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Liga dos Campeões

A Liga dos Campeões está de volta: ainda se lembra de como tudo tinha ficado e sabe o que aconteceu entretanto?

Antes de a Liga dos Campeões trazer os 'quartos', as 'meias' e a final da competição para Lisboa, sexta-feira e sábado jogam-se os encontros que faltam na segunda mão dos oitavos-de-final, ainda nas casas habituais dos clubes. Fora a desvantagem pesada que o Chelsea carrega até Munique, as outras eliminatórias estão bastante abertas e a pandemia mexeu com os contextos que envolvia cada equipa quando se jogou a primeira mão. O maior exemplo será o Real Madrid, que nem por sombras tinha o nível de jogo com que defrontará, agora, o Manchester City

Diogo Pombo

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Manchester City - Real Madrid (primeira mão: 2-1)

Nenhum deus teria arcabouço suficiente para guardar segredo e de todos nós esconder que o Manchester City de Pep Guardiola, em dia sim, é um rolo compressor e fluído de futebol, o mais enganador de todos quando põe o adversário a correr atrás de uma bola que vê, mas na qual não tocará, chegando atrasado aos sítios para de lá ver os lugares para onde os ingleses já movimentaram essa tal bola.

O problema, que não será bem um problema, mas uma inevitabilidade - ninguém, nem nunca um conjunto de 11 tipos, conseguirá atinar sempre o melhor de cada um para a equipa jogar na sua melhor versão - é que o City, esta época, faliu mais vezes do que o habitual e por isso terminou a 18 pontos do campeão Liverpool, ao qual ganhou por 4-0 no primeiro jogo pós-ressaca da conquista do título, 30 anos depois, pelos rapazes da cidade dos Beatles, mas perdeu com as outras duas equipas inglesas de maior porte (Chelsea e Arsenal) que defrontou após a retoma.

Há uns meses, um jogo seu a trote e minimamente dinâmico no uso da bola até poderia ser suficiente para o Real Madrid, como o foi no Santiago Bernabéu.

Mas não para este, o mais recente, o rejuvenescido, que saiu do confinamento com mais uma dose de pó de perlimpimpim de Zinedine Zidane, o treinador com toque de sabe-se lá o quê. Neste século, não houve outro que tenha tocado no clube e conseguido acertar os pés de tantas estrelas juntas. Sem a bola a equipa solidificou-se, Modric recuperou a forma de há uns anos, Benzema afirmou-se, mais ainda, como o gerador de jogo atacante como nunca o fora em 11 épocas no clube, o Real ultrapassou o Barcelona e foi campeão espanhol.

E este Real Madrid é feito pelos mesmos, fora o Ronaldo abonador de golos, que conquistaram três Liga dos Campeões seguidas, acionando nos jogos grandes um modo muito próprio, em que todos estalavam uns dedos imaginários e subjugavam qualquer adversário a um nível coletivo que jamais se voltou a ver desde 2018. Será agora? E se o City capaz for de jogar no seu zénite também? Tragam as pipocas, porque a única certeza é que não haverá Sergio Ramos em campo, ao ter somado a 27.ª expulsão da carreira no jogo da primeira mão.

Juventus - Lyon (0-1)

Se fosse assim, apenas a um jogo, os franceses que terminaram no 7.º lugar da Ligue 1 teriam um imbróglio dos grandes com que lidar, pois, fora as diferenças de qualidade individual e enquanto equipa, o único jogo do Lyon desde 8 março aconteceu a 31 de julho, quando perdeu a final da Taça da Liga, nos penáltis, contra o PSG.

França foi o único entre os endinheirados campeonatos a suspender a época 2019/20, sem a retomar, deixando quem ainda tinha competições europeias no horizonte sem futebol a sério, sem maneira de manter o ritmo, sem hipótese de, pelo menos, chegar a esta segunda mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões em igualdade de ritmo, pulmão, andamento no físico e no costume de jogar a alta rotação.

Por isso, mesmo tendo idealizado uma refeição da alta cozinha francesa há meses, quando venceu a Juventus em casa, o Lyon foi tramado pelas circunstâncias, mesmo até se os italianos, com Ronaldo, Dybala, Pjanic, Douglas Costa e o eterno Buffon, continuarem a jogar aos empurrões, com o seu Sarrismo assim-assim, que deslumbrou ninguém durante esta época até conquistar a Série A. Antes, ainda perderam a final da Taça e adiaram a confirmação do título ao perderem em casa da Udinesse, com uma exibição paupérrima.

Bayern de Munique - Chelsea (3-0 na primeira mão)

Há quem se atire a Frank Lampard com a ubiquidade dos números e a hábil cintura das comparações, a fim de serem viradas para o lado de qualquer que for o propósito de quem estiver a comparar: com o inglês, o Chelsea acabou a Premier League com menos pontos (72-66), menos golos marcados (63-69), mais sofridos (54-39) e um lugar abaixo (4.º) do que na época passada, com Maurizio Sarri. E, também, sem troféus, ao contrário da temporada com o italiano, terminada com a conquista da Liga Europa.

Mantendo o simplismo, escrever-se-ia que este Chelsea piorou, regrediu e deixou de evoluir, mas, depois, há que olhar para o campo, onde um treinador, sem poder pedir ao clube por contratações que estava impedido de fazer, montou uma equipa de futebol direto, arriscado, vertiginoso a transitar para a frente e com miudagem (Abraham, Mount, Tomori, James, Gilmour) que, de outra forma, talvez nunca fosse lançada na competitividade dos matulões onde só assim evoluem.

Eis o Chelsea de Frank Lampard, permeável a defender na maneira como se expõe, nas perdas de bola, que vai defrontar o Bayern de Munique que quase lhe é um antónimo. Os alemães venceram a Bundesliga em pleno modo bully, de volta aos tempos goleadores e a dominadores que pareciam perdidos com Niko Kovac, treinador que foi substituído, em novembro, por Hansi Flick.

Julgou-se estarmos perante um interino, mas o germânico, aos poucos, pôs o Bayern a jogar um futebol de novo dinâmico, sem emperrar e com os melhores jogadores a agirem nas melhores versões deles mesmos (Lewandowski, Kimmich, Gnabry, Coman, Alaba). Ganharam 21 dos 23 jogos feitos em 2020 (só vitórias após a retoma) e, à priori, só perdem para o Chelsea em ritmo, pois as competições na Alemanha terminaram na primeira semana de julho, enquanto a equipa de Lampard perdeu a final da Taça de Inglaterra sete dias antes de defrontar os bávaros na Champions.

Barcelona - Nápoles (1-1)

Estando o Barça como está, moribundo de identidade, uma pálida imagem da forma de jogar, com os 30 a notarem-se nos jogadores em quem mais poderia confiar e agoniado pela tão evidente agonia de Lionel Messi - nem ele tem vagar suficiente para mascarar com genialidade em campo tanta coisa que vai mal fora dele -, seria de esperar um jogo mais equilibrado.

Verdade que o Barcelona foi visto pela última vez a ganhar por 5-0 ao Osasuna, na última jornada da liga espanhola, que já de nada valia, mas, sobretudo desde a retoma pós-confinamento, a equipa foi caracolando o ritmo com que trocava a bola, abrandando ainda mais a reação às vezes em que a perdia e afunilando, cada vez mais, o seu jogo para o previsível passa-a-bola-ao-Messi.

Pelo meio, surgiram as auto-críticas públicas do inquestionável argentino e os rumores de Quique Setién, o treinador, poder sair antes deste jogo com o Nápoles, que se alinhou com o temperamental Gattuso e até venceu a final da Taça de Itália contra a Juventus, a meio de junho, sendo e jogando melhor que a campeã italiana.

Mas, na última jornada da Série A, o capitão Lorenzo Insigne sofreu uma lesão muscular e deu-se corda ao contrarelógio mais apressado do Nápoles, porque recuperar o baixinho destro que é, talvez, a versão mais espelhada do vício de Arjen Robben - partir de fora para dentro e rematar em arco, ao poste mais distante -, será fulcral pelo quão influente é no jogo atacante da equipa.