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Liga dos Campeões

Resistir ao caos e mostrar aos miúdos sem medo que também podem sentir medo

Ajax esteve a vencer por 2-0 (3-0 na eliminatória) e parecia ter tudo muito controlado (ou descontrolado, como gostam), mas um intervalo de Pochettino bastou. E as dúvidas dos holandeses aterraram na Johan Cruijff Arena. Lucas Moura assinou um hat-trick e os spurs corrigem a história de 62

Hugo Tavares da Silva

Soccrates Images

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Tirar notas para este jogo com um quadro de Beckenbauer à frente, ali pendurado na parede, todo cheio de majestade numa condução de bola eterna, soava a provocação. Quando Litmanen e Kluivert apareceram na TV, antes do apito inicial na Johan Cruijff Arena, foi como um sinal, como que equilibrando as contas da magia negra. Em 95, o ano da última conquista europeia para os de Amesterdão, Jari saiu aos 70’ e Patrick entrou para o seu lugar, marcando o único golo da final vs. Milan. Mas esqueçam tudo, a história e a teoria, este Ajax-Tottenham é uma daquelas obras bonitas do futebol.

O Ajax começou muito Ajax. Sabia ao que ia. Era como no recreio. Já o dissera há muitos anos Marcelo Bielsa, quem sabe o mentor de Mauricio Pochettino, para explicar o futebol: como nos tempos de criança, a ideia era atacar e, depois, recuperar rapidamente para voltar a atacar outra vez. Simples.

Os holandeses tinham mais bola. Frenkie de Jong, que segue os passos do senhor que dá nome ao estádio, ia pegando na bola, ditava os tempos, os caminhos e paciências. Os spurs, pacientes ou encantados, esperavam, desconfiados do que aquela cambada de miúdos inconscientes estava capaz de fazer. O treinador argentino do Tottenham explicou tudo ao El País, esta quarta-feira: “O Ajax esmaga-te pelo desejo dos seus jogadores de pedir a bola. Têm uma liberdade e irresponsabilidade enormes. (...) Porque jogam com o desejo. Porque não mostram uma grande organização estrutural na hora de jogar em posse ou defender. É uma equipa que é espontânea na toma de decisões mais individuais do que coletivas. Quando analizas o Ajax predominam as decisões individuais."

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É um belo resumo. Estes miúdos vivem felizes da vida no caos. Não há passaportes nem fronteiras, navegam por todas as águas, a qualquer hora. E na hora de defender acontece o mesmo, apostando em movimentos curtos, explosivos, para precipitar o rival. Claro, às vezes ou muitas vezes vivem desequilibrados. É um estilo de vida, como se andassem despenteados. Mas vivem rápido, encolhem os ombros. Ah, a juventude.

E o futebol deu-lhes troco. Com apenas cinco minutos de jogo, depois de um remate de Tadic dar canto (bela defesa de Hugo Lloris), de Ligt ganhou espaço e meteu de cabeça, 1-0. O Tottenham, que estava por ficar atordoado, respondeu logo com uma bola ao poste, pela esquerda, de Son.

Os miúdos não abrandaram. Só sabem jogar assim, inconscientes, por descobrir a que sabe o medo. Os londrinos vivem mais como os batimentos do coração, ora estavam, ora não estavam, mas iam dando sinais de vida. Christian Eriksen inventou uma saída de bola pela esquerda, tocou para Rose, sobrou para Dele Ali, que isolou Son. Onana defendeu. Um minuto a seguir, Lucas Moura ensaiava uma das suas correrias arrojadas, mas Onana voltou a sacudir o perigo.

Bradley Collyer - EMPICS

O Ajax tinha um problema. David Neres ressentiu-se no aquecimento e Dolberg foi chamado à titularidade. Ou seja, haveria menos explosão e criatividade do extremo brasileiro, ao que se juntava um “9”, que iria roubar terras baldias para Tadic e Donny van de Beek explorarem.

Por esta altura, a meio da primeira parte, com um Tottenham menos encolhido, estávamos diante de um jogaço. Ninguém estava para muitas hesitações. Eriksen era dos melhores do Tottenham. Lucas Moura começava a aparecer. Son, idem. Mas este futebol não é de controlo, tal como o do Ajax, vive de ter bola e morder o adversário. Não quer diplomacias e pensamentos demasiado profundos. É urgente, apaixonante. É importante lembrar que estes spurs estavam a jogar sem a sua grande estrela, Harry Kane.

A dez minutos do intervalo, os deuses do futebol voltaram a sorrir, depois de Hakim Ziyech bater uma bola com a canhota que merecia beijar as redes da baliza de Lloris, 2-0. Tadic recebeu na esquerda e tocou para o marroquino, que bateu como quem bate um livre direto. Uma coisa bonita.

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Ao intervalo, Mauricio Pochettino terá dado um daqueles xaropes reforçados, com mel e coragem. Mais: trocou Wanyama por Fernando Llorente, uma mensagem que não era preciso verbalizar. E tudo mudou. Os que vinham de Londres optaram por deixar de desconfiar tanto deles próprios. A miudagem serenou, sentiu-se gente, perdeu a bola e a alma. Afinal, sentem medo. E tremiam.

Um contra-ataque, inventado por Dele Ali (foi crescendo durante o jogo), culminou no primeiro golo da noite de Lucas Moura, 2-1. Faltavam dois golos para esta gente eliminar os caseiros. Quatro minutos depois, aos 59’, o Tottenham empatou. Onana até negou, com uma grande defesa, o golo a Llorente, mas, depois de poucas certezas na área, Lucas Moura voltou a rematar com acerto, 2-2. A assistência de Ali foi sublime.

E os miúdos não se encontravam.

O Tottenham estava a um golo da final da Liga dos Campeões contra os tigres de Liverpool, agendada para 1 de junho, em Madrid. Sissoko, imponente, ganhava muitos duelos e acelerava sempre que podia. Os colegas seguiam o exemplo. Não havia grande manual: o caminho era para frente.

Dan Mullan

A 20 minutos do fim, o Ajax dava alguns sinais de retoma. Zyiech, talvez o melhor dos holandeses, ia agitando as águas. Isto podia pingar para qualquer lado, mas qualquer pessoa apostaria mais rapidamente para um golo dos meninos de Pochettino.

Poste!! Zyiech, depois de Beek ganhar espaço e tempo, recebeu e tocou para o poste tilintar e negar o carimbo para a terra dos sonhos.

Lamela e Ben Davies já estavam em campo. A três dos 90’, Llorente atirou à trave, depois de um canto, e na ressaca da ressaca Son disparou por cima.

Assim vai dar para o Ajax, é a vontade do futebol. Certo?

Não.

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Na bancada via-se um adepto do Ajax a rezar, com os olhos fechados e os indicadores a bloquear os sons que ameaçavam a catástrofe. Por esta altura, já havia muitos duelos, muita bola no ar. A relva sentia saudades de ser tocada de outra maneira.

Quando os olhos já nem pestanejavam, sendo possível sentir medo, angústia e esperança por todos eles ao mesmo tempo, Lucas Moura deitou por água abaixo o sonho dos netos de Johan. O golo do brasileiro foi aos 96’, num remate rasteiro. Os londrinos falharam, em 62, a final depois de caírem contra o Benfica nas "meias". Desta vez, o fado seria outro.

Apito final na Johan Cruijff Arena. Uns viviam no céu, outros no inferno. As lágrimas uniam estes dois povos que usam a mesma bandeira, a do bom jogo. Os miúdos sem medo, que jogam como se estivessem nas nuvens, aprenderam que podem ter medo. Os spurs, depois daquela lição de qualidade e coração contra o Manchester City, voltaram a mostrar que são uma das melhores equipas da Europa. Apesar da timidez inicial, acordaram o gigante que vive dentro deles, saíndo para morder, pressionar e marcar. Foram atrás da felicidade.

Chris Brunskill/Fantasista

Pochettino ajoelhou-se. Chorou. “O futebol perdeu gente autêntica”, queixara-se na tal entrevista ao El País. “Parecemos atores. Há quarenta anos, em Murphy, juntávamo-nos na praça para jogar. Jogávamos em 30x40 metros”, desabafava, para refletir sobre o futebol de posse e as ferramentas neste jogo, em que normalmente os melhores ganham ou têm mais tempo a bola perto das botas. Resumindo? “O importante é que tu mostres como és.”

Esta noite, o Tottenham voltou a mostrar quem é.