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Liga dos Campeões

Uma final cozinhada por um chef com três estrelas Michelin

O Lyon ainda assustou nos primeiros minutos, mas Serge Gnabry voltou a aparecer para virar o jogo a favor do Bayern Munique, que segue para a final da Liga dos Campeões após vitória por 3-0. O miúdo alemão, que gosta de festejar golos a comer de um imaginário prato, desbloqueou, marcou duas vezes. Mas também voltou a haver muito Thiago e muito Goretzka. A final com o PSG será imprevisível. E ainda bem

Lídia Paralta Gomes

Julian Finney - UEFA/Getty

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Quem não temeu pela vida deste jogo de futebol quando, ainda não havia mais que uns segundos no relógio do Lyon - Bayern Munique, e se viu Denayer a sacudir com toda a força do Mundo uma bola que seguia para a área dos franceses? Será que ia ser isto esta meia-final, o Bayern a pressionar e o Lyon em modo trincheira a defender-se de todas as maneiras, até das mais feias, da blitzkrieg?

Felizmente não. Talvez fosse o momento cavalo de Tróia do Lyon. Porque até ao minuto 18, o Lyon fez com que esta meia-final fosse muito mais do que a formalidade que tantos previam depois daquela maldade que o Bayern fez ao Barcelona aqui há uns dias. Mas foi então que apareceu Serge Gnabry, ele e o seu bigode de malandro, a receber na vertical, a avançar na diagonal e rematar genial para fazer um 1-0 numa altura em que o poste da baliza de Neuer ainda tremia depois de um remate de Ekambi lá do outro lado.

O miúdo alemão, que gosta de festejar golos como se na sua mão estivesse um imaginário prato de uma qualquer iguaria - festejo que roubou a James Harden, o barbudo da NBA, já o revelou -, já tinha sido uma das figuras do 8-2 de sexta-feira e desta vez foi ele que desbloqueou um Bayern que pareceu surpreendido pela rapidez inicial do Lyon que, longe daquela imagem atroz do afastar de bola à trouxe-mouxe de Denayer no primeiro minuto, chegou ao Estádio de Alvalade descomplexado e sabendo exatamente o que valia e onde poderia ferir o Bayern.

Terá faltado aos franceses aguentar mais tempo a sua baliza fora de perigo, fora das gargantas esfomeadas do ataque do Bayern que, mesmo pressionante desde o início, não conseguiu evitar que o Lyon, com bola, criasse sempre algum frisson. O Bayern era, então, uma equipa com pouco controlo. De tal forma que Depay, logo aos 4', aproveitou um incomum erro de Thiago e só não conseguiu contornar Neuer. E aquela bola ao poste, uns quantos minutos depois, era a oportunidade que o Lyon não poderia ter falhado para que a meia-final pudesse, afinal, ter história.

FRANCK FIFE/Getty

Porque falhando Ekambi esse lance, logo apareceu o golo de Gnabry, que foi por ali fora sem pressão. E depois do primeiro golo, o Lyon, pelo menos na 1.ª parte, desapareceu. E com isso o Bayern aumentou a intensidade, sentiu o cheiro a sangue a jorrar. Thiago com a sua bússola nos pés e visão periférica, Goretzka a cavalgar. E à passagem da meia-hora, Gnabry, o chef que trouxe três estrelas Michelin para Lisboa, lançou Perisic, o croata cruzou para Lewandowski, o polaco enrolou-se com a bola, mas não Gnabry, que estava lá para terminar o serviço, para deixar cair na panela aquelas últimas pedrinhas de sal.

Ao intervalo, a meia-final parecia mais ou menos decidida: o baque emocional dos dois golos de Gnabry parecia demasiado para o Lyon, que ninguém sequer esperava ver, a esta hora, ainda na Liga dos Campeões.

Acontece que ao intervalo, talvez já a pensar na final de domingo, o Bayern meteu gelo no cozinhado. Neymar e Mbappé correm muito, Depay e Ekambi já nem tanto, terá pensado Hansi Flick, mas com a entrada de Dembélé o Lyon avivou um pedaço, aproveitando alguma apatia bávara, que por vezes se transformou em algum laxismo, com bolas perdidas e ligações interrompidas.

Aos 56' e aos 58', Marcelo e Ekambi estiveram perto de marcar e Aouar foi uma dor de cabeça, ainda que não com a força de uma enxaqueca. E com as substituições, o Bayern voltou a ganhar frescura para finalmente conseguir aquilo que, na verdade, pareceu sempre o objetivo na 2.ª parte: controlar o jogo com bola.

Para o final ainda estava reservado o golinho da praxe de Lewandowski, bastante atarantado durante todo o jogo, até ao momento em que lhe apareceu uma bola na área à altura perfeita do polaco cabecear.

E assim, o campeão alemão segue para a final da Champions onde vai encontrar o PSG, dois treinadores alemães nos bancos e um talento infinito no ataque e meio-campo. Se do Barcelona e do Lyon o Bayern já saberia mais ou menos com que contar, com os franceses a imprevisibilidade parece bem maior. Para nós, adeptos, pode não ser a final que esperaríamos há uns meses. Mas agora parece quase uma final de sonho.