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Liga dos Campeões

Quando a justiça poética morde os lobos

Liverpool conquistou a Liga dos Campeões depois de vencer o Tottenham. Finalmente, Klopp já tem a sua orelhuda. E o Liverpool somou a sexta: "Let's talk about six, baby, let's talk about you and me..."

Hugo Tavares da Silva

Matthias Hangst

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Quando lhe perguntaram, na véspera, se tinha tido uma carreira infeliz, Jürgen Klopp riu-se. O alemão perdera as últimas seis finais que disputou, entre elas duas finais da Liga dos Campeões e outra da Liga Europa. Ele disse que não, com aquele jeito relaxado como quem sorri na hora de descer de divisão o seu Mainz e deixar eufóricos os adeptos nas bancadas. O problema era que desde 2012, sem contar com 2017, teve sempre a equipa numa final, disse ele. Nada mudou em Klopp. O estilo, ambição, o riso descomplexado, os dentes que aterrorizam qualquer criança e a ideia: “Não quero só ganhar, também quero sentir!”. Três finais depois (2-0 vs. Tottenham), o homem que gosta de heavy metal no palco verde (com cheirinho a paraíso) é campeão europeu. O Liverpool, um sábio navegador das águas deste continente com barbas, levanta pela sexta vez o troféu (77, 78, 81, 84, 2005, 2019)

Do outro lado estava uma equipa milagrosa, camaleónica, que monta emboscadas. Genial. Resumir a mentalidade deste Tottenham de Mauricio Pochettino é fácil, basta ler uma página do livro de Guillem Balagué sobre o treinador argentino. “Depois de empatarmos com o Sunderland, partilhámos esta mensagem de Boza Maljkovic com os jogadores no Whatsapp: ‘Um cão e um lobo são o mesmo, com uma diferença: o cão vive em casa, tem comida, água, dorme na cama do dono; enquanto que o lobo vive na montanha, tem de ir procurar alimento, refúgio para dormir’. Eu quero lobos na minha equipa, gente com fome e ambição”. Pocchetino, senhoras e senhores.

Esta final, em Madrid, não começou sem um trago seco. Vazio. Um minuto de silêncio por José Antonio Reyes, o esquerdino que tinha muita categoria, que morreu esta manhã depois de um acidente de automóvel, em Sevilha.

Robbie Jay Barratt - AMA

Todos imaginávamos uma final com quatro, cinco, sete golos. Certo? Os adeptos, com a alma, empurram os futebolistas para a frente. Os homens que decidem tudo estão okay com essa ideia. E os jogadores, a mesma cantiga. Pois bem, não foi nada disso que vimos. E, quem sabe, porque tudo começou com uma tragédia londrina, logo aos 25 segundos. Sissoko, dentro da área, fazia contenção a Sadio Mané, mas optou por ser altruísta e ter explicar algo a alguém. A mão estava no ar. A bola foi dar-lhe um beijo. Penálti! Mohamed Salah, que na final da temporada passada (vs. Real Madrid) saiu lesionado na primeira parte, bateu para o meio da baliza: 1-0.

De que forma vai isto influenciar o jogo? Que plano havia uns minutos antes disto? E agora? Spurs ficam indiferentes ou acusam o baque? Liverpool vai para cima ou, inesperadamente, vai ser como aquele crocodilo que se passeia pelas águas turvas sem ninguém dar por ele, esperando o momento certo para morder a presa? O futebol falará.

David Ramos

Nervos. Mais do que tudo, nervos. A bola viajou muito pelo ar, naqueles momentos iniciais, quem sabe invejando o espetacular ângulo da transmissão televisiva, para quem gosta desta coisa de perceber os posicionamentos e movimentações. Muito mais bola para o Tottenham, que queria sempre, sempre, sair desde trás, limpinho (faltaria ligação com médios criativos e, sobretudo, Harry Kane). Os avançados do Liverpool tentavam condicionar, mas sem aquela urgência que é habitual. Pareciam querer convidar, serenamente, ao erro. E, já que estavam ali perto da baliza de Hugo Lloris, morder depois. Lá está, iam ser o crocodilo traiçoeiro.

Antes do jogo, na beIN Sports, Arsène Wenger e José Mourinho (olha que dois…) teorizavam sobre a influência da final do ano passado nos futebolistas de Anfield. Deixaria esta gente mais atenta ou sucumbiriam ao medo de perder? O medo congela. Bloqueia. Talvez por isso, e por aquele golo madrugador, tivemos um Liverpool calculista, menos apaixonado, menos apaixonante, frio, que já não vai na história dos amores fugazes de verão. Eles querem tudo. Vão construir a armadilha para os lobos.

Trent Alexander-Arnold, que voltou a ser gigante (pela maturidade e cortes importantes), chutou de longe: a bola rasou o poste. Son Heung-min começaria, aos poucos, a assumir-se como o grande protagonista do ataque do Tottenham, que sofria para ligar o jogo. Arrancadas e remates até aos 90’, foi o mais inconformado e beneficiaria da mudança da esquerda para o meio. Ambas as equipas sofriam com o apagamento de Harry Kane e Roberto Firmino, que normalmente baixam e ligam a luz para aquelas pessoas todas à volta abrirem a porta.

O Liverpool ia investindo em bolas longas, diretas. Não fazia comichão à sua honra. Hoje era dia de sentarem-se à mesa com a história… e a glória, senhora que vai e vem, pedira uma cadeira logo aos 25 segundos. Quanto à defesa dos de Liverpool, podemos resumir assim: se isto fosse xadrez, Joel Matip e Virgil van Dijk eram duas torres que ocupavam quatro casas cada um.

Soccrates Images

Arsène Wenger ia dizendo ao intervalo que, embora o Tottenham tivesse muito mais bola, era o Liverpool que estava mais perto do 2-0. Pocchetino, numa imagem que serve para a simbologia da coisa (no futebol, tudo serve), apareceu sem casaco e de mangas arregaçadas. Na véspera, quando lhe mostraram esta fotografia...

… ele disse: “Se não és corajoso, não podes jogar futebol”. Por isso, era expectável que viesse por aí um Tottenham comprometido, preparado para puxar a cadeira da glória para a sua mesa. E, boas notícias!, sucederam-se as oportunidades de golo. Parecia haver menos calculismo.

Klopp, atento ao arrojo londrino, mandou lá para dentro Divock Origi (Firmino) e James Milner (Georginio Wijnaldum), que quase marcou pouco depois. Ou seja, mais pedalada, frescura e capacidade para chegar à frente e atrás, e até piscar o olho à profundidade. O Tottenham ia controlando a bola, quando faltava meia hora para o fim: 63%. O super-herói da meia final, Lucas Moura, saltou lá para dentro. A confiança do brasileiro era muita: pediu o dobro dos bilhetes dos colegas para os amigos e família (40).

Pochettino colocaria Eric Dier a seis, com Christian Eriksen mais perto dele, para a qualidade de jogo subir. Fernando Llorente fez companhia a Harry Kane (apagado, apagado), para o eventual futebol direto e o recurso (e abuso) dos cruzamentos. E foi aqui que começou o show de Alisson Becker, o guarda-redes do Liverpool. Defendeu tudo, remates de longe, de perto, de livre direto. Foi um fartote.

Até que, indiferentes às dignas tentativas do Tottenham, o Liverpool voltou a morder o pescoço da presa. De vez. Na ressaca de um canto, ainda dentro da área, Origi tocou com o pé direito para a canhota, que executou um tiro letal, 2-0. Está feito.

Alisson, Alisson e mais Alisson, para resumir esta história de impotência. O árbitro apitou pela última vez e as lágrimas desataram a escapar aos homens de vermelho. Steven Gerrard sorria na bancada. Jürgen Klopp, normalmente efusivo, foi grandioso na vitória: sereno. Havia homens no chão, outros olhavam para o horizonte, destroçados. Arruinados.

Sem pena dos desafortunados, começavam a inscrever o nome eterno do vencedor na orelhuda: Liverpool. Pela sexta vez na história, não acontecia há 14 anos, depois daquela mítica recuperação vs. Milan de Carlo Ancelotti. Os futebolistas corriam para abraçar Klopp, eles dava troco com um carinho paternal. Jordan Henderson, capitão do Liverpool, fez um pequeno samba tosco, que não tinha a pretensão de ser samba, para galvanizar os colegas e levantou a taça.

Anadolu Agency

Um ano depois da trágica final contra o Real Madrid, o Liverpool arrumou-se e pensou-se. É outro, na loucura e na urgência, no controlo e na paixão. Continua a ter tudo e continua a ser diferente. Mudou uma coisa: embalado nas setas da frente, escudado por Virgil, contratou um enorme guarda-redes que defende tudo.

Já está, Jürgen.