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Ici c'est Paris... e também o quintal de Neymar

Depois de estar perto em 95, com Valdo, Raí, Ginola e Weah, o PSG chega finalmente à primeira final da Liga dos Campeões da sua história

Hugo Tavares da Silva

David Ramos

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Há pouco mais de três anos Neymar aterrou em Paris. Depois de Valdo, Raí, Ronaldinho, Souza e Nené, era o novo embaixador brasileiro da camisa 10. Deixou Barcelona e Messi para trás, queria mais, talvez dizer ao mundo que era um dos grandes, que não precisava de andar à boleia da sombra de ninguém. Poucos perceberam a mudança, acusaram-no de farejador de dinheiro. Ele disse então que foi o coração quem ordenou, que apreciava a ambição que lhe venderam e que queria “os maiores títulos”. O futebol tira, já se sabe, mas também dá e, passados estes três anos, o Barça é um clube virado do avesso, sem norte, a prometer uma revolução profunda, enquanto Neymar e a rapaziada do Parque dos Príncipes meteram o PSG na primeira final da Liga dos Campeões da história do clube. Ironicamente, faz hoje sete anos que o brasileiro se estreou no Barça...

Mas, sim, o PSG é muito mais do que Neymar. É a velocidade, potência e técnica de Kylian Mbappé. É as boas decisões e as rotações deliciosas de Ángel Di María. É a adaptação e missão corajosa de Marquinhos. É os passes verticais furiosos e dissimulados de Leandro Paredes. É também a liderança e a certeza de Thiago Silva. É a cabeça de treinador e o cérebro espanhol de Herrera. É o acerto de Kimpembe. A pedalada e a sensação de que os dias são eternos para Juan Bernat. É a ausência de uns, importantes, como Verratti e Keylor Navas, que funcionam como vento nas costas dos que jogam. Enfim, é muita coisa. É um jogo fluído, desaparecido contra a Atalanta. É a audácia, solidariedade e o acerto de contas com o que se passou em 1995, quando caiu na meia-final com o Milan de Gullit, Savicevic e Boban (e tantos outros).

Mas o PSG é Neymar, porque Neymar é futebol. É o brasileiro mais brasileiro que pode haver. Toca a guitarra, dança e sorri para os outros. Enche o copo, oferece, beberica e ri. Inventa o pecado e o perdão. São poucos os que sabem levar a rua para o jardim que mora entre as balizas, e isso acontece cada vez menos porque a geometria e a força do rigor do futebol não o permitem. É assim. Em entrevista à Tribuna Expresso, nesta terça-feira, Valdo, que jogou no PSG entre 91 e 95, falou assim sobre o avançado: “Ele é um dos últimos talentos puros, sem agrotóxicos, sem nada, do futebol brasileiro. É o que tem o maior improviso, é o que é mais leve, é o que cativa mais. É aquele jogador que não é forte mas que também não é fraco. É o estereótipo do jogador brasileiro. Se aparecer um extraterrestre que não conheça o Neymar, vê-o jogar e diz: ‘Esse cara é brasileiro, né?’. Com certeza, não tem como enganar. O toque de bola do Neymar é o Brasil da velha escola, da boa escola”.

MANU FERNANDEZ

Do outro lado estava o Leipzig de Julian Nagelsmann, o treinador mais jovem de sempre a chegar a umas meias da Champions. Quando era mais jovem ainda, um futebolista da equipa de reservas do Augsburg, lesionou-se com gravidade e o treinador deu-lhe a mão, queria que fosse os olhos da equipa técnica. Esse treinador era Thomas Tuchel, o alemão que atualmente treina o PSG. Este Leipzig é plástico, que se encaixa nos espaços que o jogo oferece, que sabe por onde ir, que corre, vai à luta, que tem qualidade, que muda durante o jogo, que incomoda, pressiona, que é forte com a bola e sem ela, que sabe estar em todos os momentos do jogo. Enfim, é arrojado, nas ideias e na frescura das cavalgadas para a frente. Mas Nagelsmann, provavelmente para sacar metros a Mbappé-Neymar-Di Maria, optou por ser mais reativo, menos apaixonado, mais calculista. Quis, quem sabe, ser frio, cínico. E isso talvez daria certo num dia qualquer em que o PSG foi tudo o que não havia sido com a Atalanta: uma grande equipa.

Bastaram seis minutos nesta improvável meia-final para Neymar fazer estalar o poste. Mbappé, naquele estilo repentino e simulador que deve assustar qualquer defesa que decide fazer contenção, dançou à frente de um rival e respeitou a diagonal do avançado brasileiro, que apareceu na cara de Péter Gulácsi. Foi uma bela diagonal, uma ferramenta que usam com frequência por aqueles lados. Neymar juntou as mãos como que perguntando “porquê?”. Desafinado, tal como naquela jogada contra a Atalanta, voltou a sabotar o beijo entre a bola e as redes.

O golo, esse quase inevitável evento daqueles que são melhores, chegou pouco depois. Neymar, que levaria muita pancada durante o jogo, ganhou um livre e Di Maria assumiu. O argentino bateu com a categoria do costume, a bola ia a pedir, a pedir, a pedir, até que Marquinhos se antecipou a toda a gente e encostou para a baliza, 1-0.

O PSG dominava tudo, a bola, os espaços e as vontades. Escrevia o que era amor e desamor. O Leipzig pouco sabia como era estar com a bola, tentando sair rápido aqui e ali, olhando muita vez para as subidas de Angeliño, pela esquerda. Ou, mais tarde, para o futebol direto para Poulsen, um rapaz que está lá desde que a morada do clube era a 3.ª divisão. Dani Olmo, rápido e com boas ideias, e o intrigante e competitivo Sabitzer iam aparecendo de tempos em tempos no jogo, sem grande impacto.

Se as malandrices de Neymar, portador de um passaporte para todos os territórios do relvado, livre como um passarinho, enchiam o olho, também é verdade que os passes de Paredes tinham o mesmo efeito. Ao baixar para perto dos defesas, acionando a subida de Bernat, o argentino ficava de frente para o jogo, atraía a atenção dos médios do outro lado, abria espaços e, enganando com o olhar e com a posição do corpo, fazia o passe para onde não se esperava. É daquelas coisas bonitas que, para além de desbloquearem o jogo e de encontrarem os maiores talentos a 20/30 metros, não aparecem nos resumos...

Depois de Poulsen ter uma rara chance de ser feliz, Neymar voltou a fazer o poste estalar. Enganou, lá está, esse terrível hábitos dos génios do futebol, toda a gente e bateu na baliza um livre que pedia um cruzamento. Valeu o ferro a Gulácsi. Outra vez.

Do lado do Leipzig, a abordagem ao jogo parecia congelar a ambição. A equipa que engoliu o Atlético Madrid, que mostrou tanto futebol ao longo da época, parecia outra coisa, estava impacientemente paciente e faltosa. A postura passiva soou a traição. Sim, aqueles três avançados do PSG, que quando começam como titulares marcam três golos por jogo (segundo a GoalPoint), merecem respeito e pouco espaço, mas as coisas não estavam a funcionar. Nem na saída de bola, com Upamecano, sublime e genial contra o Atlético e tantas outras equipas, tapado, nem na saída rápida para o ataque. O PSG tinha muita bola e pressionava muito bem, homem a homem, bem à frente.

Nagelsmann mudou depois do 2-0 de Di Maria (depois de erro de Gulácsi) e do intervalo, fazendo entrar o caso sério Forsberg. Nagelsmann montou o tal 5-3-2 sem bola que depois se desdobra furiosamente com muitas peças na frente. Esteve mais perto do que foi durante o ano. Mordeu mais à frente, prometeu reduzir, quem sabe, relançar a semifinal, mas não foi isso que aconteceu.

O 3-0 roubou a alma aos estreantes nestas andanças. Aos 56’, quando se preparava para aliviar pela direita, Mukiele escorregou (se houve, o VAR não viu qualquer falta) e Di Maria aproveitou para cruzar para Bernat marcar de cabeça para a baliza, 3-0. Se com a Atalanta as coisas não pareciam estar a bater certo, desta vez os deuses estavam com Paris. Lá está, o futebol dá e tira.

O PSG foi congelando a bola, o Leipzig, que lutava e procurava discutir, ia perdendo a voz. Neymar, claro, estava na rua e continuava a fazer alguns malabarismos. Estava a divertir-se. Afinal, estava no comboio para a segunda final da Liga dos Campeões da sua vida, a primeira na capital francesa, a tal onde prometeu em silêncio discutir o trono de Leo Messi e Cristiano Ronaldo. O 4-0 ainda olhou na esquina, mas preferiu não aparecer. Seria um castigo injusto para Nagelsmann e para os seus.

Como disse Valdo há umas horas a este jornal: “O PSG não é uma equipa de futebol, são astros de cinema. Que porra, 'tá doido, são muitos craques ali”, riu enquanto falava, satisfeito da vida, a imaginar a glória. E foram astros, craques, tudo, todos, com o ego esvaziado ou com o objetivo bem claro na mente de cada um. Este PSG, hoje apurado para a primeira final da Liga dos Campeões, vingou Valdo, Ginola, Raí, Weah e tantos outros, jogando bem, dominando, dando liberdade aos génios do jogo. Esta noite, em Lisboa, em Portugal, mais do que nunca ici c'est paris.

Valdo: "Se aparecer um extraterrestre que não conheça o Neymar, vê-o jogar e diz: 'Esse cara é brasileiro, né?'"

Paris é " <em>magique</em>". Quem o diz à <strong>Tribuna Expresso</strong> é Valdo, que esteve quatro anos a jogar no Parque dos Príncipes, envergando a camisola 10 que Ronaldinho e Neymar herdaram. Colegas como Ginola, que "tinha tudo" e que era bonito o suficiente para merecer um palavrão, Weah e Raí encantavam-no. Trocou cartas com Ruud Gullit e camisolas com Baggio e Boban e perdeu três meias-finais em Paris nos anos 90. Mas desta vez (PSG-Leipzig, esta noite às 20h), diz, vai dar certo