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Juventus. Morrer por ideais é um ato romântico. Ser morto por eles é, vá, chato

A Juventus jogou francamente mal e foi eliminada pelo Lyon e Ronaldo caiu nos oitavos de final da Liga dos Campeões pela primeira vez desde 2009-10. A narrativa da competição, que diz que esta se confunde com ele, pode ter mudado esta noite. Não por culpa dele, que até marcou dois golos e bateu outro recorde. O fim do Sarrismo começou agora

Pedro Candeias

Valerio Pennicino

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A Juventus tem tudo o que quer de Itália e faz tudo o que quer de Itália e em Itália, onde é campeã há nove épocas seguidas, tendo o primeiro título acontecido no longínquo e esquecido ano em que Barack Obama foi reeleito Presidente dos Estados Unidos da América.

Ou seja, por mais que o mundo tenha mudado entretanto, pouco ou nada mexeu com a Juventus, uma das poucas constantes que podemos tomar como irresistíveis nos próximos tempos: se por hegemonia se entende um domínio absoluto circunscrito a um determinado território, então a Juventus é realmente hegemónica em Itália - apesar das suas particularidades.

É que, por vezes, a Vecchia Signora leva a alcunha demasiado a sério e demora em refazer plantéis; apoia-se, talvez, num determinado ramo da sociologia do trabalho que valoriza as relações em detrimento do rendimento. Das equipas que ainda estavam em prova nesta fase da Liga dos Campeões, a Juventus era a que em mais ocasiões apresentara o onze mais velho da jornada na competição e poucos se surpreenderam com as renovações de Buffon (que tem 42 anos) e de Chiellini (que tem 35).

[Cristiano Ronaldo, obviamente, é um caso à parte e qualquer contabilidade destas deve excluí-lo à partida, como veremos a seguir.]

É a forma como por lá se fazem as coisas e provavelmente ninguém teria pevide a ver com isto - não fosse o inesperado trambolhão nos oitavos de final, diante do Lyon. Ficou 2-1 em Turim e há muitos, muitos meses ficara 1-0 em França; resultado final: humilhação.

Sim, porque é humilhante para a Juventus ser eliminada por uma equipa francesa que não o PSG, que ainda por cima não competia desde o cancelamento da Ligue 1, por causa da covid-19. De então para cá, o Lyon disputara seis jogos faz-de-conta e ainda a Taça da Liga, que naturalmente perdera contra o PSG; no mesmo período, além do triunfo protocolar na Serie A, a Juventus fora derrotada na final da Taça de Itália pelo Nápoles, sinal de que o Sarrismo de Sarri poderia estar a abrandar antes de tempo.

Neste Juventus - Lyon, o Sarrismo atascou.

Porque foi inútil perante um adversário que jogou francamente melhor e que o bateu no seu ideário da posse e da troca de bola. Raramente, durante os 90 e poucos minutos de uma segunda-mão mais estranha do que bem jogada, os italianos se superiorizaram aos franceses, suportados pelos excelentes Aouar e Bruno Guimarães e pelo talento musculado de Memphis Depay. Aliás, foi dele o primeiro golo do encontro, num penálti à Panenka após um lance duvidoso com Betancour; a providência e o apito do árbitro tratariam de repôr a igualdade noutra grande penalidade questionável que Cristiano Ronaldo converteu.

Só que o 1-1 ao intervalo disfarçava mal a indigência do futebol da Juventus, muito mais dependente de esforços individuais do que aquilo que se espera numa equipa de autor. Na verdade, apenas os fogachos de Bernardeschi e a extrema competitividade de Cristiano Ronaldo puseram, aqui e ali, os rapazes de Rudi Garcia em apuros; de resto, somaram-se passes errados, chutões desesperados e correrias desnecessárias. Pelo contrário, os lances mais perigosos foram quase todos dos franceses, com movimentos coletivos interessantes que expuseram De Ligt, por exemplo, a situações caricatas.

Morrer por ideais é um ato romântico. Ser morto por eles é, vá, chato.

Na segunda-parte, com o mesmo rame-rame a decorrer, Cristiano Ronaldo fugiu a dois marcadores e chutou violentamente de pé esquerdo à baliza de Anthony Lopes.

Foi o seu 37.º golo da época pela Juventus, afastando-se ainda mais do recorde de Férénc Hirzer que já batera na primeira-parte (Hirzer fizera 35, em 1925-26); e foi o seu 67.º golo em fases a eliminar na Champions, número que facilmente poderíamos atribuir a uma equipa, mas que é só dele.

E foi também só ele quem pareceu ter o fogo necessário para fechar a eliminatória, cortando bolas de cabeça em bolas paradas para a seguir desatar em sprints vigorosos para pressionar o adversário. Só que nem Higuaín, nem depois o azarado Dybala (entrou e saiu, lesionado), o acompanharam e o milagre sob a forma de um hat-trick não apareceu.

E assim a Juventus caiu e com ela Ronaldo, pela primeira vez desde 2009-10, nos oitavos de final de uma competição que frequentemente se confunde com ele.

É possível que a narrativa tenha mudado esta noite.