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Rúben Dias, ou até onde chegam a mentalidade e a confiança

O central português está na final da Liga dos Campeões e ordena a linha defensiva do Manchester City pela concentração, pelo "perfil de coragem" e pela "incrível" forma como "reage ao erro como se nada fosse", explicam à Tribuna Expresso os treinadores João Tralhão e Blessing Lumueno. Essas são as fundações que alimentam tudo o resto que há no jogo de Rúben Dias

Diogo Pombo

Tiago Pereira Santos

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O mundo novo dos defesas é mais opulento do que admirável, se bem que impensável até há uns anos. As zilionárias quantias pagas por quem, em tese, joga mais perto da sua baliza no jogo que, na prática, sempre valorizou mais quem ataca a dos outros é tendência recente, prazer culposo da era dos superclubes, a serem supergastadores: dos 30 defesas mais caros da história do futebol, apenas dois foram introduzidos nessa lista antes de 2014.

Não é por isto que o futebol está louco. A sua costela esbanjadora e de pôr um preço em pessoas com jeito para a bola vem de trás, seria natural dentro da sua desnaturante realidade que falar de jogadores com o idioma dos milhões chegasse, um dia, aos defesas, para os inflacionar e lhes dar algo mais com o qual lidarem. Os €68 milhões que o Manchester City pagou ao Benfica no último verão puxaram Rúben Dias para este berbicacho.

Porque o é, foi-o logo quando o português ainda nem tinha calçado as chuteiras pelos ingleses, a etiqueta do preço perseguiu-o logo com mais afinco por o City tanto dinheiro já ter gastado em defesas, tendo Pep Guardiola como treinador. E a John Stones (€55.6 milhões), a Benjamin Mendy (€57.5 milhões), a Danilo (€30 milhões), a Kyle Walker (€52.7 milhões), a João Cancelo (€65 milhões) e a Aymeric Laporte (€65 milhões) falou-se que a ideia era acrescentar Kalidou Koulibaly, do Nápoles, depois já era José Giménez, do Atlético de Madrid, ou talvez fosse Jules Koundé, do Sevilha.

Apesar de ser a pretensa quarta escolha, a lenga-lenga dos milhões gastos com defesas foi passada ao português. O City escolheu-o como o próximo na linha de sucessão do peso colossal das expetativas a sobrecarregar um tipo que pela posição no campo, a equipa onde entrava e a forma como o treinador a quer a jogar, teria sempre protagonismo na construção e na gestão da bola, lidaria com muito campo aberto nas suas costas e seria muitas vezes deixado a enfrentar adversários sem coberturas, um para um, em transições defensivas.

Entre o perspetivado e o executado houve mais de 40 jogos, toda uma titularidade quase sempre no posto de central do lado esquerdo para Rúben Dias, até à eliminatória de uma era no Manchester City. Dois jogos a faltar para o máximo objetivo do clube engrandecido pelos petrodólares do Abu Dhabi e no caminho esteve o Paris Saint-Germain, outra cirurgia cosmética do futebol que tinha em Neymar e Kylian Mbappé os prováveis jogadores mais perigosos do momento, na Europa, se lograrem embalar com a bola.

Andrew Yates/Icon Sport via Getty Images

Em Paris, o português enfrentou ambos a partir de uma linha defensiva colocada mais longe da área, a querer condicionar as receções dos adversários, a roubar-lhes tempo para decidirem. Exigiu-lhe antecipação a abordar os lances, jogo de pés para ajustar os apoios e rapidez a virar sobre si próprio quando havia a iminência de um passe lhe farejar os metros de relva disponíveis nas costas.

Em Manchester, Rúben Dias jogou mais perto da própria baliza, com os médios do City nas redondezas, a manter o limite do bloco inglês perto da área e a não ter tanto espaço por cobrir na profundidade. Nesta terça-feira, apenas tentou um desarme, a meio da sua metade do campo; no jogo da primeira mão, teve três bem dentro do meio-campo do PSG.

Jogos diferentes, abordagens distintas e o central a mostrar que “adapta-se a um bloco alto, médio ou baixo e a qualquer forma de jogar do ponto de vista posicional”.

João Tralhão treinou-o nos juniores do Benfica e fala à Tribuna Expresso de um central “muito focado no que é a sua tarefa”. A palavra “mentalidade” é quase uma vírgula em cada frase, destaca-lhe a “capacidade de trabalho” para “maximizar o talento” e descreve um jogador que é um “lutador nato”, tem uma “mentalidade de guerreiro” e “reage muito bem ao erro, com uma facilidade incrível”. Aqui jaz o primeiro tijolo das fundações do futebolista que é Rúben Dias.

O português moldou a sua forma de jogar na concentração, no foco e em manter o interruptor ligado. Não é de agora e pode parecer coisa pouca, mas é a cabeça que dita tudo o resto, os bichinhos que encrencam intenções moram lá, só que na de Rúben Dias parece estar soterrados na cave e debaixo na “muita confiança nele próprio”. Blessing Lumueno também descortina no central a qualidade de “continuar a jogar como se nada fosse” quando comete um erro - e nesta época tem sido “muito de vez em quando”.

Os relatos de um central ordenador, a dar muito à língua e a distribuir instruções em campo têm alguma barba, o técnico dos juniores do Estoril Praia ressalva-o e vê Rúben Dias a colocar “todos os colegas em stress”. Ajuda-os a “estarem sempre ligados” e traça a origem desse padrão na “concentração e liderança” do português. Na terça-feira, quando Zinchenko se atirou à relva para bloquear um remate de Neymar, na área, já na segunda parte, Rúben Dias acorreu ao ucraniano para o abraçar efusivamente, arrastando John Stones para esse afago

Matt McNulty - Manchester City

O inglês com quem se tem emparelhado e sustentado a linha defensiva do City - “também está num nível muito alto e beneficiam-se mutuamente” - fica à direita, no lado do seu bom pé. Rúben Dias joga à esquerda, “até o vemos fazer passes de pé esquerdo que não o víamos a fazer em Portugal”, dos rasteiros e tensos e verticais, a irem ter com gente entrelinhas. “Não tem medo de se expor ao risco e no que evoluiu mais foi na confiança com a bola”, resume à Tribuna Expresso Blessing Lumueno, prosseguindo no descascamento das camadas.

Porque o físico que já tinha está a reforçar-se, a técnica de desarme com ambos os pés (até a deslizar na relva, em carrinho) está mais certeira e as aptidões na construção a melhorarem (mais acertado nos passes pela relva) estão algures na face de dois gumes: por um lado, beneficia do contexto do City, onde é vizinho de “jogadores melhores, numa equipa claramente dominadora, que lhe dá algum conforto” e, por outro, mantém o seu perfil de “encarar de frente os desafios e tentar dar a volta ao erro”, reforça João Tralhão.

Um jogador é quão bom quanto melhores forem os tipos que há na mesma equipa e o tipo que os treina. Rúben Dias acrescentou a sua à muita qualidade per capita no City, ajudando-se mutuamente para melhorar a pegada que deixa na construção de jogadas: "beneficia de um treinador que encoraja esse tipo de ação, que sabe que a sua equipa depende muito desse tipo de ação e que trabalha esse tipo de jogo. Sabendo onde estão os colegas, torna-se mais fácil decidir".

E o talento que junta à concentração, à mentalidade e à carapaça contra os macaquinhos do erro têm-no ajudado no contexto que o rodeia em Manchester - os defesas passam muito tempo em organização ofensiva, portanto “sem terem uma ação defensiva efetiva” no jogo, explica Blessing, onde, na transição defensiva, “os colegas conseguem filtrar a maior parte dos lances”.

O poço sem fundo de concentração que os dois treinadores reconhecem ao central português é-lhe valiosa, pois quem passa tanto tempo, em tantos jogos, a ter estímulos ofensivos “de equilíbrio e longe do centro do jogo”, tem de “reagir rápido, correr muitos metros e ler as situações de forma célere”. São as regalias de jogar no City mandão, usurpador da bola.

Os €68 milhões serviram para o clube pagar pelo que João Tralhão centra na “capacidade de trabalho” e na “mentalidade muito diferenciada”, o técnico mete as palavras no fogo para vaticinar a Rúben Dias um futuro como “uma das grandes referências da Premier League”, que está a uma vitória de conquistar. Mesmo elogiando-lhe, de novo, a concentração, a liderança e tudo o resto, Blessing Lumueno argumenta que ao português “falta um pouco de Van Dijk ou Bonucci” em termos de “ser mais conservador em algumas abordagens”.

O tempero proveniente da mistura entre a confiança e a mentalidade, porém, fá-lo “muitas vezes” tentar “antecipar ou adivinhar o que o adversário vai fazer ou o rumo do lance”. Quando o visado não faz o que previu, Rúben Dias “expõe-se a desvantagens”, às vezes “é só um segundo”, tempo “suficiente para que consiga tirar vantagem ou criar perigo”, analisa o técnico. Mas que venha chutar a bola para fora do estádio quem nunca radiografou um defesa central a ser confiante a este nível, com este rendimento, com 23 anos e neste mundo onde se canalizam fortunas para os comprar.

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