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Liga dos Campeões

São as águas trabalhadas, não as passadas, que movem o FC Porto

O FC Porto venceu o Olympiacos por 2-0, marcou um golo a abrir e outro a fechar, pelo meio sofreu um pouco com cruzamentos e ataques por fora, mas acabou como começou: a ser mais equipa, a saber controlar as operações e a mostrar que coisas já feitas valem para o jogo ficar mais a jeito. Foi a primeira vitória da equipa de Sérgio Conceição, esta época, na Liga dos Campeões

Diogo Pombo

Jose Manuel Alvarez/Quality Sport Images/Getty Images

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A pergunta era específica pela especificidade do microfone perguntador, do público à espera da resposta, do sotaque da questão e do jogador em causa, Felipe Anderson, brasileiro de bagagem reputada, a quem Sérgio Conceição se apressou a tirar a mochila do passado, “tudo o que passou já não interessa, fica lá em casa no museu”, disse ele para o "Esporte Interativo", creio que com palavras poucas para a carga subliminar que guardavam. As coisas não ditas, mas que se dizem.

O que importa é o agora e não o feito até aqui noutros lados, o trabalho passado não equivale a regalias no presente e o futuro, quis treinador explicar, depende do lavor do agora. Aplicando o mandamento a Fábio Vieira, o trabalho recente do maior caçula canhoto do FC Porto nos treinos que não vemos será brutal, é-o certamente. Porque mais do que o quarto jogo seguido a titular, serem as suas ideias e a sua execução delas a estarem sempre perto de onde está a bola quererá dizer alguma coisa.

O centro do jogo da equipa é o ponto central onde joga Fábio Vieira, ele a aproximar-se de Uribe ou Otávio, eles a tocarem-lhe a bola sem demoras, o miúdo que a tenha de frente para o campo do Olympiacos, passivo a defender-se na sua metade de hectare, e que as posses do FC Porto se ordenem no seu pé esquerdo. Para ter esta centralidade do ainda no outro dia adolescente, outro apagamento do que outro jogador era até aqui teve, também, de ser feito - ou, pelo menos, adaptado.

Do 6 ou 8 que é, por norma, Sérgio Oliveira passou a ser sombra de Marega, não tanto um 10, nem um 9,5, mais um deambulador nas barbas dos médios e nas costas do avançado, pedindo bola onde buracos de espaço havia. Para isto não há número, há inteligência e esperteza, também as teve quando se juntou ao maliano e ao mexicano Corona para pressionarem a três a saída de um pontapé de baliza e ser ele o ladrão da bola com que Bouchalakis se atrapalhou.

O cabeludo disfarçado roubou, acelerou, cruzou a bola rasteira e um corte fê-la sobrar para ser a chegada de Fábio Vieira a rematar o 1-0. Havia 11 minutos e até aos últimos cinco antes do descanso o jogo foi do FC Porto, muito mais sabedor e paciente a fazer correr as linhas que os gregos montavam em bloco médio, mas cheias de metros entre elas. Os adversários estavam afastados uns dos outros, chegavam tarde às receções portistas e a equipa de Conceição manobrava a bola até lhe faltar acerto no último passe de jogadas feitas com calma.

Porque, fazendo-as com vertigem, teve várias chegadas à área em três, quatro passes, sobretudo após cantos do Olympiacos que a defesa à zona do FC Porto se livrava e os posicionamentos dos seus jogadores recolhiam. Logo partiam nas autoestradas de espaço que a transição grega - lenta, desorganizada e sem superioridades numéricas - lhes deixava.

Os gregos reagiram, tarde mas reagiram, pressionaram metros à frente, lograram ter cruzamentos de jogada corrida e as abordagens faliram aí, onde centrais nem sempre tiveram alguém pronto para atacar segundas bolas. Uma delas até veio de Marchesín, foi parar a Valbuena e o chapéu do francês só foi cortado quase em cima da linha pelo salvador Mbemba.

Jose Manuel Alvarez/Quality Sport Images/Getty Images

O jogado na primeira parte foi o esquecido na segunda, virou mausoléu para o passado apreciar e o Olympiacos manteve-se subido no campo, sem bola, para tirar tempo aos centrais portistas e obrigá-los a decidirem rápido, a optarem por algo sem verem todas as opções disponíveis. E o FC Porto recuou, sofrendo antes de se organizar num recuo planeado em vez de aparentemente forçado.

Marchesín ainda teve de parar um remate que Randjelovic bateu de primeira, na área, caído de um cruzamento caído nas imediações de Zaidu, mais um cruzamento vindo de pés pressionados com atraso. Os jogadores do FC Porto demoravam a incomodar quem estava em posição de depositar bolas na área, a equipa sofreu com isso e a maleita intensificou-se quando Fortounis.

O capitão grego saiu do assento, os gregos ganharam as suas conduções poderosas com bola, a bater linhas e fazer mexer jogadores, além de cruzamentos teve que ocupar a frente da área, havia que evitar que a genica de Fortounis culminasse em remates e o FC Porto mais encolhido ficou até aos 75’, quando mais trocas vieram do banco. Grujic e Evanilson entraram, Nakajima já tinha entrado, a equipa abasteceu o centro do campo com homens e encurtou as jogadas do Olympiacos.

Não mais os gregos jogaram à vontade para lá da linha do meio-campo, continuaram a tentar avançar muito por fora, a queda pelo exterior e a fuga ao interior fechado, é verdade que Marchesín ainda se lançou aos pés de Hassan para evitar um golo, mas foi no fim de uma transição e não fruto de uma tentativa continuada - que deixaram de ter ligação.

O FC Porto acabou como começara, todo um compacto de organização e linhas próximas, Nakajima a tricotar quando as coisas chegam à proa de 30 metros do campo, o critério de Grujic a cimentar o que Uribe já dava e o jogo a reaver o que tinha de portista: acabou com o japonês a esperar por uma corrida de Marega entre central e lateral, o passe saiu, o maliano cruzou e a cabeça de Sérgio Oliveira a fechar a vitória no 2-0.

Foi o segundo golo do português, esta época, feito com o cocuruto (depois do Braga, na 1.ª jornada do campeonato), já ele tinha revertido ao que tanto mostrara e onde tanto trabalhara, no meio do meio-campo a ordenar tudo, no lugar onde se passou tudo o que já fez no FC Porto. Em sítios mais cercanos do magro e calvo ostentador de grandeza pelo que joga, mas claro que também pelo que representa, porque Pepe cumpriu o 100.º jogo na Liga dos Campeões e águas passadas destas, se forem deste tipo de feitos passados, desaguam sempre no presente.

O FC Porto ganhou porque se organizou e foi mais equipa, vencer tem quase sempre algo a ver com isso, com a bagagem treinada, aprimorada e acumulada por todos, não com o treino, o primor ou o cúmulo que cada um fez, noutras vidas de futebolista e eis o subliminar dito por Sérgio Conceição e confirmado por Fábio Vieira, no final, intencionado de o fazer, ou não: “tenho trabalhado no máximo das minhas capacidades e fruto da minha qualidade tenho conseguido chegar cá”.