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O Krasnodar não é o típico clube russo, porque o presidente também não é o típico oligarca russo

Será dos poucos clubes a ter subido à primeira divisão do futebol de um país sem, de facto, alguma vez ter sido promovido desportivamente. O FC Krasnodar só existe desde 2008, por obra e dinheiro de Sergey Galitsky, e apenas se estreou nas competições europeias em 2014. Mas é um clube que vai bem para lá dos laivos de opulência de um oligarca como, por vezes, acontece no futebol russo - a equipa que o FC Porto defrontará na Liga dos Campeões é, sim, fruto da vontade de um homem fazer crescer o projeto a partir da base, e não de cima para baixo

Diogo Pombo

Este é Sergei Galitsky, multimilionário que tem um conceito diferente dos demais: gosta da formação e da academia, e projeta o futuro a 10 anos. O Krasnodar é o adversário do FC Porto na 3.ª pré-eliminatória da Champions

Artyom Korotayev/Getty

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Quando a humildade e a pequenez afetam clubes de futebol, um jogo em casa contra equipas maiores é toda uma ocasião. É uma oportunidade para encher o estádio, não necessariamente com os nossos adeptos, sim com os outros, para lucrar com eles, que viajam em número para apoiar quem costuma ganhar muito, ou quem se espera que ganhe sempre. Pouco usual é, porém, que o presidente de dito clube modesto lhes ofereça bilhetes. Mas aconteceu.

Esses adeptos eram do Spartak de Moscovo e do Zenit São Petersburgo, equipas que mais gente movem, na Rússia, atrás de futebol, e Sergey Galitsky chegou-se à frente. Deixou-os entrar no estádio do FC Krasnodar, em 2013, sob a condição de que teriam de se comportar durante a estadia na cidade, que dista uns bons 5 mil quilómetros do Porto. E muitos mais haverá para o sítio onde mora Pelé.

Aquele a quem os brasileiros chamam de Rei deixou, por momentos, a terra do seu reinado para, em 2014, visitar a recém-fundada academia do clube. Mais do que se preocupar em ter lentes de câmaras e olhos de jornalistas presentes, para disseminar o evento, o presidente do Krasnodar fez questão de que todos os jovens do clube lá estivessem, para verem, de perto, o quão grande pode ser um futebolista.

Um presidente tão diferente na abordagem, ou comportando-se para o parecer ser, iria sempre dar origem a um clube também distinto.

Sergey Galitsky, um multimilionário enriquecido com o sucesso da maior cadeia de supermercados da Rússia, que fundou em 1994, virou-se para o futebol em 2008, no que parecia ser um anúncio para não perdermos o próximo episódio da série “A Megalomania de Oligarcas a Brincarem ao Monopólio” nos futebóis do país que organizou o último Campeonato do Mundo.

Porque as memórias do Dínamo de Moscovo comprador frenético, sobretudo, em Portugal, ainda estava fresca, como as do Anji Makhachkala, que deu a Samuel Eto’o o salário mais chorudo do mundo da bola e tinha um presidente que dava Bugatti Veyrons a Roberto Carlos quando o pé canhão brasileiro fazia anos. Mas Galitsky tinha outras ideias para o Krasnodar.

O empresário, que adotou o apelido da mulher para deixar de ser Arutyunian, denunciador da sua origem arménia, escolheu fundar um clube em Krasnodar. Já existia o cimentado Kuban, hoje extinto pela falência que o arruinou o ano passado - embora fosse, historicamente, o clube mais apoiado da cidade e da região. Galitsky fundou o Krasnodar e teve de pedir estádio emprestado ao vizinho.

Ao mesmo tempo, teve que angariar adeptos para um clube nascido da vontade de um homem só, no meio da 17.ª maior cidade da Rússia. Reconhecido lar de estudantes e militares, o Krasnodar começou a ter muitas caras associadas ao exército a assistir aos jogos, algo que o Kuban, um clube fundado pela polícia secreta da União Soviética, criticou ao início.

O FC Krasnodar existe há 11 anos, está há oito na primeira divisão do futebol russo e, na última época, ficou em terceiro lugar.

O FC Krasnodar existe há 11 anos, está há oito na primeira divisão do futebol russo e, na última época, ficou em terceiro lugar.

Andrei Shramko

Era normal, na altura, que um miúdo russo com queda para a bola, a viver em Krasnodar ou lá perto, sonhasse para os seus botões que um dia jogaria no Kuban. E Sergey Galitsky, como contextualizou o “These Football Times”, investiu em criar programas de acolhimento para jovens com potencial, selecionando famílias que os acolhessem para, depois, serem observados por scouts do clube e, talvez, escolhidos para integrarem a academia do clube.

Foi lá que investiu os milhões e a atenção, em vez de juntar zeros a à direita em transferências bancárias para trazer jogadores estrangeiros com nome.

“O Galitsky tem uma ideia bem definida daquilo que pretende para o Krasnodar. Há um investimento muito grande na formação e o Krasnodar tem uma equipa em cada divisão desde a RPL até à PFL (3 Divisão)”, explica Joel Amorim, especialista em futebol russo, sobre o projeto que o clube já está a conseguir sustentar.

Porque era a Rússia ainda União Soviética e a formação no futebol dependia, e muito, no investimento estatal, que financiava os clubes e criava escolas pelo país fora. Agora que “os clubes recebem cada vez menos do Estado” e o dinheiro “é, geralmente, mal investido”, o presidente do Krasnodar muito gasta para o futuro e pouco se parece guiar pelo imediato.

Poder-se-ia desconfiar destas intenções enquanto a academia não estivesse a funcionar, ou não houvesse equipas secundárias do Krasnodar, até se ouvir Sergey Galitsky a falar. “A idade mais importante para nós [são os nascidos em] 2003. Eles são os que estão na nossa formação desde os primeiros passos no futebol. Os resultados virão em 10 anos e aí estarei preparado para ver quem se vai rir de nós. Retiro muito mais prazer da academia do que da primeira equipa, que está menos dependente de mim”, disse, em 2014, à “Sports.ru”, o tipo que poucas entrevistas dá.

Nesse ano, o Krasnodar estreou-se na Liga Europa e deu outra prova da ascensão de sucesso, um sucesso sustentado em passos pouco vistos: na primeira época de existência, acabou em terceiro lugar da Terceira Divisão russa, mas foi promovido por dois clubes descerem, voluntariamente, por não terem condições financeiras para disputar o escalão acima; logo na temporada seguinte, o FC Moscovo faliu e o FC Saturn quase o imitou para, de novo, o Krasnodar subir devido a (falta de) dinheiro e não ao que se passou no campo.

O Krasnodar tem 11 anos e vive há oito no alto do futebol russo, sem ser altivo nas transferências - ao longo das épocas, os tipos que fazem soar mais alarmes foram Marat Izmailov, Andreas Granqvist, Cristián Cueva ou Fyodor Smolov - e enquanto aguarda, pacientemente, por quem possa sair da academia. “Não estão exclusivamente à espera do produto da formação, contratam geralmente bons jogadores estrangeiros, com critério, que ajudam a colmatar algumas falhas da equipa”, resume Joel Amorim.

Jogaram a Liga Europa já em cinco temporadas, chegaram às meias-finais da Taça da Rússia, foram terceiros no campeonato, na última época. O Krasnodar está a crescer e entre o clube sonhado por um milionário que admira Alex Ferguson, diz que o único livro que leu nos últimos 30 anos foi a biografia de Steve Jobs e não é fã do conceito de patriotismo - “É só um rótulo. Psicologicamente, é impossível não amar o sítio onde nascemos”. E à frente do maior salto competitivo da sua história está o FC Porto.