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Liga dos Campeões

Uma ode à valentia

FC Porto eliminou a Juventus, em Itália, apesar de perder por 3-2 na segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões. Marchesín, Pepe, Mbemba e Sérgio Oliveira do lado português, Chiesa e Cuadrado dos italianos, foram as figuras do jogo que perdurará na lembrança

Hugo Tavares da Silva

Valerio Pennicino

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Há qualquer coisa na dignidade dos corpos sovados que se arrastam. Como um pugilista, castigado, que se aguenta de pé a cada golpe e que tenta responder. Ou o maratonista que, em sofrimento, nunca deixa de meter um pé à frente do outro porque aquela história só acaba no fim, independentemente da grandeza do feito que está por celebrar ou lamentar. No futebol, uma atividade que mistura arte e resistência, as coisas são ainda mais complicadas. Há decisões para tomar, vozes na cabeça, erros em cada esquina e oportunidades para repetir a valentia. Há o medo que morde a coragem… e vice-versa. E depois há o divino: que um jogador como Sérgio Oliveira, aparentemente esgotado, não pare de correr, defina bem, jogue com qualidade de primeira, que tenha a malandrice para sacar uma cueca perto do final, ganhando uma falta, um livre; que ele o bata e seja feliz, e que leve para outra realidade distante uma equipa de gente que vê o futebol da mesma maneira e que parecia poder correr até amanhã de manhã… é um dos lados bonitos do futebol.

O FC Porto foi a Turim eliminar a Juventus de Cristiano Ronaldo, ajustando contas com aquele FCP especial de 16 de maio de 84, na primeira final europeia dos azuis, em que se viu um carrossel que girava à conta de Frasco, António Sousa e Jaime Pacheco. Platini e companhia até ganharam, mas quando Frasco, com um bigode impecável e um dom especial dentro das botas, se encaminhou para o controlo antidoping e se enganou no balneário, entrando no da Juventus, recebeu uma ovação. Esta noite, nesta senhora noite europeia, à antiga se quiserem os nostálgicos mesmo que não se tenha jogado às 19h45, a ovação ecoou na alma dos adeptos e no sangue daqueles futebolistas que foram melhores do que o rival enquanto puderam e que aguentaram quando tiveram de aguentar. Foi épico.

Os portugueses traziam do Estádio do Dragão uma vitória por 2-1, daquelas traiçoeiras que poderiam alimentar o medo contra a coragem. Mas Sérgio Conceição não foi nessa cantiga e voltou a dar o sinal de que não ia a Turim para sofrer, aguentar e logo se vê. Ia jogar para superar o colosso italiano e ia condicioná-lo, e foi o que aconteceu até ao intervalo, sobretudo graças à segurança defensiva de Marchesín, Pepe e Mbemba, mas também pela qualidade e acerto nas saídas para o ataque, nos pés do virtuoso Corona e do cerebral Otávio, ou na referência Taremi, mas sempre com Sérgio Oliveira como farol.

A Juventus até entrou bem, mas cedo se percebeu que só queria cruzar bolas para a área, esquecendo que é por dentro que se desmontam adversários. Arthur trouxe outra qualidade na gestão da bola, melhorou o meio-campo, mas o desfecho era invariável: bola em Alex Sandro ou Cuadrado e cruzamento. O FCP, com cinco e às vezes seis jogadores na linha defensiva, anulou a largura e fechou essa torneira, apeando o jogo italiano. Na frente estavam Morata e Cristiano Ronaldo, pelo que não choca que a opção tenha sido essa, surpreende mais, sim, que haja pouca variação nas opções.

O golo dos visitantes chegou cedo, depois de um penálti sofrido por Taremi: Sérgio Oliveira assumiu e fez o 1-0. O golo sacudiu os homens da casa, pareciam perdidos, sendo que o FCP estava exatamente no canto oposto, como o pugilista confiante, sereno, que sabe quando quer bater. A bola não queimava, era amiga dos rapazes do Porto.

Valerio Pennicino

Depois do intervalo, com três golos para marcar se quisesse alterar o rumo desta eliminatória, a Juve mostrou que é uma equipa importante, entrando bem, deixando o FCP aqui e ali desnorteado. Uma bola picada para a área portuguesa encontrou o pé de Cristiano, sobrando depois para Federico Chiesa, que com uma frieza exemplar meteu a bola quase, quase no ângulo da baliza de Marchesín. Há um vídeo maravilhoso deste jovem italiano, no verão de 2000, quando Gabriel Omar Batistuta abandona a Fiorentina onde jogava o seu pai, Enrico, que lhe pergunta então quem iria marcar os golos da equipa de Florença. O pequenote Federico disse “eu”. Tantos anos depois, e mesmo partilhando ataque com o melhor marcador da história da Champions, começa a ganhar notoriedade numa super equipa como a Juventus, é decisivo. Chiesa, potente e arrojado, vai a todas e parece ter sempre capacidade para mudar um jogo de futebol.

Aos 54’, Taremi viu o segundo amarelo, por um chutão fora de tempo, e deixou os colegas desamparados. “Is this Champions League? Is this Champions League, yes? Fuck off…”, disse o frustrado iraniano ao quarto árbitro. Os colegas, sem tempo para desaforos, organizaram-se, deixando para depois os calduços que se adivinham. Seria demasiado tempo com 10. Será possível aguentar? Como? E começou ali outro jogo, de sacrifício, com menos qualidade com bola, a possível, com os pulmões mais castigados, com os músculos a implorar por absolvição.

Plim!, bola no poste, Chiesa outra vez, foi Pepe quem evitou males maiores. O defesa português, com 38 anos e um sobrolho aberto, ia já enchendo o campo e, de cadeirinha muitas vezes, ia ganhando todos os duelos que lhe metiam à frente. Pelo ar, chão ou antecipação, defende o reino de Marchesín como ninguém. É só um homem, sim, mas que faz coisas que poucos homens poderiam fazer.

Com menos um jogador, a tal linha defensiva nem sempre estava tão bem composta, pelo que os homens das linhas da Juve iam tendo mais tempo e espaço. E Cuadrado, confirmando-se como rei das assistências do torneio, sacou um cruzamento perfeito para Chiesa fazer o 2-1 e empatar a eliminatória. Seria um exercício de resistência, emocional e físico. O campo estava já muito grande e nem Marega, que até esteve perto de fazer o empate perto dos 90, conseguia comer metros, exausto por ter de pressionar por dois.

Mas o futebol que tanto tira também sabe dar. A bola à trave de Cuadrado, já perto do apito final, comprova-o. Há amor e desamor num jogo de futebol, mas há também qualquer coisa divina que parece mudar o fado dos desafortunados. Ou poupá-los. Ou dar-lhes mais uma vida para novo duelo.

Jonathan Moscrop

O prolongamento veio equilibrar a balança. A cínica Juve talvez estivesse a ser cínica… ou talvez estivesse com medo de falhar perante um adversário ferido, com menos homens. Cristiano Ronaldo, que se frustrou mais do que jogou, ia mantendo o anonimato. Sérgio Conceição e Andrea Pirlo foram mexendo nas peças, garantindo homens com pernas frescas, mas o jogo não estava para frescuras e já poucos tinham clareza no pensamento e na ação. Até que Sérgio Oliveira fez a bola passar por baixo das pernas de McKennie e ganhou um livre: 2-2. Rabiot marcou logo a seguir de cabeça (3-2) e o anúncio do medo voltava a pairar, para moer o juízo aos homens de azul... mas estes estavam cegos. Cegos de paixão por futebol, cegos de orgulho para defender o escudo que levam na camisola. Cegos de vontade de seguir em frente.

Há qualquer coisa na dignidade dos corpos sovados que se arrastam… mais ainda quando são finalmente recompensados num campo de futebol. Apito final: o FC Porto está nos quartos de final da Liga dos Campeões. A ovação desta noite, silenciosa, será eterna.