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Só 12 minutos a jogar futebol com João Félix não chegam para o futebol que há no Leipzig

O Atlético Madrid foi encostado, pressionado e dominado, em tudo, pelo esparguete flexível que é o Leipzig, até Diego Simeone tirar João Félix e o que lhe resta de arrojo do banco, de onde viu a equipa de Julian Nagelsmann a jogar não como um clube com 11 anos de vida, que nunca esteve aqui, mas como uma equipa que arrisca ser valente e surpreendente. Por isso ganhou (2-1) e está nas meias-finais da Liga dos Campeões

Diogo Pombo

ANTÓNIO COTRIM/Lusa

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Horas antes do jogo, circulou um desenfreado vídeo já com uns meses, mostrando seis ou sete desenfreadas almas, em Moscovo, a acelerarem o corpo o máximo que podiam, correndo uns 60 metros para trás no campo, esmifrando-se no esforço para socorrerem a equipa após uma bola perdida com a qual, no caso, o Lokomotiv estava a contra-atacar. Tanto sprintaram que a jogada deu em nada, tantos e tão surpreendentes eram eles à entrada da área.

Houvesse um vídeo para resumir a pegada que Diego Simeone tem cravada no Atlético Madrid, quando a equipa não tem a bola, ou a perde, seria este, a meios com todas as frases feitas com os anos em torno da equipa: o esforço é inegociável, ter a bola nem sempre se negocia e tudo o resto que dê protagonismo pode ser um negócio para os outros, desde que, no final, se ganhe.

É o oposto da impressão digital pregada por Julian Nagelsmann no Leipzig que, como esperado, entrou no jogo a defender-se com os jogadores em 4-2-3-1, sem a bola, e a atacar com um 3-3-3-1, às vezes até com um losango a meio-campo, trocas e baldrocas nos números que o próprio diz não interessarem, por o importante ser a forma como a equipa joga e, nos primeiros 10 minutos, encosta os espanhóis à própria área.

Porque circulam a bola rápido, com poucos toques e gente a movimentar-se na frente de quem a toca, arrastando atenções e abrindo espaços para serem explorados. O Leipzig tem várias chegadas à área por fora, a terminarem em cruzamentos rasteiros dos alas que chegam, porém, quase sempre a alguém do Atlético, que popula a área e precavido estava para passes feitos para trás, para Olmo, Sabitzer ou Nkunku aparecerem a rematar.

Por mais desvalorizações que faça aos sistemas, a flexibilidade de esparguete manteve o Leipzig a encontrar espaços nas alas, onde se aproximavam os seus médios, para tabelar e entrecortar combinações, muito por culpa do modo-deus em que Upamecano, senhor dos seus 21 anos, jogou para, quer pelo passe vertical, quer por correrias com bola, bater as linhas do Atlético e dar o ponto de partida para a equipa chegar até aos últimos 30 metros do campo. Era ele quem desequilibrava.

Mas, lá, insistia em chegar aos 20, até aos 15, porque entardecia o momento de finalizar, como se todos fossem devotos à igreja de ser sempre possível encontrar alguém em melhor posição, e com a bola mais a jeito, para ser essa a pessoa a rematar em vez de mim. O Leipzig chegava muito à área, mas finalizava pouco e, sem bola, mesmo arrumando-se de forma a não deixar que o Atlético construísse pelo centro do campo, era permeáveis por fora.

Sobretudo pela esquerda, onde o lateral Lodi acelerava jogadas com o extremo Carrasco, aproveitando a compensação que um médio lhe dava, recuando a posição. Os espanhóis quase só atacavam por esse lado, o belga até rematou a passe do brasileiro para o guarda-redes Gulácsi desviar para canto. Mas, de resto, só mesmo em cantos conseguiam ter jogadores a rematar, por três vezes, embora sem acertarem na baliza.

Os alemães construíram, criavam e não finalizavam por um mau passe, uma receção mal feita, um remate adiado ou uma hesitação, maleitas com quem perdiam espaços e segundos perto da área do Atlético, onde os espanhóis já aglomeravam sete ou oito jogadores quando o Leipzig se decidia por alguma coisa nos últimos metros.

Julian Finney - UEFA

E a equipa de Simeone, mesmo quando decidia pressionar alto em vez de esperar, era batida pela hercúlea capacidade de Upamecano fintar a pressão sem fintas. Como tinha, muitas vezes, um jogador seu cercado por dois ou três adversários, armadilhado pelas ratoeiras de pressão para onde o Leipzig dirigia as posses de bola dos espanhóis.

Como dirigiu a sua própria bola, 10 minutos após o intervalo, atraindo o Atlético para a esquerda, com a paciência certa para concentrar muitos jogadores ali e, depois, acelerar um passe para o outro lado, onde Marcel Sabitzer não tardou a cruzar a bola para Dani Olmo a rematar para o 1-0. O espanhol era um de cinco opções na área, amostra multiplicada por cinco da bravura do Leipzig em lançar jogadores para arriscar ser feliz em vez de temer as consequências.

Sofrido o golo, João Félix entrou em campo e deu-se, como sempre se dá, a receber passes nas costas dos médios alemães. O Atlético manteve Diego Costa e Llorente na frente, a fixar dois centrais, punha Carrasco de bom-castigo em cima da linha e tentava forçar espaço para as jogadas entrarem nas receções orientadas do português.

Ele começou a receber e a girar, a vestir cuecas e a tabelar, a acelerar nesses espaços e a usar os jogadores para lhe devolverem tabelas, venham e devolvam, dizia-lhes a cada ação com a bola que, aos poucos, fez o Atlético, por fim, jogar futebol fluído à boleia do miúdo que joga à bola e faz os outros jogarem melhor pela forma como o faz.

Assim recebeu, arrancou, tabelou para desmontar os adversários das posições, acelerar área dentro e ser rasteirado para haver o penálti que o próprio marcou. O Atlético empatava porque com João Félix ganhou muito e pareceu outra equipa - em apenas em 12 minutos.

Os espanhóis agarraram no jogo, estavam a existir com bola, confiavam cegamente nos passes no português, abriam espaços entre as linhas do Leipzig - que já pareciam lentas a reagir e atrasadas a chegar à bola - e conseguiam terminar as jogadas na área alemã.

Até que, numa bola frouxa e perdida a meio-campo, Sabitzer atacou-a com um passe de primeira para as costas de Trippier, dorminhoco na forma como plantou os pés na relva enquanto o desperto Angeliño lhe sprintava pelo lado cego. E, desencravando o botão do comando do cruzamento em que sempre carregava, independentemente da situação, lá passou uma bola para a entrada da área, onde Tyler Adams rematou a bola que foi desviada para o 2-1 entrar, aos 88’.

Depois susteram o caos, aguentaram-se, lutaram durante quase 10 minutos e não tremeram perante a garra, a raça, a luta e o esforço a que o Atlético retornou no desespero, já não procurando mais João Félix e jogando como se o voltasse a ter no banco, onde se senta a falta de arrojo de Simeone e de onde se viu o RasenBallsport Leipzig, o primeiro nome disfarçado da Red Bull que deu asas endinheiradas a este clube e, sobretudo, tomou uma decisão.

Contratou Julian Nagelsmann, que põe uma equipa a jogar assim, a arriscar assim, e a ganhar assim.