Tribuna Expresso

Perfil

Liga dos Campeões

Erling Haaland é uma aberração

Erling Haaland nasceu neste milénio, tem 39 golos feitos em 29 jogos e, precocemente, vai-se esmerando na Liga dos Campeões, a competição em que mora o teste máximo ao que um futebolista é capaz, o derradeiro desafio que separa o trigo dos bons jogadores do joio dos excelentes. Até pode ser cedo para lhe passar o atestado de brilhantismo, mas, na terça-feira, ao marcar duas vezes pelo Borussia Dortmund contra o PSG, o norueguês deu mais uma prova de não estar a seguir os preceitos normais do futebol

Diogo Pombo

Jörg Schüler/Getty

Partilhar

Olhem bem para ele, tão desengonçado que é, a locomover-se sem o carisma estético que adorna tanto jogador da bola. Não corre de peito feito e com a cabeça erguida, um pé não é gracioso a pisar à frente do outro, nem o sucedâneo que o põe em marcha, a noção que transmite quando se mexe em campo não é a de um atleta.

À primeira vista, talvez mesmo à segunda e à terceira, Erling Haaland não personifica o que o jargão futebolístico instaurou como classe.

Antes, ele debruça a cabeça e o pescoço quando a bola está perto. Entorta-se quase como um corcunda se a tem nos pés. Correndo com os braços esticados para fora, arqueando-se para a frente e dando um pequeno pulo a cada passo, os seus 1,95 metros de corpo esparguete parecem descompensados. E, durante o jogo, ainda multiplica a cara em caretas que atam o laçarote no embrulho pouco genérico que é este avançado.

O mais normal que logra ser, ao olhar, é quando se deita a um canto do campo do Signal Iduna Park, estatelando as pernas e os braços, com a cabeça também encostada na relva, ao celebrar o segundo golo que faz ao Paris Saint-Germain na Liga dos Campeões. É a primeira mão dos oitavos-de-final, o sétimo jogo pelo Borussia Dortmund e a 11.ª vez que marca pela equipa que chegou a 29 de dezembro.

Esse golo é repartido por dois toques, o primeiro uma receção orientada para não frenar a corrida, o segundo para o pé esquerdo bater um remate reto e ascendente em força bruta, à entrada da área. O que marcou antes foi lá dentro, encostando uma bola vinda de um ressalto, do tipo que se pode evocar a sorte como ajudante da capacidade e do instinto de um avançado.

Não é pela morfologia que tem e a forma como se movimenta, porém, que é um claro desvio à normalidade. Todo o pacote do norueguês é uma aberração.

Haaland está na Terra há 19 anos e vai com 60 golos feitos enquanto profissional. Em setembro, ainda no Red Bull Salzburgo, marcou um hat-trick durante a primeira parte do primeiro jogo da carreira na Champions. Na fase de grupos, apenas não marcaria no último encontro, contra o Liverpool, saindo com oito da Áustria e tendo agora 10 na Alemanha, onde conseguiu um trio de golos na estreia pelo Dortmund. “É assim que as coisas são, só tenho que ser eu próprio”, disse, no final.

Resumi-lo de lacónico é apropriado. É teutónico, até, parco em palavras e paupérrimo em entusiasmo, quase uma imitação loura de um jovem Zlatan Ibrahimovic, subtraindo a arrogância. Abstrai-se quase sempre de sorrir ou de tornar audível o que lhe vai na cabeça nas ressacas dos jogos, limita-se a responder nos mínimos, mesmo se questionado cada vez mais pelos jornalistas.

Porque são 39 golos em 29 jogos e 1990 minutos contados esta época, o que, fracionado, dá uma bola na baliza dos outros a cada 69 voltas do ponteiro ao relógio. A certeza e o imediatismo com que bateu a bola do 2-1 do Dortmund contra o PSG estão-lhe, também, na atitude. "Hoje viu-se que ainda tenho muito em que melhorar", constatou.

Stuart Franklin/Getty

Haaland não estranha o contexto, nem acusa a pressão. Encolhe os ombros nas respostas dadas, parece lidar calmamente com o que vai acontecendo, quase a tentar normalizar as anormalidades que está a colecionar no futebol.

A culpa, dentro do mesmo estilo de corpo que parece trapalhão a movimentar-se, está na cabeça, maior responsável por todo este súbito estado de graça.

Haaland garante ser o mesmo rapaz que saiu de Bryne, sozinho, com 16 anos, para jogar no Molde. Mostra sensatez ao confiar no pai, no seu tempo futebolista do Manchester City e da seleção norueguesa, para tomar decisões conjuntas, como a de ir para o RB Salzburgo culturalmente apostador em jovens e não para a tentação da Juventus. Admite copiar a dieta e os hábitos rigorosos de Cristiano Ronaldo e vai dizendo que o objetivo é ser dos melhores do mundo.

Herdou mais do que o talento que o pai tinha para a bola, acredita ter colhido da mãe, antiga atleta de fundo, a velocidade, julga ainda ir buscar explosão ao salto em altura que praticou, em criança - “Acho que tenho um recorde mundial para rapazes de cinco ou seis anos” -, mas, por mais fisicamente excelso que seja, é no jogo mental que é mais anormal.

Com 19 anos, quando é para decidir a um toque, é incomum ser tão notório como já sabe o que vai fazer à bola. A maneira como vira o corpo para receber orientado para a baliza ou para longe de um adversário. O olho para atacar os espaços entre defesas e desmarcar-se rumo a onde terá mais tempo quando receber um passe. Sobretudo, a calma com que joga e reage, depois, ao que logra fazer no jogo.

Haaland é deste milénio, está a aberrar desde 2000 e, precocemente, já se vai esmerando na Liga dos Campeões, a competição onde mora o teste máximo ao que um futebolista é capaz, o derradeiro desafio que separa o trigo dos bons jogadores do joio dos excelentes. Até pode ser cedo para lhe passar o atestado de brilhantismo, mas Erling Haaland não está a seguir os preceitos normais.

O norueguês é a nova boa aberração do futebol.