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Em Anfield cabem catarses, tragédias e o fogo, muito fogo, que nasce da centelha original

Lá parece que acontecem noites assim e foi assim que o Liverpool derrotou dramaticamente o Barcelona por 4-0, contornado - o que digo eu - atropelando uma eliminatória que estava perdida no campo das probabilidades

Pedro Candeias

Clive Brunskill

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Nas palavras imortais de Bruce Lee, “sê como a água, meu amigo”, porque a água “não tem forma”, porque se “puseres água numa taça, ela torna-se a água” e porque a água “pode fluir, correr ou bater”. A metáfora de Lee é simples: a vida é feita de adaptações contínuas aos contextos; há momentos em que se ataca, outros em que se defende e aqueles em que nada se faz a não ser deixar correr o marfim.

Felizmente, o futebol não é bem a vidinha de todos nós. E felizmente também há quem prefira o fogo à aborrecidíssima água tépida da torneira que enche o proverbial copo meio vazio ou metade cheio. Com os riscos naturais que essa escolha implica, a começar pela imprevisibilidade e a acabar, bem, no fim, porque ao contrário da água o fogo esgota-se rapidamente quando se esgota o combustível.

Mas enquanto arde, caro leitor, é um espetáculo incansável, insaciável, implacável e sem limites - continuamos a jogar nas metáforas, não me tome por pirómano - chamado Liverpool jogando em Anfield.

É lá que este desporto se entrega ocasionalmente a um ritual pagão, com os seus cânticos e vestes, e com um sorridente xamã alemão de boné na cabeça que manipula emoções e vontades, num transe coletivo inexplicável.

Lá, em Anfield, parece que acontecem noites assim e foi assim que o Liverpool derrotou dramaticamente o Barcelona por 4-0, contornado - o que digo eu - atropelando uma eliminatória que estava perdida no campo das probabilidades.

Não era só a desvantagem do três a zero; era também a desvantagem de não ter Firmino e Salah e de ter Origi e Shaqiri. E a desvantagem crónica, quase uma fraqueza comum a qualquer conjunto de onze homens que enfrentam dez homens mais Messi.

Logo ao minuto sete, Alba meteu água, Mané recuperou a bola e passou-a a Henderson que chutou contra Ter Stegen - o trapalhão útil Origi fez o primeiro golo. Nesses primeiros vinte minutos, o Liverpool lutou em cada um dos mil e duzentos segundos, pressionando, correndo, desmarcando-se e cortando as intenções dos catalães; depois, claro, Messi teve espaço e teve bola e o Barcelona adaptou-se como a água às circunstâncias.

Sem pulmão, músculo ou juventude, os espanhóis circularam entre eles e o jogo baixou convenientemente de ritmo, sacundindo num par de remates que Alisson Becker deteve com a segurança dos grandes guarda-redes de clube grande.

Quando o intervalo chegou, ficou a impressão de que o Barcelona estava perto da sua zona de conforto, pois ao impetuoso Liverpool faltava aquele talento costuma decidir complicações lá à frente - ter Shaqiri e o seu físico de halterofilista do Kosovo não é o mesmo que ter o maravilhoso Salah.

Só que o fogo tem destas coisas: reunidas as condições certas é surpreendentemente indomável, sobretudo se do outro lado não houver contra-fogos e apenas se estiver à espera que chova ou da intervenção divina daquele-que-já-nomeámos.

Na segunda-parte, o flamejante Liverpool entrou a queimar etapas e em doze minutos empatou a eliminatória, por Wijnaldum (golos aos 54’ e 56’), que entrara para substituir o lesionado Robertson; o primeiro foi num remate, o segundo num cabeceamento após um pulo notável no centro da área.

A centelha original acendeu-se, o estádio eletrizou, começou a nascer um milagre futebolístico que bloqueou o Barcelona. As primeiras e as segundas bolas eram do Liverpool, tal como eram a vontade e a coragem e o sentido de oportunidade: o meio-campo inquebrável formado por gente valente como Fabinho e Henderson tornaram irrespirável o ar de Rakitic e de Busquets; só Vidal parecia estar pronto para um embate nestes moldes e os outros estavam hipnotizados, parados, alheados.

Surgiu, então, o quarto golo: na marcação de um canto, Arnold enganou toda a gente e bateu inesperadamente a bola rasteira, enquanto o bom-senso e Shaqiri pediam calma, e Origi fez o 4-0. Nessa altura, já Valverde queria rastejar até ao prolongamento, tirando Vidal e pondo Semedo, na tentativa de fechar os flancos, mas o avanço das chamas era, como se diz no jornalismo televisivo, imparável.

Quando péssimo Cüneyt Çakir - árbitro turco com tiques autoritários dispensáveis - terminou o jogo, a catarse e a tragédia desceram sobre os corpos de uns e de outros, encerrando uma daquelas noites encantadoras que se lamentam por terem um fim. Que pode ser o início de uma final épica com o Ajax.

Que se lixe a água.