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Liga dos Campeões

Com que então, era este o badalado superfutebol

Poucas equipas há com melhores jogadores do que o Real Madrid, embora muitas haja que, coletivamente, joguem mais. É o caso deste Chelsea de Thomas Tuchel. Não é uma superequipa a jogar, mas foi a melhor em campo e sai de Espanha com um empate (1-1) na primeira mão das meias-finais da Liga dos Campeões

Diogo Pombo

JAVIER SORIANO/Getty

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Ó para ele, bonacheirão de olhar e com as bochechas a descaírem, todos tivemos de olhar para Florentino Pérez repetidamente por uns dias enquanto, achando-se estoico e paladino da salvação do futebol, foi distribuindo a sua sabedoria de bolso acerca do que adeptos, interessados e curiosos querem ver, encavalitando-os no interior do saco com “consumidores” escrito do lado de fora. A soberba da Superliga Europeia que durou, até ver, umas 48 horas, personalizou-se no presidente do Real Madrid.

E eis o Chelsea, que curioso, foi o primeiro dos clubes separatistas com o elitismo em riste a mudar de ideias, por sinal anunciou o recuo após a primeira das duas aparições-metralha de Florentino na televisão, onde discorreu o seu ideário estrambólico e a partir daí os restantes 10 caírem como um dominó, até Roman Abramovich escreveu “pronfundamente arrependido” numa carta.

Até o oligarca que escancarou a porta para os zilionários brincarem ao monopólio com a bola se inteirou, no mínimo, do desastre em relações públicas que foi a tentativa de fuga da UEFA e desta Liga dos Campeões onde o Real Madrid recebeu o Chelsea no seu maior campo de treino, e ei-los, não os tipos que mandam nos clubes mas os que jogam por esses clubes, a responsabilidade da tentativa em criar uma competição à parte desta não do Toni Kroos, do Luka Modric ou do Karim Benzema tão rodados na prova onde ali são superados em rodagem.

Durante uma parte não houve aquele piloto automático engatado por alquimia de Zidane, quase feitiçaria para, sempre que a ocasião o exigia, a sim superqualidade por cabeça no Real Madrid ir buscar as melhores exibições, a melhor forma e a melhor versão deles próprios e entrarem em modo Champions. Em fio de jogo coletivo, formas trabalhadas de sair de trás, dinâmicas para descobrirem o homem livre e verticalizar muito qualquer contra-ataque, o Chelsea dominou e foi melhor.

Estava equipado para ser equipa, trabalhado para as setas alemã e americana serem lançadas em condições nas quais de nada valia a Éder Militão ou Raphaël Varane serem rápidos - os jogadores em diante eram apáticos, deixam muitos adversários com bola sem pressão e virados para a baliza e quando apertavam iam desgarrados.

Sem gente perto, Werner falhou um golo cantado aos 10’, ou foi a esparregada de Courtois a esmerar-se, algures no meio estará a resposta; aos 14’, o veloz Pulisic avançou no tempo para recolher uma bola de Rüdiger na profundidade e, quando muitos do Real já estavam na área, sentou o guarda-redes e marcou; aos 25’ seria Chilwell à entrada da área, aos 37’ foi Thiago Silva de longe e aos 41’ seria Werner em correria. O Chelsea produzia situações para rematar em todos os feitios.

Mas o Real, aquele que põe Florentino a contar cifrões para adormecer à noite, fez-se a quatro troféus orelhudos em cinco anos por ter jogadores independentes de quem está a dominar, a controlar ou a gerir os ritmos de uma partida.

Nesta época e na anterior, Benzema é quem mais estima a sua bolha imune a contextos, neste jogo eram as receções de algodão, a resistência à pressão para aguentar jogadas sem apoios próximos e a sua promoção de tabelas com outros, chamando-os para jogarem. O francês assim arranjou forma de rematar com brutalidade ao poste, depois controlaria a bola de cabeça antes de a bater em rotação na área, cheio de gente nas imediações após um canto curto.

David Ramos/Getty

O seu 71.º golo sem penáltis acontecia na Liga dos Campeões, no fundo era Benzema a acontecer, apesar do estranhamente torto passómetro de Kroos, da demasiada permanência de Modric no corredor direito, longe da bola, e na pachorrenta forma de recuperar posição de Marcelo era uma via rápida para N’Golo Kanté filtrar as muitas bolas que reclamava, em série, com a sua forma pressionante de viver - em parte, está aqui a explicação do pouca influência dos médios merengues.

Por volta da hora de jogo se viu uma equipa jogar no Real, só aí, o alemão já tinha mira laser nos pés, o croata já se aproximava em posse, ambos faziam todos crescerem usando os apoios do avançado francês e, lá atrás, Éder Militão solidificou-se. Mas a existência da equipa com bola, reclamando-a e controlando-a, durou 10 minutos e não mais.

Como se vestisse de azul o lado mais experimentado em meias-finais, o Chelsea retomaria as rédeas. Cada vez que os centrais iniciam a construção de jogadas, ou a saída de pressão, a equipa desmantelava o Real com a simplicidade de passes verticais no apoio frontal, alguém a acercar-se de frente para a baliza, outro jogador já a romper uma corrida no espaço livre e tudo a fluir a poucos toques até os ingleses chegarem à beira de um central com morada passada em Portugal.

A exibição a relevar no Real Madrid foi Éder Militão, não houve cobertura, dobra ou corte que o brasileiro tentasse e não lograsse, qualquer jogada a exigir-lhe uma ação significou sucesso para o defesa ex-FC Porto. Nele está muito do fundamento para o Chelsea, mesmo com tanto controlo e bem jogar, não criasse mais situações para finalizar e dar outro peso à mochila com que sai de Espanha.

Poucas equipas há com melhores jogadores do que o Real Madrid, embora muitas haja que, coletivamente, joguem mais. É o caso deste Chelsea de Thomas Tuchel. Não é uma superequipa a jogar, vê-se à vista desarmada que tem a maioria dos momentos bem trabalhados e futebolistas do melhor que há para executá-los, mas a chuva e os trovões que, às tantas, rasgaram os céus acima do campo era os deuses da bola a fazerem cair os seus brados.

Porque, se este Real Madrid-Chelsea era uma amostra do concentrado de superfutebol que seria a Superliga a que Florentino Pérez ainda se agarra, um ‘pronto, ok’ é a reação mais condigna.