ano, antes destes jogos para a Champions, em nove jogos, fez sete em que foi claramente superior, tendo apenas perdido um. É verdade que venceu um dos jogos em que não esteve por cima, mas não menos verdade é que mereceu vencer sete jogos e foi o que conseguiu.

Por isso, a qualidade exibicional e os resultados deveriam ter-lhe dado conforto suficiente para não alterar o que a equipa vinha fazendo até então. Se os resultados estivessem a ser negativos, não concordando, compreenderia a alteração. Mas não foi o caso. Então, com os dados que temos, que razão terá Guardiola para romper com um modelo ganhador, adoptando um sistema que não é da sua preferência?

BEN STANSALL

Há quem esteja a ler a achar que o sistema de jogo não é fundamental e que o que interessa são as dinâmicas; por outro lado, há alguns de vocês que acham que o sistema de jogo é tudo. As duas hipóteses parecem-me curtas. Como é óbvio, o 1x4x3x3 do Lito Vidigal é muito diferente do 1x4x3x3 do Guardiola, ainda que o desenho táctico seja o mesmo. Mas isso não significa que a essência do futebol que a equipa de Guardiola joga não esteja, de forma fundamental, ligada ao desenho da equipa em campo. O quero dizer é que, sem a forma como Guardiola coloca os jogadores em campo, sem a forma como funciona o meio campo (1+2) em relação com as posições dos outros jogadores, o futebol jogado pelo City seria bem diferente. Ou seja, embora a forma como os jogadores se colocam em campo não seja suficiente para que a equipa tenha qualidade, é-lhe necessária.

No Manchester City, tendo em conta que os laterais, em ataque posicional, não jogam tanto em largura e em profundidade, é fundamental que sejam os médios ofensivos a ocupar os espaços atrás da linha média do adversário, e a criar dúvida na organização defensiva. Sendo que os extremos têm a responsabilidade de fixar a linha defensiva do adversário, colocando-se em largura e profundidade, o espaço entre linhas é da responsabilidade dos médios ofensivos, e em alguns momentos do avançado. E a invasão desses espaços é fundamental para a forma como a equipa, em ataque posicional, consegue pelas decisões e movimentos penetrar na área adversária e criar situações de finalização.

Para a fluidez de jogo, e para que nos momentos certos a equipa consiga acelerar, é imperativo neste futebol do City que os médios estejam no espaço entrelinhas muito mais vezes do que aquelas em que aparecem nesse espaço. Pode parecer difícil de compreender essa relação entre o estar e o aparecer, mas vou colocar alguns exemplos para enquadrar a diferença entre estar um jogador naquela posição ou não.

Há vantagens óbvias e que se percebem sem grande pormenor, como, por exemplo, os médios, se forem solicitados nesse espaço, receberem a bola com menos oposição. Mas o facto de serem dois ou três jogadores nesse espaço, em vez de apenas um, muda completamente a dinâmica ofensiva da equipa. Não falo só dos jogadores da frente estarem mais distantes do resto da equipa, mas também da forma menos eficaz com que a equipa efetiva os seus desequilíbrios.

No primeiro golo do Sterling em Manchester, não se vê no vídeo o momento em que este recebe o passe, mas percebe-se que enquanto controla a bola David Silva desmarca-se em profundidade. Essa desmarcação do Silva permite duas coisas:

1) Que Sterling tenha mais conforto para fazer o movimento interior, uma vez que o movimento sem bola arrasta o médio que deveria estar a fazer cobertura ao lateral;

2) Que de Bruyne, por força do mesmo movimento, fique mais livre para receber um passe atrasado do Sterling, e também fixe outro médio do Tottenham que poderia estar mais próximo da bola sem a presença do belga naquele espaço.

Não estando os dois médios, não teriam sido possíveis estas soluções, neste número, para atacar a baliza contrária. Imaginemos que Silva, jogando sozinho, até estava próximo de Sterling nesse lance e faz o movimento. Sterling ficaria na mesma com um pouco mais de espaço para o movimento interior, mas o médio que está fixo em de Bruyne estaria muito mais confortável para se aproximar da bola, e retirar conforto ao movimento de Sterling, podendo inclusivamente intercetar o remate. E mesmo o próprio Sterling ficaria sem tantas soluções para decidir por onde deveria seguir o lance. Se pensarmos que Silva, estando sozinho naquele espaço como na primeira volta, estava no espaço ocupado por de Bruyne, e que era Aguero quem se aproximava para se desmarcar em profundidade, o jogador arrastado seria um da linha defensiva, o que não daria a Sterling o espaço para o movimento interior que fez.

No golo de Bernardo há vários pormenores importantes:

1) A posição de Sterling e de Aguero, que permitem mais espaço para que Silva receba a bola. Isto é, pelas posições que ocupam permitem que exista espaço entre os defesas e os médios;

2) E, novamente, a posição do outro médio ofensivo. De Bruyne está de cara para a linha defensiva, e é essa posição que lhe permite fazer de Aguero, enquanto o avançado argentino conduz na direção de Bernardo Silva. O movimento de Kevin De Bruyne, que arrasta o lateral, e a decisão de Aguero são o que permite o tempo e o espaço para Bernardo finalizar em melhores condições.

No segundo golo de Sterling a relação é a mesma: se De Bruyne não está tão próximo de Bernardo quando ele recebe a bola, dificilmente haveria a possibilidade da desmarcação circular do belga ter tido aquele efeito, e ter apanhado aquele espaço onde ele depois tão bem coloca a bola.

E sem a proximidade de David Silva, seria impossível que ele pudesse atacar a finalização como o fez.

Infelizmente a Eleven Sports não nos mostra, neste lance, o passe de Gundogan. Mas, quando o médio alemão faz o passe, De Bruyne e David Silva estão atrás da linha média do Tottenham. E esse pormenor faz com que mais rapidamente o criativo belga consiga atacar a linha defensiva, e encontrar a desmarcação de Aguero. Note que, no caso de não ter conseguido colocar em Aguero, tinha Silva ao seu lado em excelentes condições para dar seguimento ao lance.

Jogando com dois médios de cobertura, nenhuma destas situações, com esta pluralidade de opções, com este grau de imprevisibilidade para quem defende, seria possível. Uma vez que com os jogadores a partirem de posições diferentes as possibilidades de criar situações destas, com os jogadores certos a receberem nas posições que mais os beneficiam, seriam muito reduzidas. Reparem que, em todos os golos marcados nesta eliminatória, a influência do sistema de jogo é brutal, as dinâmicas de jogo são completamente alteradas pelo sistema, e por isso, sem este sistema o futebol do Manchester City seria muito diferente.

Houve ainda, no jogo da primeira volta, outro fator estranho: as alterações tardias. Isto é, percebendo que o jogo não estava a ir de encontro ao futebol que a sua equipa pratica normalmente, Guardiola deveria ter mudado mais cedo. Mas, como estava satisfeito com o empate, com o controlo, e como o pouco ímpeto ofensivo da equipa fazia parte da estratégia, sofreu um golo e foi em desvantagem para a segunda volta sem nenhum golo marcado fora.

Marc Atkins

Na segunda volta, o jogo foi diferente. Apesar de não concordar com as escolhas para o onze inicial, do perfil dos jogadores na linha defensiva, o Manchester City voltou a ser o que é sempre. Apesar de Walker, Mendy, e Kompany, foram uma equipa totalmente diferente do jogo de Londres, e quiseram sempre procurar o golo; e tendo marcado quatro, poderia ter marcado mais alguns. É certo que sofreram golos de erros individuais, mas tais erros poderiam não ser determinantes para o desfecho da eliminatória se tivessem entrado com outro conforto para o jogo da segunda volta. Seria totalmente diferente se, por exemplo, ganhar por um a zero fosse suficiente para passarem a eliminatória.

Apesar de tudo isto, o Tottenham nunca foi superior ao Manchester City ao longo desta eliminatória. Venceu porque foi mais eficaz nas situações que lhe apareceram, e não por ter tido competência para criar situações de golo. No sentido inverso, os citizens desperdiçaram, nos dois jogos, várias situações de golo que tiveram competência para criar, e cometeram diversos erros individuais que ditaram a eliminação no final.

Há ainda que dar relevo à pouca audácia e ousadia de Guardiola em alguns momentos desta eliminatória, que contrastaram com a coragem e com o sinal que Pochettino deu aos seus jogadores quando aos 41 minutos Sissoko se lesiona e é substituído por Llorente, sendo que os Spurs perdiam por 3-2, mas, pela regra dos golos fora, ainda estavam na frente da eliminatória. Do outro lado, Guardiola fazia entrar Fernandinho para o lugar de David Silva (que não estava a fazer um jogo extraordinário, é certo), dando um sinal à equipa para controlar o jogo de forma diferente da que a tinham feito até aí. A faltar tanto tempo para jogar, o treinador catalão já indicava aos seus jogadores que a vantagem era para segurar do ponto de vista defensivo e não a tentar agredir para matar o jogo de vez.

A ironia de tudo isto foi Llorente ter feito o golo da vitória, e assim o treinador do Tottenham foi premiado com a vitória numa eliminatória onde foi corajoso, apesar de não ter merecido vencer. E é aqui, neste pormenor de um futebol onde a justiça vai e vem, que Guardiola cai.

A hecatombe de Guardiola deriva do seu maior pecado: constrói máquinas tão perfeitas, as suas obras são de tamanho relevo, que não colocamos limite naquilo que as suas equipas podem conquistar.

Martin Rickett - PA Images

Nos 23 anos em que a Premier League deixou de ser Division One, e passou a ser um campeonato de 20 equipas, apenas quatro treinadores foram capazes de ultrapassar a barreira dos 90 pontos:

- Sir Alex Ferguson, em 1999/2000, com 91 pontos;
- José Mourinho, em 2004/2005 e 2005/2006, com 95 e 91 pontos, respetivamente;
- António Conte, em 2016/2017, com 93 pontos;
- Pep Guardiola, em 2017/18, com 100 pontos

E neste momento, o título só é certo para o Manchester City se somar por vitórias os cinco jogos que ainda lhe falta disputar. Ora, isso dá um total de 98 pontos, que dariam para ser campeão em todas as edições anteriores no campeonato inglês com 20 ou 22 equipas, pelo menos com a televisão a cores. Pese embora não ser uma pontuação suficientemente alta para bater os 100 pontos que são o record da prova, e que curiosamente também está gravado com o nome de Guardiola.

É impressionante ver mais uma máquina trituradora do génio catalão, que agora devasta num futebol no qual, devido a sua “fisicalidade”, se dizia que o jogo de Passe e Devolução nunca teria este sucesso monstruoso. São 183 pontos em duas épocas, com cinco jogos por disputar. E posso arriscar dizer que (usando a minha bola de cristal) vai ultrapassar a barreira dos 190 pontos e deixar uma marca para o futuro muito difícil de bater, ainda que não seja campeão. Ultrapassando essa marca, terá feito pontos suficientes, em duas épocas consecutivas, para ter sido campeão em todas as edições do campeonato inglês desde o final do tempo dos Flinstones.

Na regularidade, na forma como se torna ordinário que as suas equipas disputam todas as provas até às fases decisivas das mesmas, é que se percebe o real talento do treinador catalão. Nas provas internas, onde o marketing não permite que as equipas tenham mais tempo para preparar os jogos quando há provas europeias envolvidas (como na Holanda se faz por exemplo com o Ajax), é de louvar que consiga manter a equipa em todas as frentes. Veja-se que jogou contra o Tottenham na quarta-feira, na Liga dos Campões, e jogará novamente amanhã para o campeonato, passados apenas três dias. E os que dizem que nas provas a eliminar o modelo e a equipa de Guardiola é mais frágil são os mesmo que estariam a aplaudir de pé a chegada às meias-finais da Champions, caso Aguero tivesse convertido o penálti em Londres, e são os mesmos que, tendo festejado a vitória do Ajax, caso de Ligt não tivesse concretizado o golo da vitória em Turim, estariam a dizer que a equipa necessita de mais pragmatismo. Já para não falar dos que iriam gabar a maturidade competitiva da equipa transalpina e a abordagem estratégica do seu treinador, ainda que apenas por um golo não se tivesse materializado a superioridade que os putos “holandeses” demonstraram em toda a eliminatória.

O futebol é assim! Por um golo, por um erro individual, a melhor equipa pode perder, e de imediato passa de equipa de qualidade superior à incompetente. No basquetebol, falhar um ou dois lançamentos livres não é tão relevante para o desfecho final, da mesma forma que marcar um ou dois triplos não tem grande significado para definir o rumo do jogo; No futebol, uma ocasião de golo falhada ou um golo marcado são quase sempre determinantes para definir o rumo do jogo. Isto porque o futebol, ao contrário de quase todos os outros jogos desportivos coletivos, é um jogo de pontuações baixas, e qualquer imponderável, qualquer desacerto, é o suficiente para o mundo confirmar a maior competência de uns sobre outros, ainda que o jogo teime em dizer-nos o contrário.

O maior pecado de Guardiola é este: qualquer equipa que o tenha como treinador é favorita à tudo, independentemente das condições. Pep vulgariza as vitórias. As expectativas que todos lhe colocam são tão altas (pela superioridade que a sua equipa vai demonstrando em todos os campos, pela forma assustadoramente natural com que vai somando vitórias confortáveis na maioria dos jogos), que quando as suas equipas perdem, nem sequer enfrenta um julgamento justo antes dele ser alocado ao inferno. Esse é o maior elogio que Guardiola recebe do mundo! É tão bom, tão bom, mas tão bom, que se for selecionador do Bangladesh o futebol vai exigir-lhe que seja campeão do mundo.

No fundo, nem a Juventus nem o Tottenham mereceram passar às meias-finais; mas como os Spurs estavam bem longe de serem os favoritos, o mundo decidiu, como quase sempre, esquecer o que se passou dentro de campo e regozijou-se com a queda daquela que é, de longe, a melhor equipa do mundo.