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Será que estivemos demasiado distraídos para desfrutar dos melhores jogadores de uma era?

No fim do Barcelona-Juventus estavam 1.464 golos entre Ronaldo e Messi e pode ter sido a última ocasião em que os polarizados e antagonizados melhores jogadores de uma era coincidiram em campo. Pode ter sido a derradeira oportunidade para os desfrutarmos em vez de os colocarmos um contra o outro

Diogo Pombo

JOSEP LAGO/Getty

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O abraço, aquele abraço. O mundo dicotómico atentou ao afável gesto de fraternidade como se estivéssemos a assistir ao principal candidato a eleição de momento estranho do ano, até da década, quiçá do século, se é para exagerar vamos exacerbá-lo ao máximo: ainda a bola não tinha sido tocada e ei-los a sorrirem um para o outro, passou-bem, braços mútuos nas costas, agora vamos lá jogar.

O Barcelona-Juventus há muito que deixara de o ser, a sua relevância encolhera, dois clubes e duas equipas a serem menorizados pelos dois indivíduos mais polarizantes que há no futebol porque, de fora para dentro, também desde 2000 e troca o passo que são polarizados. Cristiano a ser Ronaldo de um lado por estar contra Lionel e este a ser Messi para se sobrepor ao inimigo.

Essa última palavra foi o combustível de uma narrativa que durante anos se alinhou com as pretensões de televisões e audiências, marcas e lucros, entidades e competições, marketings e interesses.

Com toda uma suposta animosidade entre um português e um argentino que, antes dessa linha condutora, já lhes estava na cara que seria uma questão de tempo até assentarem como os dois inquestionáveis melhores futebolistas do mundo durante toda uma era.

Tempo que passou num instante, o ápice que foi vê-los a armazenarem 1.464 golos em conjunto, repetindo, são mil e quatrocentos e sessenta e quatro bolas que acabaram dentro de balizas por causa deles e não porque se tinham como inimigos. Os últimos dois surgiram na terça-feira, ambos do pé direito de Ronaldo que bateu um par de penáltis e ficou com 752 na carreira perante os 712 de Messi.

E lá vieram as manchetes e os títulos e as piadas de arraso, as proclamações de uma batalha ganha por uma figura e perdida por outra. Que a houve, de facto: entre a ainda soluçante equipa da Juventus, embora estável como clube, que venceu por 0-3 na casa do caótico clube que é o Barcelona, representado por uma equipa desorganizada, amorfa e letárgica.

Porque a tal narrativa tem dores de envelhecimento, o resultado e o jogo caíram no resumo de Cristiano a sobrepor-se a Lionel e a causa talvez até nem sejam essas dores, mas sim o prenúncio de um fim. Por uma velhice vir a ser trocada pela nova infância que terá de lhe suceder - um futebol sem um e outro.

Puxem as marcas por quem lhes apetecer, polarize-se um par distinto de jogadores que já estejam a pontapear bolas por aí, Ronaldo e Messi são irrepetíveis e insubstituíveis como sempre se soube, mas uma das coisas temerárias é o facto de em campo, durante os 90 minutos em que todo o ruído que sempre os rodeou se tornava inaudível, eles sempre jogaram e renderam como ninguém.

DeFodi Images

A trigésima sexta vez que coincidiram aconteceu neste Barca-Juve. Não se defrontavam há quase dois anos e meio. Insuportável já se estava a tornar a ressaca de quem é humano e os vê bem dentro dos trinta, cada vez mais humanizados, ainda a serem brilhantes, embora um brilho com nuances de fusco, mesmo que os 35 de Ronaldo e os 33 de Messi parecem apanhar desprevenida qualquer memória que se esqueça das suas idades e tenha de perguntar quantos anos existem neles.

Mesmo mais parcimonioso nos metros de relva que percorre e com energia focada na área, o português mantém a absurda habilidade de precisar de poucos segundos, toques e espaço para se deixar a jeito de finalizar todas as jogadas que exige que acabem em si, pelo quão bem se move e posiciona.

E no depósito do argentino estão menos raides, arrancadas e esquivanças incríveis a desarmes, apesar de ninguém, ou só uns quantos pouquíssimos (Neymar? De Bruyne?), serem capazes de gerar coisas e jogadas do nada, sem importar o estado em que a sua equipa esteja num jogo.

Mas o Barça, como se viu, é a decadência futebolística em ação e Messi está a ser engolido pelas circunstâncias, a sua linguagem corporal fala o idioma do desânimo e aí está o contraste atual com Ronaldo, personificação do trabalho fora de horas e do vício em se superar numa Juventus enferrujada, à medida que essa fasquia própria vai sendo baixada - em ambos - porque a idade, o corpo e a genética não se mantêm no topo para sempre.

O melhor de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi ficou algures lá atrás, o facto de ambos ainda serem incríveis e superiores a quase todo um mundo de indivíduos que são seus semelhantes na profissão pode toldar essa evidência, mas eles estão a acabar. O fim do português e do argentino ainda poderá estar distante, só que ambos, mesmo que vagarosamente, já estão a descer a montanha.

Ao abraço inicial seguiu-se outro a acabar. Lionel recolheu ao buraco negro de clube que o está a absorver, Cristiano seguiu para o balneário da equipa onde se continua a superiorizar a qualquer contexto e, que se façam figas, que se bata em madeira, pode ter sido o último vislumbre de um jogo entre os dois.

No final, Ronaldo respondeu ao que seria inevitável perguntarem-lhe e mais do que cavalheiresco, foi verdadeiro. Disse “nunca” ter visto Messi “como um rival” e para ele tudo foi sempre “um grande privilégio”. Uma honra que não é mentira assumir que muito terá puxado por ambos ao longo dos anos, fê-los superarem-se mais ainda e deu-lhes aquela qualquer coisa que não se explica: de um magnífico jogador se continuar a engrandecer, como não se pensava ser possível, por haver alguém igualmente esplêndido a quem possa medir-se.

Eles abraçaram-se e até uma próxima, se a houver. Ronaldo e Messi não são um só, não foram Cristionel Messaldo. Juntos, contudo, representaram um fenómeno que não seria surpreendente jamais ser revisto no futebol. E talvez tenhamos estado demasiado distraídos para os desfrutar durante todo este tempo.