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Bayern. “Let’s talk about six, baby”

O Bayern Munique, de Hansi Flick, com Lewandowski a tentar bater o recorde de golos no torneio de Cristiano, quer imitar o Liverpool e ganhar a sexta taça europeia

Hugo Tavares da Silva

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Ainda decorria a segunda meia-final da Liga dos Campeões, um jogo já mais do que embrulhado, quando começou a circular, no Twitter, uma fotografia especial para o futebol português: Rabah Madjer, um craque daquele FC Porto de 87, ainda tinha o calcanhar no ar e tentava dar um olho no que acabara de fazer enquanto perto da linha que dita a fronteira entre a glória e o anonimato, a um metro da bola, estava um defesa alemão que naquele momento aprendeu a adivinhar o futuro. Esse senhor era o atual treinador do Bayern Munique. “Trinta e três anos depois do maior taconazo da história do futebol, Hansi Flick volta a uma final da Champions com o Bayern, desta vez como treinador. Boa sorte. Creio que ele e eu fomos os melhores espectadores da obra de arte de Madjer”, escreveu Paulo Futre na mesma rede social.

Aqueles exercícios de adivinhação não ofuscam outro pormenor que intriga naquela fotografia: os calções azuis dos germânicos. Tem tudo a ver com superstição. E com o Brasil de Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Udo Lattek, o treinador alemão que ali vencera as Taças dos Campeões Europeus de 1974 e 1975, regressou ao Bayern oito anos depois, após passagens por Borussia Dortmund, Borussia Mönchengladbach e Barcelona. Aborrecido com o histórico dos jogos na casa do Kaiserslautern, onde não venciam há quase dez anos, Lattek decidiu inventar. “Ele era supersticioso, com as manias dele”, conta ao Expresso Miguel Lourenço Pereira, jornalista e autor do livro “Noites Europeias”. “Era o campo maldito do Bayern na Bundesliga. Ele decidiu usar uma estratégia psicológica para motivar a equipa. Aquilo foi pouco depois do Mundial de 82, e o Brasil estava outra vez na moda, então decidiu falar com a direção para criarem um equipamento especial para jogarem contra o Kaiserslautern, para mudar a mentalidade dos jogadores e assustar os rivais. Era uma réplica do equipamento do Brasil, o Bayern nunca tinha jogado com essas cores na vida.” Jean-Marie Pfaff defendeu um penálti e Klaus Augenthaler teve felicidade num remate que deu golo. Na final de Viena, contra o FCP, Lattek optou por algo semelhante, talvez porque cinco anos antes, em Roterdão, aquela equipa havia perdido a final da Taça dos Campeões Europeus contra o Aston Villa. Desta vez, porventura menos pessimistas e temerosos, os germânicos optaram por recorrer apenas aos calções azuis, mantendo a camisola da farda oficial. Foi em vão. Madjer e Juary foram como Paolo Rossi.

MARTIN MEISSNER

O divino, desta vez, não deverá ser convocado. O Bayern de Flick venceu todos os jogos desta edição da Liga dos Campeões. O alemão, que sucedeu a Kovac em novembro e que foi adjunto da seleção nacional entre 2007 e 2014, é o grande obreiro das noites descansadas e mais estreladas na Baviera. “Não dá para menosprezar o papel do treinador”, explica Tomás da Cunha, comentador da Eleven Sports. “São os mesmos jogadores que começaram a época. Com a entrada de Flick, temos um Bayern à Bayern, com várias transformações, desde logo Alaba, que passou para central, algo que já acontecia nos tempos de Pep Guardiola. É um conjunto que soube aproveitar as peças de uma outra forma. Tem uma capacidade de construção notável, quase sem paralelo no futebol mundial, com Neuer, Pavard, Kimmich, Alaba, Alphonso Davies em condução e depois os dois médios, Kimmiche e Thiago, e o próprio Goretzka, não no mesmo nível mas com outras características.” Daí para a frente, garante, é o tal Bayern que respeita o passado: “Tem extremos muito velozes e agressivos, sobretudo Gnabry, um avançado que joga a partir da ala e que ataca muito zonas de finalização. Tem sido decisivo. Müller é um jogador inteligentíssimo sem bola e que se destaca nas assistências. E, claro, Lewandowski: está há nove jogos consecutivos a marcar na Liga dos Campeões e é também uma das figuras da temporada.” O avançado polaco já marcou 55 golos esta época, 15 deles nesta prova, o que significa que está apenas a dois golos do recorde de Cristiano Ronaldo (2013/14).

O Bayern, apesar daquele tradicional estatuto de gigante quase intocável, viveu alguns traumas nesta longa história europeia. O pior terá sido mesmo aquela final em Barcelona, quando o Manchester United virou depois da hora. Contas feitas, foram 10 finais de Taça e Liga dos Campeões Europeus: o Bayern ganhou cinco e perdeu outras cinco, uma delas em penáltis (vs. Chelsea), em Munique. Só Real Madrid (13), Milan (7) e Liverpool (6) têm mais Champions.