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Liga dos Campeões
Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

A final da Liga dos Campeões: de quem é a bola?

"Nesta final estarão dois filhos do ataque posicional. Dois filhos de Johan Cruyff. Dois treinadores que lutarão por ter a bola para começar daí a construir o seu jogo", escreve o técnico Blessing Lumueno, na antevisão do duelo Manchester City-Chelsea (20h, TVI e Eleven)

Blessing Lumueno

Getty Images

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O futebol é um jogo de pontuações baixas onde os imponderáveis jogam um papel determinante, sobretudo em provas curtas. A Liga dos Campeões é um exemplo disso, e tem sido palco de aparecimento de muitos Davides que vão superando os Golias. Nas finais têm aparecido equipas a jogar com todos os estilos, mas têm naturalmente saído beneficiadas, pela força dos jogos à eliminar, quem arrisca menos, quem não se expõe tanto. Não deixa de ser curioso que o futebol viva tempos de dúvida onde se discute muito a filosofia de cada treinador em função do objectivo de cada clube, e nos últimos 4 anos (este inclusive) as equipas finalistas eram comandadas por treinadores que – divergindo na filosofia – querem sempre tentar marcar golos mais do que não sofrer. Falo de Zidane e Klopp, Klopp e Pochettino, Hansi Flick e Tuchel, e agora Guardiola e Tuchel.

Cada vez mais o futebol tem sido dos treinadores e menos dos jogadores, mas destes últimos 8 finalistas, por evidente acaso, as finais foram quase todas agradáveis de se ver e com espaço para criatividade individual e colectiva. Sendo que uns com mais dedo na forma como a equipa se organiza e outros que deixam muito mais ao critério dos jogadores, todos apostam em criar condições para que os seus jogadores consigam ter mais situações de ataque do que de defesa, e todos eles trabalham para que no final do jogo, vencendo ou perdendo, os seus jogadores tenham tido possibilidades de aparecer e mostrar qualidade.

Nesta final estarão dois filhos do ataque posicional. Dois filhos de Johan Cruyff. Dois treinadores que lutarão por ter a bola para começar daí a construir o seu jogo.

Guardiola, o melhor treinador da história. O único treinador a quem se contam os anos sem chegar à final da Champions, joga a sua terceira final. Estando ainda em actividade, superou quem o inspirou pela forma como fez evoluir o futebol dos seus mestres, pela arrebatadora dinâmica de vitórias, e sobretudo pela influência que tem no mundo do futebol. Ainda longe da reforma, vive sob um estigma que ele criou e tem tentado, com sucesso, superar todos aqueles que vivem da parte estratégica que visa anular o futebol marcante que ele construiu.

Do outro lado, Tuchel na segunda final consecutiva. Não venceu ainda nenhum título europeu, mas é possível ser-se um enorme treinador mesmo sem vingar na Europa. Se o futebol for justo para a forma de jogar de um dos treinadores mais influenciados por Guardiola, o treinador alemão também conseguirá conquistar a tão ambicionada orelhuda. A forma como chegou ao Chelsea e tão rapidamente conseguiu transformar o futebol da equipa é o maior cartão de visita de Tuchel.

Os preceitos do ataque posicional são simples: os jogadores ocupam posições, do ponto de vista ofensivo, nas estruturas que os treinadores definem em função da bola. Dentro disto, há estruturas mais fixas e outras mais móveis.

Na saída de bola ambos procuram sair com 5 atrás e 5 mais à frente, sendo que nesse momento procuram ocupar o máximo possível de terreno de jogo em largura e em profundidade. Assim, procuram ganhar espaço para que os seus jogadores consigam sair da área com menos pressão, tentando forçar o adversário a optar entre marcações individuais, ou partir a marcação zonal em dois, deixando muito espaço entre a defesa e o meio-campo. Há uma terceira opção possível que a de não serem pressionados na área, e parece-me ser essa a que os treinadores que mais pensam o jogo ofensivo preferem.

No meio-campo ofensivo os treinadores preferem as equipas mais juntas, sendo que Guardiola opta por uma estrutura de 2+3+2+3, garantindo apenas largura e profundidade no lado da bola. No lado contrário os jogadores estão mais perto da baliza, o que não promove tanto as variações longas de corredor, permitindo assim maior proximidade entre os seus elementos. Com isso, há uma pequena vantagem na recuperação defensiva em caso de perda de bola, se os jogadores reagirem com a ferocidade que o treinador defende. A estrutura mais fixa do Guardiola são os centrais, laterais (mais o do lado contrário ao da bola), médio defensivo, e os extremos. Sendo que tem maior liberdade de movimentos o avançado, os médios ofensivos e o lateral do lado da bola. As ameaças do City são quase todas em combinações para entrar na área, ou na forma como libertam Mahrez para as acções de um contra um. Há sempre espaço para, claro, os toques de génio do Bernardo Silva, as potentes acções do Cancelo, a qualidade de último passe do K. D. Bruyne, as arrancadas do Foden ou para a chegada de segunda linha de um Gundogan na melhor época de sempre em solo inglês.

Os jogadores do City com maior liberdade para se movimentarem

Os jogadores do City com maior liberdade para se movimentarem

DR

Tuchel prefere que o seu jogo de posições passe por um 3+2+2+3, sendo que apesar das semelhanças no número de jogadores em duas linhas, uns referem aos alas e avançados e avançados e o outro aos médios e avançados. No caso do Chelsea, a equipa claramente mais estendida em largura, e com jogadores mais capazes de explorar a profundidade pedindo bolas nas costas (Havertz, Werner, Mount). Ainda assim, a equipa não fica exposta quando perde a bola porque todos reagem rápido e bem nesse momento de transição defensiva. O treinador alemão opta por uma estrutura mais fixa composta pelos 3 defesas centrais, um dos médios-centro (normalmente Jorginho) e os dois médios-ala. Quem se movimenta mais são os 3 da frente, e o outro médio centro. Com este posicionamento, os “blues” garantem jogo exterior em combinações ou cruzamentos, qualidade no jogo nos espaços reduzidos, e espaço para a criatividade do Jorginho, para as acções explosivas do Mount, ou para a subtileza do Havertz.

DR

Com estas estruturas os treinadores tentam monopolizar a bola, preparar os ataques, preparar a defesa dos contra-ataques, e criar ameaças à baliza dos seus adversários. Sendo que Guardiola tem uma equipa cimentada, um modelo bem enraizado e interiorizado por parte da esmagadora maioria dos seus jogadores, parte com uma ligeira vantagem.

As fragilidades deste Manchester City têm sido, sobretudo, na forma como defende o espaço entre linhas, e é precisamente daí que poderá surgir a maior ameaça do Chelsea. Seja por acelerações e diagonais curtas de Havertz e Werner, pela chegada de segunda linha do Mount, ou então pela capacidade que têm de ameaçar de fora da área. Já os citizens terão maiores possibilidades quanto mais vezes conseguirem obrigar um dos centrais do Chelsea a sair da posição, uma vez que os médios costumam estar mais focados na bola do que em ajustar nas posições dos defesas que se saltam em contenção, ou numa dobra.

Embora tenha dúvidas no onze inicial do City (entre Cancelo, Zinchenko e Walker – jogarão dois) e no do Chelsea (entre Reece James e Christensen, Havertz ou Pulisic), parece-me que tanto treinadores como jogadores nos darão um grande jogo.