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Liga dos Campeões

A Atalanta derrotou o PSG. Mas Neymar derrotou a Atalanta

A Atalanta superiorizou-se ao PSG na 1ª parte do jogo dos quartos de final da Liga dos Campeões, no Estádio da Luz, e até esteve a ganhar, 1-0, até bem perto do final. Só que, do outro lado, estava um rapaz chamado Neymar, que nos relembrou que é um dos melhores do mundo e carregou os franceses às costas até conseguirem dar a volta a um conto de fadas italiano e vencerem, 2-1

Mariana Cabral

DAVID RAMOS

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Se isto fosse um daqueles filmes feel good de domingo à tarde, as personagens eram básicas: de um lado, os heróis, retratados por um simpático pizzaiolo que ia fazendo pela vida com o pequeno, mas muito apreciado, ristorante que detinha em Bérgamo; do outro, os anti-heróis, que podemos personificar num vilão com sotaque franciú e um excelso bigode a ser cofiado com um ar fanfarrão enquanto passeava vários maços de notas pelas lojas de Paris.

Simplificando, foi isto o Atalanta-PSG.

Mesmo na Liga dos Campeões, que apelidamos de prova milionária, esta foi uma luta da classe média contra os ricos: só o salário de Neymar é suficiente para cobrir todos os salários de todos os jogadores da pequena Atalanta, uma equipa que foi engrandecendo nas mãos de Gian Pero Gasperini, desde 2016/17, de tal forma que, na época passada, terminou a Serie A em 3º lugar.

O feito - também igualado esta época - levou a Atalanta à Liga dos Campeões e alguns anti-heróis à loucura: "Respeito muito o que a Atalanta está a fazer, mas não têm historial internacional nenhum. Tiveram uma boa época e de repente ganham acesso direto à maior competição europeia de clubes. Acham isso correto?"

Cinco meses depois do despeito com que Andrea Agnelli, presidente da Juventus, falou sobre a Atalanta, já podemos responder com toda a propriedade: achamos, sim. A pequena grande equipa de Bérgamo (cidade que a pandemia de covid-19 afetou fortemente) não só fez por merecer entrar na maior competição europeia como ainda esteve a um triz de eliminar o milionário PSG.

Pelo menos até surgir o que se coloca numa história depois de ela já estar terminada: o post scriptum, vulgo PS, que neste caso tinha apenas e só seis letras.

Neymar.

Michael Regan - UEFA

Na 1ª parte do jogo, enquanto a Atalanta pressionava no campo todo, marcando, como é habitual, homem a homem, e impedindo o PSG de construir o que quer que fosse, só havia um jogador em campo capaz de, sozinho, superar todo um coletivo.

Neymar.

Focada, como sempre, no ataque, foi a Atalanta - sem o avançado Ilicic, que está com uma depressão, e sem o guarda-redes Gollini, lesionado - que começou por ameaçar a baliza do PSG, esbarrando sempre na presença de Keylor Navas, que protagonizou uma série de defesas essenciais a remates de Papu Goméz, Hateboer e Tolói.

Mas aos 26', a Atalanta chegou ao golo, num lance típico do seu caos mais ou menos controlado em termos ofensivos, que levou um dos três centrais, Tolói, a iniciar uma jogada no meio-campo ofensivo (e posteriormente a entrar, já sem bola, na área!) que foi parar aos pés de Zapata que, por sua vez, beneficiou de um ressalto para vê-la ir parar aos pés de Mario Pasalic - com um belo remate em arco, com o pé esquerdo, o croata fez o 1-0.

DAVID RAMOS

Já o PSG, sem Verratti, Di Maria e Mbappé (este último era o único que estava no banco), raramente conseguiu aproveitar o balanceamento ofensivo do adversário, e a arriscada marcação homem a homem, para conseguir construir jogadas de golos. Na verdade, os franceses não conseguiram construir uma única jogada de golo na 1ª parte, ainda que tenham tido oportunidades flagrantes de golo.

Parece contrassenso, mas é senso de quem viu o jogo: não fosse o magnífico Neymar, que nunca se esconde nos jogos em que precisam dele, e o PSG mal tinha conseguido ultrapassar a fortíssima pressão dos italianos. Para Neymar, a marcação homem a homem não o deixava num duelo frente ao adversário, porque a ginga do brasileiro permitia-lhe sempre transformar essa igualdade numérica do um contra um numa superioridade, não numérica, mas qualitativa.

Foi assim que, logo aos 4', Neymar se livrou da marcação, entrou pelo meio-campo adversário dentro - vazio, dada a pressão bem lá à frente da Atalanta; o que, em bom português, se explica com "se tapas a cabeça, destapas os pés" - e, completamente isolado em frente a Sportiello, rematou ao lado.

A história iria repetir-se, durante a 1ª parte, já perto do intervalo (antes, houve um cruzamento/remate que também passou perto da baliza e um livre direto para as mãos do guarda-redes): Hateboer errou um passe, Neymar aproveitou para se lançar para área, novamente isolado, e... remate ao lado.

Se a ausência de Verratti se fazia sentir nas parcas tentativas de construção dos franceses (na verdade, o plano de Tuchel pareceu ser atrair os italianos para perto da área de Navas, para depois lançar a bola em profundidade para Neymar, no corredor central, com Icardi pela direita e Sarabia pela esquerda), a falta de Mbappé no ataque era especialmente excruciante perante a finalização desacertada de Neymar - ele que, na realidade, executou tudo o resto na perfeição.

David Ramos

E seria precisamente a entrada de Mbappé a fazer tombar o jogo novamente para o lado do PSG. À entrada para a 2ª parte, a Atalanta até esteve a um triz do 2-0, quando Djimsiti não acertou na baliza, na sequência de um livre lateral, mas já sem Papu Goméz em campo (saiu lesionado) e, por aparente cansaço, físico e/ou psicológico, os italianos retraíram-se muito mais do que seria expectável, o que permitiu ao PSG crescer.

Aos 60', Mbappé entrou e demorou poucos minutos até se isolar - a passe de Neymar - e ver Sportiello fazer uma grande defesa, momento que se repetiu também com um remate de fora da área.

O PSG, já com Draxler e Choupo-Moting em campo, ia apertando o cerco à área italiana e a Atalanta já não parecia capaz de resistir muito mais tempo às investidas alheias. Mas o tempo foi passando, o jogo foi parando - Navas teve de sair lesionado - e a história parecia terminada.

Até ao PS(G). Aos 90', Choupo-Moting colocou a bola nos pés de Neymar, o brasileiro cruzou para a área e Marquinhos desviou para o 1-0, que até Tuchel, antes sentado na geleira, festejou com fervor.

Quando o jogo parecia destinado a prolongamento, e já com a Atalanta cabisbaixa, as super estrelas deram o golpe final: Neymar isola de forma brilhante Mbappé, com um passe com conta, peso e medida, e o francês assiste, já na área, Choupo-Moting, para o 2-1 final.

A crueldade do fim do conto de fadas da Atalanta só é compensada pela beleza do jogo de um rapaz que, ao contrário de Ronaldo e Messi, não vive para o futebol, mas, tal como eles, é o único capaz de carregar uma equipa às costas.

Michael Regan - UEFA

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