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Liga dos Campeões

O FC Porto testou positivo ao velho Coronavírus

Este não é microscópico e pandémico, mas sim mexicano, criativo, cheio de técnica e quase sempre dono de decisões bem tomadas. Jesús Corona provocou um penálti, fez duas assistências e gerou quase tudo o que de bom o FC Porto fez para ganhar (3-0) ao Marselha por números que poderiam ter sido mais gordos. Foi a segunda vitória da equipa nesta Liga dos Campeões

Diogo Pombo

CARLOS COSTA/Getty

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Escrever “não é todos os dias” soa a elogioso e, ainda por cima, seria um elogio gratuito, mais barato sairia pagar para assistir a uma preguiça a trepar uma árvore à pressa, talvez chegue primeiro o dia em que vejamos o mamífero do metabolismo mais lento que há a dar corda a si mesmo e a ser rápido, do que ouvirmos outro treinador dizer que votou no presidente do clube que vai defrontar.

Os amores são assim, transparentes e assumidos perante tudo, André é do Porto e o mundo sabe-o portista, está-lhe entranhado e a pressa em decalcar esse amor não foi sua, mas de quem lhe perguntou pelo FC Porto farejando as respostas que dele viriam, como o “julgo que não vou festejar” se acontecesse o Marselha marcar no Estádio do Dragão e não o que logo se viu, apressadamente.

O clube que mexe no coração de Villas-Boas entrou pressionante, com as linhas subidas, a querer ter trocas de bola em cima da área francesa e uma das primeiras deixou Corona a dar um passe rasteiro para Marega, sortudo o mexicano por recolher um ressalto depois de tentar driblar um adversário, aliviado o maliano pelo 1-0 e por voltar a marcar na Liga dos Campeões, sete jogos depois.

E o FC Porto confortou-se porque o golo apressado permitia-lhe não ter pressa, mas quis tê-la para um certo momento. Na saída de bola da baliza, a equipa construía com os centrais ao lado de Marchesín, os laterais em apoio, também perto da área, para trocar uns três, quatro passes para os lados, atrair a pressão em que o Marselha de bom grado caía três e, depois, jogar rápido e direto na frente onde tinha armadilha montada: tantos atacantes quanto defensores.

Apostar na igualdade dos números perante a última linha do Marselha e - caso a posse não ficasse deles - na reação forte à segunda bola davam muitas jogadas ao FC Porto perto da baliza francesa. O sumo espremido no copo, porém, era pouco, os portistas marcaram no primeiro remate e fariam o 2-0 com o segundo, um penálti de Sérgio Oliveira que surgiu após o falhado por Dimitri Payet, sim, esse Payet, um Payet mais anafado e encaracolado no cabelo do que o Payet recordado já vezes suficientes de outro jogo, daquele jogo.

Nele o Marselha confiava, não tanto como no desaparecido Benedetto ou o dínamo canhoto Thauvin, que foi derrubado pelo pouco maduro Sarr e dos poucos que tentou inventar alguma coisa à tabela, à triangulação, no marasmo marselhês que nunca foi capaz de sequer beliscar as linhas bem juntos do bloco médio, montado em campo próprio, do FC Porto.

A pressa virou coisa deles na segunda parte, quando a Marega e Luis Díaz se juntou Otávio para pressionarem que nem loucos os centrais do Marselha, eram dois na área e outro (Kamara) uns metros por diante, a jogar como trinco, contra quem os frequentes berros de Sérgio Conceição os ordenavam.

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A equipa tentou aniquilar, logo lá atrás, as esperanças com bola dos franceses. Tentou apressar-se nessa pressão e pouco depois de contada uma hora essa atitude murchou, os jogadores movem-se a energia e ela é esgotável, de novo o FC Porto recuou as linhas, compactou-se e nem por isso foi molestado pelo adversário.

Lentas, sem ideias e limitadas quase sempre ao passe mais previsível eram as posses de bola do Marselha, que nunca levou jogadas até Benedetto e tinha os médios nos bolsos figurados de Otávio, Uribe e Sérgio Oliveira. Os três prosperavam sempre que o FC Porto evadia a pressão gaulesa por fora e pelos laterais, para os deixar com bola e virados para o campo aberto pela apatia dos adversários.

Nessa apatia e nas crateras de espaço deixadas pelo Marselha após um cruzamento banal para a área, ou uma perda de bola facilitada, aparecia sempre, mais cedo ou mais tarde, Jesús Corona.

O mexicano já não é só um extremo das fintas e simulações-mil, a passar uma perna além bola para fugir pelo lado contrário ou a rodopiar com ele as dúvidas de quem lhe quer roubar a bola. De ficar colado à linha e que arranjem forma de lhe fazer chegar a bola. Corona hoje joga onde a bola estiver, é um dínamo criativo que faz mexer a equipa depois de ela se mexer pelos dois primeiros terços do campo e depois precisar de alguém para lhe dar outra coisa.

Essa algo mais costuma vir dos jogadores que melhores ideias têm e melhor as são capaz de executar, não dos que apenas mais técnica têm. Corona já foi muito destes e agora, mas agora é dos geniais a pensar e a executar. Viu-se na jogada em que, ao fim de 30 metros de corrida, fixou três adversários para libertar um passe em Luis Díaz, que fez o 3-0, e escancarado ficou em muitos outros momentos. Deu bolas a marcar aos outros e ele próprio poderia ter marcado.

Muita pincelada técnica houve de Corona entre a pressão, organização e solidez do FC Porto sempre superior ao Marselha, que Villas-Boas montou sem rasgo (não teve um remate na baliza), sem condições para inventar coisas com bola e que, por isso, vai só com derrotas na Liga dos Campeões.

O FC Porto conseguiu a segunda, fica com seis pontos e o devido segundo lugar no grupo, acabou com o simbolismo de Fábio Vieira, o miúdo crescido no clube, a capitão, e logrou que a derrota em Paços de Ferreira um foco de contágio para ser infetado pelo que se viu neste 3-0 - o velho (e técnico, e decisivo e genial) Coronavírus.