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PSG. Esse ‘cara’ quer a Champions

O clube que precisou de mais jogos para chegar à final vai tentar aproveitar o espaço que a valentia do Bayern vai oferecer através do talento de Neymar e da velocidade de Mbappé

Hugo Tavares da Silva

Aurelien Meunier - PSG

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Se o sentimento no futebol fosse gente como a gente, estaria apto a participar naquele circo da canção de Jorge Ben Jor. Por ali há o macaco cientista, o urubu que toca flauta e violão, a cabra ciclista, uma orquestra de sapos, o leão sem dente, o palhaço Tereré e a grande atração, a grande vidente que tudo sabe, que tudo vê, que tudo sente, a internacional Deise, a mulher do homem que come raio laser. Não está claro que Deise tenha magicado a época do PSG. O primeiro jogo de Neymar, em setembro, teve assobios, dedos do meio e tarjas a prometer desamor eterno. O brasileiro respondeu a jogar: pontapé de bicicleta com a canhota, já depois da hora, garantindo a vitória contra o Estrasburgo. E o povo, agradecido, curvou-se. Senhoras e senhores, chegado de Paris, o contorcionista que está e não está e que chora quando ouve samba, o sentimento no futebol.

Neymar é o brasileiro mais brasileiro que há. É a rua, a malandrice, a picardia e a genialidade. Digam o que disseram sobre ele, tal como se dizia de Maradona (o tal “deus sujo” para Galeano), é um dos puros, com debilidades humanas como nós. Pecador e redentor. Demonstra que a liderança está muitas vezes na qualidade, na coragem para pegar na bola e inventar, sem lhe tremer o pé. E sai beneficiado por jogar no corredor central, livre, multiplicando as soluções e caminhos. À Tribuna Expresso, Valdo, antigo futebolista do PSG que esteve na meia-final há 25 anos e que também passou pelo Benfica, explicou: “É um dos últimos talentos puros, sem agrotóxicos, sem nada, do futebol brasileiro. É o que tem o maior improviso, é o que é mais leve, é o que cativa mais. É aquele jogador que não é forte, mas que também não é fraco. É o estereótipo do jogador brasileiro. Se aparecer um extraterrestre que não conheça o Neymar, vê-o jogar e diz: ‘Esse cara é brasileiro, né?’ Com certeza, não tem como enganar. O toque de bola do Neymar é o Brasil da velha escola, da boa escola.”

A saída do Barcelona, há três anos, começa finalmente a fazer mais sentido. Lá está, também o futebol e os clubes são grandes contorcionistas. O Barça está hoje virado do avesso, estando em causa até a continuidade de Messi, e é um ponto de interrogação. O PSG de Thomas Tuchel, ao contrário, parece ter dado com a tecla. “É de destacar a solidariedade coletiva e a vontade”, analisa Tomás da Cunha, comentador da Eleven Sports. “Frente ao Leipzig, houve de facto esse trabalho coletivo, quer dos avançados a defender, quer dos defesas a construir. Tuchel conseguiu finalmente formar um todo e por isso o PSG teve condições para chegar a esta final. Mesmo Neymar, não sendo um jogador muito agressivo, também teve esse papel importante para condicionar o médio defensivo do Leipzig. Todos defendem, todos atacam.” Kylian Mbappé, um rapaz de 21 anos que já ganhou um Campeonato do Mundo, confirmou-o depois da meia-final: “Conseguimos criar um grupo. Fazemos coisas juntos fora do campo. É mais fácil correr ou sacrificarmo-nos por um colega quando gostas dele. É assim no futebol e em qualquer trabalho.”

David Ramos

O 41º clube a chegar à final da competição do hino que provoca pele de galinha a tanta gente é o que precisou de mais jogos para o fazer (110), ultrapassando os 90 do Arsenal. Em caso de vitória, os parisienses serão os primeiros estreantes a ganhar o torneio desde o Chelsea, em 2012, com Roberto Di Matteo. Só uma equipa francesa conquistou a prova, o Marselha, em 1993, conseguindo o que não conseguiram Reims (1956, 1959), Saint-Étienne (1976) e Mónaco (2004).

Voltando a Neymar, Tomás da Cunha recorda que o brasileiro falhou encontros importantes no passado. “Não esteve quando o PSG foi eliminado pelo United e pelo Real Madrid. A simples presença já transporta a equipa para outro patamar de confiança, sobretudo na Champions, que tem uma dimensão mental sempre muito importante. Desta vez, Neymar pôde estar e tem feito toda a diferença. Não tanto na finalização, onde até tem pecado um pouco, mas pela criatividade, pela forma como atrai e dá espaço para outros. Assume o peso ofensivo da equipa e é um jogador sem paralelo no futebol mundial, praticamente.”

E o que imaginar do jogo dos franceses? “O PSG tem, talvez, a principal arma do futebol para atacar espaços e correr: Mbappé, quando é lançado por Neymar. Vamos ver de que lado vai jogar Mbappé, provavelmente do lado esquerdo, em cima de Pavard ou Kimmich, com Neymar novamente como falso 9.” O PSG marca há 34 jogos consecutivos nesta competição, igualando o recorde estabelecido pelo Real Madrid em 2011-2014. Afinal, Neymar, Mbappé e Di María são o “trio maravilha”, ainda por cima quando parecem estar divertidos. Pressionando à frente, a manta do Bayern pode ficar curta para esta rapaziada explorar.