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Liga dos Campeões

O Barcelona não joga nada, o Liverpool diverte, o Tottenham trabalha e o Ajax apaixona: notas finais sobre as meias-finais da Champions

O treinador Blessing Lumueno faz uma análise às duas mãos das duas meias-finais da Liga dos Campeões, lançando um olhar analítico (e também opinativo) sobre os quatro clubes que as disputaram

Blessing Lumueno

Rich Linley - CameraSport

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O Barcelona não joga nada

Quality Sport Images

A equipa de Valverde não joga nada, e não é de hoje. É preciso dizê-lo desta forma, nua, e um pouco cruel, mesmo correndo o risco de parecer tolo por categorizar assim uma equipa e a ideia de jogo de um treinador que é bicampeão espanhol.

O modelo de jogo, do ponto de vista ofensivo, é: bola no Messi para construir, criar, e finalizar. E se à primeira vista pode parecer uma excelente solução pela singularidade do génio argentino, infelizmente, o “anão” não consegue estar em todo lado ao mesmo tempo. O Barcelona de hoje não é, sequer, enteado de Crujff; Não poderia estar mais longe dele. Mas há ciclos assim em que a equipa se perde de si mesma, esquece a filosofia que a categorizou com ou sem títulos, contrata jogadores antagónicos às melhores qualidades dos seus, desvia-se demasiado do seu rumo, e o resultado é uma confusão ideológica onde ninguém entende o que o outro diz, culminando no futebol medíocre com que fomos brindados nos últimos anos. Quando perdes com a tua filosofia, com a tua ideia de jogo, ficas triste mas nunca ficas só; quando perdes como o Barcelona tem perdido nestes últimos anos sobra-te o quê?

É tempo para o Barcelona repensar o que quer para o futuro, até porque tem em mãos Arthur, Frenkie de Jong, Puig e ainda o maestro Busquets. Se não forem capazes de devolver o protagonismo aos seus médios, nunca mais o Barcelona poderá voltar a estar perto do Autor holandês que mais revolucionou o futebol mundial.

O Ajax apaixona

Etsuo Hara

Fez a Europa voltar a apaixonar-se por um jogo rendilhado e de liberdade de decisão, com criatividade e expressão individual. Fez o mundo voltar a lembrar-se que quem manda no jogo são os jogadores e que uma equipa é tão mais equipa quanto mais satisfeitos os seus jogadores estiverem com a forma como jogam.

Fez alguns dos cépticos repensarem as estratégias para se jogar contra equipas superiores do ponto de vista individual pela forma infantil como passearam na Baviera, em Chamartin e no Piemonte. O banho que deu, em dois jogos, ao Bayern, ao Real Madrid e à Juventus trouxeram Crujff de volta aos relvados, pela mão de Erick Ten Hag - e com ele veio também o melhor futebol da Champions.

Hoje, é indubitável que o Ajax, com aqueles miúdos, e apesar de jogar num campeonato sem a expressão de outros, jogou o melhor futebol do mundo, nesta época. Dizem que no futuro ninguém se vai lembrar disso, e que os títulos é que ficam registados na história, mas há algo maior que o registo dos livros: o registo da memória. Sobretudo, se estivermos a falar de sentimentos. Este Ajax fez com que adeptos e não adeptos festejassem os seus golos, e isso, garantidamente, é algo que nenhum dos que experimentaram tais sentimentos se vão esquecer. Se for preciso ir aos livros, para saber quem tem os recordes, é porque esses recordes não são verdadeiramente marcantes. Reparem que, sem ter ganho a Liga dos Campeões três vezes, apenas a jogar futebol, este Ajax conquistou adeptos de todo o mundo. Haverá maior feito do que esse? Um feito capaz de competir, e até suplantar, o de uma equipa que conseguiu três Champions?

É certo que o Ajax não conseguiu manter o nível de jogo nos dois últimos jogos contra o Tottenham, sendo reflexo disso a quantidade de bolas longas, a quantidade de duelos, e os quilómetros que os seus jogadores tiveram de percorrer. Não deixa de ser injusto porém que não possam jogar a final tendo em conta a forma como jogaram e evoluíram durante esta campanha europeia.

O Liverpool diverte

Jan Kruger - UEFA

Eu, Klopp me confesso. É estranho gostar de uma equipa que do ponto de vista ofensivo não representa o futebol que mais gosto de ver em campo; não há pausa, há demasiada vertigem. Mas a verdade é que me divirto muito com os jogos do Liverpool, porque sou um fã incondicional do seu treinador: É o meu preferido. Saí frustrado com o desfecho da primeira mão, onde o resultado não expressou a exibição das duas equipas. A diferença entre o Liverpool e o Barcelona, na Catalunha, não foi de 3-0; da mesma forma que a diferença, em Anfield, também não foi de 4-0. Porém, festejei como um doido cada golo e a classificação do Liverpool de Jurgen Klopp para mais uma final da Liga dos Campeões.

De um jogo para outro não se pode falar de mirabolismos tácticos, mas sim de um jogo de futebol, numa competição, onde os imponderáveis foram determinantes para o desfecho final. Falo, por exemplo, do golo falhado por Dembelé no último minuto na Catalunha, ou da esperteza cada vez mais rara no futebol de Alexander-Arnold na forma como enganou todos no pontapé de canto que permitiu a Origi carimbar a passagem dos “Reds” para Madrid. Apesar disso, o projecto do Liverpool ao longo destes anos, com um treinador que sabe que os adeptos vão estádio para se divertirem, é um dos que mais merecia jogar esta final.

O Tottenham é um projeto

VI-Images

Pochettino é o treinador, assim como Sarri, que mais merece disputar a fases decisivas dos títulos importantes. Pelo percurso que as suas equipas tiveram ao nível de jogo, pela forma gradual como se foram impondo ao nível dos resultados, e por não gozarem dos recursos de outros que têm outro tipo de argumentos financeiros para conquistar troféus.

É certo que deveriam ter ficado pelos quartos-de-final, e também é certo que fica em mim um sabor amargo por terem eliminado, de forma justa, o refrescante Ajax; mas, a passagem para Madrid é o culminar de cinco anos de trabalho onde o foco foi potenciar jogadores da formação, e trazer para o clube apenas aqueles que são necessários para as posições mais carenciadas, e posições que a formação não dá resposta.

Com a construção do novo estádio, nesta época, nem sequer foram ao mercado de transferências. É uma filosofia que me agrada e fico feliz sempre que o futebol consegue premiar projectos ao longo prazo, projetos que não se focam no resultado imediato; projetos realistas que assumem que no futebol o mais normal é não ganhar nada, mas que têm em conta que no percurso de uma ou várias épocas sem ganhar há muito que se pode fazer para criarmos empatia entre os adeptos, a equipa e o treinador: jogar à bola. É certo que este tem sido o ano mais fraco dos 5 ao nível exibicional; mas não é um ano de fracasso que define aquilo que és.

Uma final inglesa

Ouvem-se, por estes dias, gritos que ecoam sobre a hegemonia do futebol inglês na Europa. Bom, ainda que já esteja garantida uma final entre Liverpool e Tottenham, na prova de clubes mais importante do mundo, e de estar bem presente a possibilidade de outra final inglesa na Liga Europa, a hegemonia não se atribui por um grande resultado num ano.

Hegemonia é o que o futebol espanhol conseguiu durante os últimos anos. Ano após ano, conseguiu colocar equipas nas meias-finais, e nas finais, a arrebatar os canecos na Liga dos Campeões e na Liga Europa. Até ver, mesmo com este ano incluído, a hegemonia continua a ser deles. Claro que a Premier League cresceu de forma exponencial; aos grandes jogadores que sempre teve, conseguiu juntar um grupo de treinadores tremendos e isso foi fundamental para o crescimento táctico daquela que era a Liga mais anárquica da Europa, entre os campeonatos mais fortes do Velho Continente. Nos próximos anos teremos a possibilidade de perceber se a Premier League será capaz de manter a bitola alta, consecutivamente.

A sorte e o azar

A Liga dos Campeões é a competição onde melhor se percebem os efeitos dos imponderáveis, quem são as equipas que estão mais expostas a eles, e que são poucos os que pensam de verdade sobre os efeitos que eles têm. A maioria diz que é preciso procurar a sorte, ou evitar o azar; como se tudo estivesse ao controlo dos treinadores, como se tudo dependesse dele. Como é que Valverde tem culpa no falhanço do Dembelé, ou mérito na exibição do Messi na primeira volta?

É unânime para todos que as lesões de Salah e Firmino foram um rombo no modelo, na estratégia, e nas hipóteses do Liverpool ultrapassar o Barcelona. E Klopp, na primeira volta, colocou Wijnaldum como ponta de lança para substituir o avançado brasileiro. Nessa posição, e partindo do princípio que estaria mais próximo da baliza e de situações de finalização, o médio holandês não se aproximou do golo. Porém, na segunda volta, depois de mais um azar com a lesão de Robertson, Wijnaldum entra para jogar como médio e acaba por fazer os dois golos que colocam a equipa na rota da qualificação.

Que mérito tem o Klopp nisto? Foi uma palestra inspiradora? Foi o sorriso brilhante, e genuinamente feliz, que o treinador alemão trouxe do intervalo, e com o qual abraçou Wijnaldum na altura em que se preparava para entrar e ouvia indicações do treinador adjunto, que o motivou para aparecer nas situações de decisão? É uma substituição que não estava planeada, que não fazia parte da estratégia para o jogo, e que resultou em dois golos que mudaram drasticamente as expectativas de cada equipa, que alteraram por completo as incidências do jogo. Qual é que foi a influência do treinador, dos treinadores, nisto? Sorte ou azar? Como é que se procura isto?

É certo que o jogo penalizou, uma vez mais, os treinadores menos corajosos como Valverde que continua a achar que para combater um meio campo físico é com jogadores físicos. Castigou a substituição de Coutinho por Nelson Semedo, e castigou de forma violenta o Ajax ter abdicado por largos minutos em toda a eliminatória de ser aquilo que é; mas, por favor, dez segundos depois e o Ajax estaria na final. Já não haveria ingenuidade dos miúdos ou falta de experiência. Tão pouco haveria quem achasse que o problema tivesse sido terem ficado agarrados à sua filosofia quando foi totalmente o oposto. Pochettino seria, uma vez mais, apelidado por quem o elogia hoje de treinador sem estofo para as grandes decisões. Sem a lesão de Robertson, Klopp estaria uma vez mais a terminar mais época com poucas possibilidades de conquistar um troféu e por assim já não seria o génio da motivação mas o treinador do pé-frio.

Com o golo de Dembelé, ou com o acerto de Messi e Coutinho, ninguém aceitaria que se dissesse que Valverde não é o treinador indicado para o Barcelona por caminhar a passos largos rumo ao triplete. É preciso termos muito cuidado na forma como exaltamos as vitórias circunstanciais, e depois fazemos perder 5 jogos quem apenas perde um apenas por ter uma ideologia diferente.

É uma utopia pensar que se pode mudar alguma coisa, porque haverá sempre quem consiga, no trabalho de Allegri ao longo destes anos, encontrar razões para exaltar o futebol da Juventus. Como ganhou, e ganhou muito, ficará sempre nos registos como a equipa que conquistou uma carrada de campeonatos consecutivos; nunca ficará na memória porém quem eram os jogadores, quem era o treinador.