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Liga dos Campeões

Um vencedor justo e uma injusta Fraudiola prolongada

Um golo de Kai Havertz fez a diferença entre o Chelsea simples, eficaz e sabedor ao que queria jogar, e o Manchester City cujo plano o fez carregar no botão de complicar até acabar a implodir no Estádio do Dragão, onde não houve muitas máscaras nas bancadas. Thomas Tuchel ganhou a Liga dos Campeões à segunda final consecutiva e Pep Guardiola contará mais um ano sem a reconquistar

Diogo Pombo, enviado ao Euro 2020

Manu Fernandez/Getty

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O diz que disse serpenteia as voltas à vida, chega-se ao Estádio do Dragão e quem cá chega para trabalhar recebe a credencial segura por uma fita com um “Istanbul 2021” impresso, diz a parafernália não atualizada que era suposto a final ser 3.912 quilómetros a oriente e não aqui, no Porto e em Portugal, onde se dizia que humanos a ver futebol nem pensar e ei-los aos doze milhares nas bancadas, a gritarem e a cantarem e a vibrarem, depois de vários entre eles terem arruaçado com pancadaria pela cidade.

Agora, nas bancadas, a maior parte nem quer saber de agasalhos e está de mangas curtas e pele à mostra pelo seu clube, o Chelsea e o Manchester City que há coisa de seis semanas disseram, sem dizer, que pretendiam era estarem dentro de competição mais rica, exclusiva e elitista do que esta que jogam para ganhar. E se a primeira posse de bola da final dissesse algo, diria que os jogadores pagos pelos milhões do Abu Dhabi cairiam com tudo como caíram para empurrar os assalariados do oligarca russo a perderem a bola junto à própria bandeirola de canto.

Poderia dizer-se que era um prenúncio, um sinal dado pelo City sem bola para a forma como queria jogar com ela, sempre com ela. Uma surpresa para ninguém, são treinados pelo careca que calvo ficou por tanto pensar sobre bola e por a querer ter sempre e, de facto, os de Manchester foram quem mais a teve durante 45 minutos. Tanto por o quererem, como por, de certa, maneira lhes ser estrategicamente permitido.

Era raro ver os três estarolas da frente do Chelsea pressionarem as posses de Kyle Walker, John Stones e Rúben Dias. Se estivessem em campo próprio, apenas os continham. Os friorentos atacantes da equipa de Thomas Tuchel, todos de manga comprida no calor portuense, só cobriam as ações com bola do trio que o City deixava na linha da bola se algum deles cruzasse a fronteira do meio-campo.

Tê-los como os adversários que mais toques, mais passes e mais tempo de bola virados para o jogo era o mal preferido pelo Chelsea para inglês ver, melhor eles do que Gündongan, Bernardo, Foden ou o enganador Zinchenko, ucraniano escolhido para ser o portador da manha guardiolesca de ter um dos laterais a virar médio quando o Dragão via o City a atacar e logo querer formar um losango na metade do campo contrária.

A vida defensiva do Chelsea não se baralhou com estas voltas. Tuchel, mais de pé do que sentado, abanava-se muito, os braços desamarrados do colete que vestia, também o alemão caminha para careca e este stress não lhe favorecerá as entradas testa acima, mas, se assim for nos treinos, beneficiou a equipa - cerrando as vias de passe para os três atacantes do City, sobretudo a que desse até De Bruyne, a sua equipa pacientou-se na espera do erro para, aí, ferir o risco do campeão inglês.

Anadolu Agency

De forma simples, vertical e a necessitar de poucos passes, o Chelsea fez a bola chegar a Werner, na área, que aos 10’ falhou na bola e aos 16’ passou-a a Ederson, quiçá sintomas da confiança de cristal do alemão, visto cá de cima é fácil apontar-lhe o dedo, como facilitada é a visão do plano que executa com um conterrâneo.

Ele sempre orbitava perto de Stones, a prendê-lo a si, à espera que Havertz atraísse Rúben Dias para longe da área e criasse o espaço onde Werner deveria correr. O Chelsea não jogava com tanto da bola, preferia jogar com o risco do City em deixar os defesas perseguir referências individuais.

O golo, aos 42’, foi disso consequência: o inglês atrasou-se a ir atrás do seu homem, hesitou quando a bola chegou a Mount e deu-lhe tempo para rasgar um passe na cratera onde Havertz fintou o guarda-redes e passou a bola à baliza. À primeira vez em que o isco foi Werner e não ele, o Chelsea confirmava o maior perigo que provocava em comparação com os dois passes rasteiros com que o City quase deixava alguém a finalizar, nas vezes em que convidou o adversário a sair a jogar curto para ser Thiago Silva a decidir onde colocar uma bola longa.

A equipa de Londres não o teve na segunda parte, uma lesão tirou o central do jogo e com o brasileiro se foram os pés mais confiáveis para arriscar o chamamento da pressão à área. E o resultado, o prejuízo que urgia os viajados de Inglaterra com azul-celeste e o risco no qual tinham de apostar foi encostando as linhas do Chelsea atrás.

O frenesim descoreografado de Guardiola dizia tudo, a sua cabeça rapada a refletir os holofotes do estádio com inquietação apressada. Um choque de cabeças entre Rüdiger e De Bruyne forçou-o a ficar sem o belga (59’), diminuído em lágrimas ao abandonar o relvado, a sua influência até então também diminuta pelo tempo que contou a participar virado para a própria baliza.

Depois, a equipa ficou sem Sterling e Bernardo por opção própria de Guardiola, para acabar com Gabriel Jesus e Agüero a marrarem incaracteristicamente na frente, dois alvos para a precipitação pouco habitual na intrincada era do City com o espanhol, sempre tão complexo a matutar um jogo de futebol com a bola e, ao mesmo tempo, a fazer parecer que tudo é simples. A última meia hora no Dragão encravou o botão da complicação na equipa, mais próxima da implosão a cada minuto.

Pareceu haver mais linhas no campo do que as reais, estas imaginárias, a limitar o City a se afunilar pelo centro, onde o Chelsea se manteve com os jogadores nos sítios certos, nas alturas certas. Também foi gozando do privilégio de ter N’Golo Kanté, pequena pessoa imune ao cansaço, uma inesgotável fonte de caça-bolas quando alguém furasse pelo bloco.

DAVID RAMOS/Getty

O francês (eleito o homem do jogo) raramente é autor do seu primeiro nome, mas demonstrou, mais uma vez, que tê-lo pode evitar que os adeptos de uma equipa que defronte o Chelsea gritem o que os seus pais escreverem no seu boletim de nascimento; mas, por mais decisivo que tenha sido, e por maior que seja a eficácia com que Thomas Tuchel melhorou a equipa em quatro meses, esta final teve tanto de cume do mérito do treinador alemão como de inépcia de quem jogou do outro lado.

Os últimos 10 minutos, mais os sete que houve de compensação, disseram-no em conjunto. Foram um acumular de decisões desacertadas dos jogadores do City face ao que jogo lhes pedia, os seus pés agiam com a força do desespero e a impotência de uma abordagem - a insistência em tentar inventar combinações pelo meio do campo nunca incomodou o Chelsea, quem esperou por bolas na largura não teve uma com que ir para cima do adversário, jamais se notou outra forma pensada para chegar à baliza de Mendy, que não teve de lidar com um remate na baliza durante a segunda parte.

O guarda-redes apenas agarrou uma dócil tentativa de Agüero, que picou suavemente um cruzamento (foi?) na única vez que alguém teve espaço na área do Chelsea, depois deste Chelsea simples, eficaz e sabedor ao que joga já quase ter marcado de novo quando (73’) Pulisic e Havertz se desenvencilharam sozinhos num contra-ataque que desmantelou cinco jogadores do Manchester City.

Que acabou a final como não é, nem nunca se propôs a ser, mas como tantas equipas ficam na hora da perdição, a bombear passes longos, a depositar esperanças em lançamentos laterais para a área e a fazerem figas por segundas bolas, como a rosca que saiu do pé direito de Mahrez, no último dos minutos de compensação. Tuchel, notando o insucesso, virou-se uma última vez para a bancada onde estavam os adeptos blues, clamando por barulho.

DAVID RAMOS/Getty

A bola passou bem mais perto da barra do que as sensações das certezas, durante o jogo, de que esta poderia ser a vez do City na Liga dos Campeões; de que, uma década depois, Guardiola a ganharia outra vez e punha de novo a zeros a contagem dos anos passados desde a última vez que a venceu.

É um escrutínio temporal que nenhum outro treinador tem e que o Porto se encarregou de prolongar, os ingleses até já lhe chamaram Fraudiola em outras primaveras e talvez o seu olhar desalentado no fim, devastado mesmo, guardasse um pouco dessa injusta cobrança que lhe continuarão a cobrar.

O abraço entre o técnico espanhol e o alemão foi dos primeiros a ver-se, o perdedor à terceira final a congratular o vencedor à segunda consecutiva a que chegou, e os proverbiais choros e devastações de um lado do campo enquanto o êxtase descontrolado acontecia do outro. A partilhar a alegria no relvado esteve Hilário, treinador de guarda-redes do Chelsea.

Tudo, por fim, com adeptos a assistir e a fazer o Dragão parecer apinhado até às costuras nesta Liga dos Campeões que pareceu dizer calma, agora vamos a uma pausa, à pandemia que, aqui, teve quase todos os adeptos desmascarados na cara, abraçados na intimidade.

Todo a dizerem, com o barulho das luzes, que era inevitável as coisas acabarem assim - a partir do momento em que as deixaram acontecer assim.