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Liga dos Campeões

A mão (pouco) invisível de Marchesín

O FC Porto bateu o Krasnodar por 1-0 e está mais perto do playoff de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões, num jogo em que a história ficou escrita em 10 minutos e com Marchesín, o novo guarda-redes dos dragões, a fazer a defesa que tudo terá mudado. O reforço salvou a equipa na única oportunidade que os russos tiveram e minutos depois Sérgio Oliveira marcaria o livre que deixa a equipa de Sérgio Conceição em vantagem para a 2.ª mão - não está tudo ligado, mas até parece

Lídia Paralta Gomes

YURI KOCHETKOV/EPA

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O relógio estava nos 89 minutos. Há um livre frontal, a baliza do Krasnodar está ali, Sérgio Oliveira perto da bola. Nas bancadas, um adepta da casa entrelaça o dedo indicador e o dedo médio, vulgo faz figas, porque nisto do futebol há muito de místico: para aquela adepta, aquele dedo a pressionar o dedo vizinho ia ajudar o remate do FC Porto a bater na barreira, a sair por cima, a fugir pelo lado, enfim, qualquer coisa que não fosse entrar na baliza.

Aquelas figas são o último reduto do adepto, aquela ajuda suplementar que vem lá do alto, do esotérico, não é uma coisa que se explique, só se faz - afinal de contas que nunca entrou num estádio com o pé direito para afugentar o azar?

Acontece que na vida real, as mãos num jogo de futebol podem de facto salvar uma equipa, mas para se fazer uma defesa decisiva convém que os dedos não estejam a fazer figas. Convém que as mãos estejam abertas e preparadas, como estava a mão de Marchesín na única vez que foi chamado a defender um remate enquadrado do Krasnodar. Foi aos 80 minutos, portanto, nove minutos antes do tal livre direto que pôs a adepta russa de dedos cruzados.

No economês, a mão invisível é uma espécie de representação simbólica da ideia de que o mercado se organiza sozinho, de forma automática, como se algo pairasse, fazendo assim meio que magicamente a engrenagem funcionar. Aquela mão de Marchesín foi pouco invisível, aliás, foi tão visível como essencial, mas também ela como que fez com que a história do jogo se escrevesse por si.

E por história leia-se: no momento de maior aperto do FC Porto, depois de 80 minutos de bocejo no espectacular estádio do Krasnodar, aquela mão que afastou o remate de Cabella da baliza dos dragões, virou o jogo. Virou o jogo porque além de permitir ao FC Porto não sofrer, lançou a equipa para a frente, afastou a pressão e o bom momento do Krasnodar.

YURI KOCHETKOV/EPA

Não foi a mão direita de Marchesín que aos 89 minutos ajudou o pé de Sérgio Oliveira a marcar aquele livre de forma perfeita, mas foi a mão do argentino, recém-chegado ao clube, com zero minutos com a camisola do FC Porto até esta quarta-feira, que permitiu que a equipa portuguesa saísse da Rússia sem golos sofridos e com o playoff de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões muito mais perto.

Tudo isto num jogo que, até aos 10 minutos finais, se aproximava perigosamente de um 0-0 desenxabido e soporífero, com um FC Porto com pouco ritmo e sem criatividade para sair da pressão do Krasnodar, que não quis por aí além ter bola.

Na 1.ª parte, só houve um pico de emoção ali pelos 13 minutos, após um remate cruzado de Marega que se seguiu a um belo passe de rutura de Sérgio Oliveira. Saiu ao lado, o remate, tal como toda a exibição do maliano, ele que ainda parece estar a recuperar de uma época passada extenuante e que só acabou há poucas semanas na CAN.

Depois do intervalo, o FC Porto ainda tentou mexer com a entrada de Luis Diaz para o lugar de Romário Baró, mas o colombiano, embora tenha abanado qualquer coisa, não foi a solução para o marasmo. Só houve alguma animação com a entrada de Ari e do miúdo Suleymanov no Krasnodar, a descontrolarem um pouco um jogo que estava aborrecidamente controlado.

Quando o Krasnodar fez a única jogada em construção digna desse nome, Marchesín estava lá. E quando a verdadeira oportunidade de marcar surgiu, Sérgio Oliveira não falhou, como um mercado que se auto-regula. Um mercado que, na Champions, vale muitos milhões.