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Liga dos Campeões

No final ganharam os adultos

Não foi o melhor dos jogos destas duas semanas de Champions em Lisboa, mas a final da Liga dos Campeões foi, de certa maneira, paradigmática: uma equipa mais experiente, habituada a isto das finais, a ser mais inteligente, mais coesa, a quem bastou apenas uma jogada perfeita, e outra equipa a ceder ao momento, a tentar a magia quando a magia teimava em não aparecer. O Bayern venceu o PSG por 1-0, graças ao cérebro de Thiago, Kimmich e Muller e a um muro chamado Neuer. E os franceses vão seguramente aprender com a dor

Lídia Paralta Gomes

JOSE SENA GOULAO/Lusa

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É possível que nos tenhamos todos apaixonado por isto do futebol por causa dos pontapés de bicicleta, dos elásticos, das cuecas - da magia, portanto. Que se tenha contado, assim a olho nu, nesta final da Champions houve um par de fintas bem malandras e um túnel delicioso, tudo de jogadores do Paris Saint-Germain. Mas no final, quem ganhou foi o Bayern Munique. Por 1-0, aquele resultado q.b. Porque nas finais, geralmente ganham os adultos, principalmente quando a magia não é mais que uns daqueles fogachos que saem das mãos dos ilusionistas em início de carreira.

Esta noite, na Luz, o PSG não foi o David Copperfield, nem o David Blaine - e chegou a sê-lo aqui e ali nestas duas semanas em Lisboa - e talvez só sendo um desses dava para ganhar a uma equipa absurdamente inteligente, madura, que sai desta Champions com 11 vitórias em 11 jogos, mesmo que a final até tenha estado longe de ser a melhor dessas vitórias. Mas quando foi preciso ser mais simples e arguto, o Bayern teve Thiago e Kimmich e Muller e um muro chamado Neuer, como que regressado aos seus anos de ouro - ou talvez a mostrar-nos que os seus anos de ouro ainda não passaram. E o PSG teve um túnel, umas fintas e dois falhanços na cara da baliza.

Talvez o processo de maturação do PSG ainda se esteja a fazer, chegar a uma final é só isso mesmo, chegar a uma final, o Bayern Munique tem um ror delas e em Lisboa ganhou a 6.ª taça e aqui está também a diferença. Neymar sabe o que é ganhar uma Champions, mas nunca como líder, Mbappé é extraordinário, mas um menino. E na segunda parte, quando Hansi Flick tirou Gnabry, tinha Coutinho no banco, quando saiu Coman, o jóquer da partida, estava lá Perisic para entrar, enquanto Tuchel tinha Choupo-Moting para render Di María, talvez o melhor do PSG esta noite em Lisboa. Poderá lá chegar um dia, este PSG, mas o Bayern Munique chegou a Portugal em modo máquina, com todos os cérebros a trabalhar para o mesmo, para ganhar, e ganhar da forma mais simples mas psicopata - porque aquilo contra o Barcelona parecia de serial killer metódico e não de alguém que apenas quer fazer uma feriditas no adversário.

JOSE SENA GOULAO/EPA

O único golo desta final, mais bem jogada na 1.ª parte do que após o intervalo, apareceu, lá está, numa das piores fases do jogo: no arranque da 2.ª parte, um arranque duro, faltoso, em que o futebol parecia esquecido até o Bayern sacar da mais fria e eficaz das jogadas. Sempre com Thiago, alfa e ómega desta equipa, a conduzir, a bola seguiu para Kimmich, depois para Gnabry, que de primeira deu para a área para Muller que, vendo Kimmich na quina sem oposição ainda antes de receber a bola, deu também de primeira para o colega, fazendo o quadro elétrico do PSG faiscar. Kimmich, com espaço, teve tempo para receber, olhar para a área e tomar a melhor decisão. E a melhor decisão chamava-se Coman, no segundo poste, livre.

Antes disso, na 1.ª parte, o Bayern tinha sido a equipa mais controladora, com a sua intensa pressão alta, mas falhou incontáveis passes, bem longe da afinação de outros jogos. As oportunidades acabaram por se repartir.

Aos 18’, Neuer teve o seu primeiro momento, a salvar por duas vezes remates de Neymar na área e aos 23’, já depois de Lewandowski rematar ao poste, Di María atirou por cima após uma combinação com Herrera. À meia-hora de jogo, Lewandowski voltou a estar perto, com Navas a defender o cabeceamento do polaco por instinto e aos 45’, um erro de Alaba, a entregar na área ao Mbappé, só não deu golo porque o francês rematou fraco.

E depois de desigualado o marcador, numa jogada perfeita entre as muitas imperfeitas que o Bayern teve (mas basta uma, certo?) viu-se quem era o adulto na mesa. Começou o abuso de iniciativas individuais no Paris Saint-Germain, com Neymar a forçar uma magia que não estava a aparecer. E quando os franceses chegaram à baliza, estava lá Neuer, que aos 70’ salvou mais uma vez os bávaros, a esticar a perna até ao humanamente impossível para um bisonte de 1,90m, a tornar-se ainda mais gigante para parar um remate de Marquinhos na área.

JOSE SENA GOULAO/EPA

No final, o Bayern agarrou-se à vitória da forma mais operária possível, Muller de meias para baixo, um chuto para a frente quando foi necessário, até ao último apito era guerra e o Bayern era o mais duro, foi o mais duro, porque sabe muito bem o que é isto de estar em finais e ganhá-las e perdê-las, esteve em onze e ganhou seis, é um bom número mas também houve aí muita dor a enrijar o espírito dos bávaros.

O PSG lá chegará. Tem talento, parece ter uma base. Falta-lhe talvez isso, a experiência de perder, algo que não lhe acontece muito dentro de portas. Esta noite, foi uma criança, à espera de resolver tudo com uma traquinice. E tal como grande parte das crianças, vai aprender com as quedas.