Tribuna Expresso

Perfil

Liga dos Campeões

Aqui jaz o Barça. Paz à sua alma

O Bayern atropelou, envergonhou, humilhou e goleou (8-2) uma equipa a que, em tempos, chamaríamos Barça. Mas nunca a poderíamos chamar assim, a (não) jogar desta forma, sem nada de uma genética reconhecida ao clube, onde até Messi foi completamente engolido pelos alemães, que se não são a melhor equipa da Liga dos Campeões, pelo menos pareceram sê-lo durante o tempo que jogaram - ou treinaram, como às tantas também chegou a parecer - no enterro de uma era no Barcelona. E a pior crítica que se pode escrever é que poderia ter sofrido muito mais golos

Diogo Pombo

Pool

Partilhar

O Neuer é de classe mundial, Ter Stegen, vá, apenas “está a caminho de o ser”, foram as duas pedras, riscadas uma contra a outra, por Rummenigge, para dar faísca. “O Barcelona não me mete medo. Ter Messi não é suficiente, irá enfrentar o seu sucessor”, foi a palha que Lothar Matthäus chegou à faísca, para depois as fagulhas serem sopradas à balda por Élber, como se fosse uma ventoinha: “Hoje, o Lewandowski é melhor do que o Messi”.

Não sei se foi concertado, mas, ter o presidente do Bayern, um antigo capitão que tudo ganhou, mais um ex-goleador histórico, a marrarem no jogo nós-somos-melhores, com o tipo de opiniões que roçam a sobranceria, poderia entortar a varinha para virar o feitiço contra eles, por tocarem no nervo dos jogadores do Barça e, especialmente, no goto particular do génio que qualquer adversário quereria sossegado e sem causas para motivarem.

Por muito que este Barça já não pareça ser o Barça, mas um estranhamente mundano Barcelona, moribundo na sua identidade genética, ressacado sem cura da forma de jogar da qual se está a afastar, boa ideia nunca seria irritá-los com soberba. Mesmo que o bom-senso de Hansi Flick, o treinador do Bayern, reconhecesse depois a outra galáxia onde os carteiros têm de ir entregar elogios a Lionel Messi, a desculpa para os oprimidos pela banalidade se superarem parecia estar dada. O mal poderia já estar feito.

E estava, mas nada teve a ver com arrogância, altivez ou convencimento.

Verdade que o jogo começou com Boateng, nas últimas, a esticar-se para desviar um cruzamento rasteiro de Sergi Roberto e o impedir de chegar a Suárez, quando o Bayern foi apanhado no espaço que a sua linha defensiva subida por uma bola longa em que o espanhóis, depois, continuariam a insistir, tão contra-natura para eles, mas eficaz contra os outros.

Mas, no minuto seguinte, um golo com pés e cabeça - jogada apoiada, passes curtos, adversários atraídos e bola no espaço vagado por Nélson Semedo e mal compensado por Sergi -, feito pelo magistral trapalhão que é Thomas Müller, acabaria com o que parecia poder vir a ser. Aos quatro minutos, o Barcelona já perdia. E, outra vez verdade, aos 7’ já não perdia, porque outra bola longa descobriu Alba na profundidade e o desespero de Alaba desviou o cruzamento do espanhol para a própria baliza.

Mas, e este mas foi de vez, o mal do Barcelona estava feito porque já vinha de trás, de fora deste jogo, de há uns meses. Cada bola pensada no Bayern era uma flagrante amostra do quão débil era o Barcelona enquanto equipa, cada passe que Thiago Alcântara tinha oportunidade de rasteirar na vertical, virado para o jogo, era uma bola que entrava nas costas dos médios, tantos eram os espaços que havia entre linhas e entre todos os jogadores de quem, primeiro que tudo, se deveria esperar estarem quase sempre com a bola, por terem a camisola que têm no corpo.

Mas, mesmo com Suárez a falhar contra Neuer e com Messi a curvar uma bola contra o poste no entretanto, o Bayern crescia e jogava como toda a gente esperava, inclusive a soberba das figuras ligadas ao Bayern: a última linha encostada na metade do campo adversária, jogadas verticais, posses de bola rápidas e combinações entrelinhas para desequilibrar um adversário preso por arames. E Perisic, Gnabry e Müller marcaram aos 21’, 27’ e 31’ para um 4-1 que eles, e outros, tiveram hipóteses para engordar até ao intervalo.

Pool

Porque, deixando-nos de mas, o Barcelona era um aglomerado de corpos pesados, inertes e moles, como os do pachorrento Suárez e de Busquets, durante anos a personificação calma, composta e de aço nos nervos do jogar à Barça, o que ele foi e o que era agora, atropelado qualquer passe adversário (deixava sempre alguém do Bayern receber nas suas costas) e da própria equipa (perdeu várias bolas ao ser pressionado).

E Lionel Messi, o desalentado Messi, com o olhar cada vez mais esvaziado e amuado por cada golo que entrava, e não entrava, desconsolado por nem lhe chegarem as bolas esperançosas dos últimos meses, pedindo que desencante alguma coisa no deserto de apatia da equipa. Nem à mais genial saída de emergência do mundo era capaz de chegar a equipa que não pressiona, não acelera, não se organiza para fechar os espaços entrelinhas e não projeta jogadores para darem opções de passe na largura.

O que foi capaz de fazer, já na segunda parte, limitou-se a carregar outra vez no botão da bola longa nas costas da defesa subida do Bayern, que não ajustou essa falência e viu Alba receber, outra vez, na sombra de Kimmich, para passar a Suárez que, à entrada da área, castigou, cinco anos depois, a mesma queda de Boateng para ir à queima perante um enganador-mor e fez tombar o defesa antes de rematar o 4-2.

Foi apenas um lapso na normalidade do jogo e na naturalidade do naufrágio, queda livre, descarrilamento e qualquer analogia que se queira introduzir aqui.

Tudo o que estava mal no Barcelona, piorou, e a catrefada de coisas em que o Bayern era melhor, pelo menos mantiveram-se, constantes e ininterruptas, enquanto os onze tipos escolhidos por um impávido Quique Setién, mudo e com cara de espanto a cada plano televisivo que lhe procurava descortinar a humilhação. Ele é vítima do desnorte diretivo que está a arruinar um clube, mas é igualmente culpado por se acanhar perante uma equipa desequipada de ordem, na qual deixa Griezmann no banco e de lá o tira para ser um extremo esquerdo e defender.

O Barça não foi esquartejado. Não, porque quem esteve em campo não jogou como o Barça. Não pode, não o mostrou. Não o merece.

MANU FERNANDEZ/Getty

Os futebolistas a jogarem a passo, todos a não pressionarem em que sítio fosse, os laterais a serem deixados no um-para-um sem que alguém se importasse, nem meia equipa a defender, quase nenhum comportamento coletivo identificável são críticas futebolísticas e mais haveria a apontar, mas, com tanta coisa, talvez nem a falta de limites de um texto na Internet chegasse para listar o universo de problemas que um conjunto de jogadores vindos de Barcelona mostrou esta sexta-feira, nos quartos-de-final de uma Liga dos Campeões, no Estádio da Luz.

O Bayern não fez o que a Alemanha concedeu, por misericórdia, em 2014, no Brasil. Não abrandou, não se viu pingo de pena ou condescendência, todos os ‘nãos’ foram concentrados, bullyescamente, no adversário, a quem marcaria mais quatro golos, cada um humilhante à sua distorcida maneira, sempre a esfregar sal grossíssimo na ferida aberta já há anos, na qual a gangrena foi sendo adiada por Lionel Messi. Quiçá não se possa fazer maior elogio ao homem que nunca pareceu tão humano como neste jogo.

Até ele, no próprio meio-campo, perdeu, amorfo, uma bola sob pressão, tão fácil pareceu ser o roubo de Müller, que desencadeou o sétimo golo marcado por Phillippe Coutinho. Antes fora Nélson Semedo, um ilhéu deixado sozinho à sua sorte, a ser driblado três vezes por Alphonso Davies para a humilhação dar origem ao quinto golo, feito por Kimmich. O sexto foi de Lewandowski, o oitavo também de Coutinho. E muitos mais poderia ter sido, porque cada posse de bola do Bayern era finalizada na área.

Aos poucos, mas com tombos, cada bola na baliza uma naifada neste Barcelona e na alma do Barça, se é que ainda não abandonara este corpo, os alemães afundaram a sepultura que os espanhóis já vinham a cavar, soterrando-os apenas com humilhação. O jogo acabou a ser um treino, o Bayern tão flagrantemente superior em tudo, Thiago e Müller tão agigantados ali no meio que até Messi, roubado de ânimo, bola e portanto, de vida, parecia o corpo presente de uma criança a jogar na praia com adultos profissionais.

Em Lisboa viu-se um desnível humilhante como, sincerizando ao máximo esta crónica, achava que não se voltaria a ver, nesta geração, em contexto tão grave (competição em causa, jogadores envolvidos, expetativas à volta), após o 7-1 que traumatizou os brasileiros no Mundial. Este 8-2 deixará nas pessoas do Barcelona um trauma, palavra que fomos buscar à Grécia Antiga, quando significava a coisa que infetou, agora, sem controlo:

Ferida.

O Barcelona está ferido, porque o Barça que conhecemos na última década pereceu. Foi enterrado em Lisboa e, em Barcelona, terá de nascer algo novo, seja com, ou sem o melhor futebolista que já lá esteve e o manteve ligado às máquinas nos últimos tempos.