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Liga dos Campeões

Sheriff Tiraspol, o clube moldavo que faz história num território que não quer ser moldavo

A primeira equipa da história da Moldávia a jogar na fase de grupos da Liga dos Campeões é da Transnístria, um estado auto-proclamado que, apesar de não ser internacionalmente reconhecido, tem bandeira, moeda ou governo próprios. O clube foi fundado por antigos membros da KGB e é financiado pela empresa dominante da região. A Tribuna Expresso falou com Gustavo Dulanto, central do Sheriff que garante que a situação política passa ao lado de um grupo que está “a viver um sonho”

Pedro Barata

Jurij Kodrun/Getty

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Quando o Sheriff Tiraspol entrar em campo frente ao Shakhtar Donetsk esta quarta-feira, 16 de setembro, estará a fazer história para o futebol da Moldávia. Pela primeira vez, uma equipa do país jogará na fase de grupos da Liga dos Campeões. O Sheriff desafiou as probabilidades, ao passar todas as eliminatórias de acesso à máxima competição continental, deixando pelo caminho o Teuta (Albânia), o Alaskhert (Arménia), o Estrela Vermelha (Sérvia) e o Dínamo Zagreb (Croácia) para estar presente no torneio que é o habitat por excelência da realeza do futebol.

Só que o Sheriff, crónico campeão da liga da Moldávia… pertence a uma região que não se considera parte da Moldávia, tendo a sua própria bandeira, moeda, governo ou polícia.

Estranho? Vamos por partes.

Tiraspol, a cidade do Sheriff, é a capital da Transnístria, um estado auto-proclamado que fica na faixa de terra entre o rio Dniestre e a fronteira da Moldávia com a Ucrânia. Para a comunidade internacional, essa zona faz parte da República da Moldávia, que a chama “Unidade territorial autónoma com estatuto legal especial da Transnístria”.

Após o desmembramento da União Soviética, a Moldávia declarou a sua independência, algo que a Transnístria também desejava. Entre março e julho de 1992, deu-se a chamada guerra da Transnístria, no qual morreram cerca de 1.500 pessoas. A 21 de julho de 1992, foi assinado um cessar-fogo, que se mantém até hoje.

Desde então, o governo da Moldávia não tem exercido influência determinante sobre a Transnístria, que se mantém separada do Estado do qual a comunidade internacional entende que faz parte, tendo não só bandeira, moeda, governo, serviço postal ou polícia próprios, como usando ainda símbolos soviéticos, como foices e martelos, na sua iconografia. Toni Padilla, historiador, jornalista e autor de vários livros sobre a ligação do desporto com a história e a geopolítica, descreve a Transnístria como sendo “uma ferida aberta que nos recorda que, quando vivemos um momento histórico” como o da desintegração soviética, “ficam sempre cicatrizes, fraturas e zonas cinzentas”.

Brasão de armas da Transnístria

Brasão de armas da Transnístria

SERGEI GAPON

Em Tiraspol vive Gustavo Dulanto.

Central peruano de 26 anos, o jogador chegou ao Sheriff no começo de 2021 após realizar 11 partidas e marcar dois golos pelo Boavista em 2019/20. Dulanto, peça importante da manobra da equipa (titular em seis dos oito jogos das eliminatórias), conta à Tribuna Expresso que “para ir de Tiraspol para a capital da Moldávia, Chisinau, é preciso passar um controlo de fronteira”, no qual “te pedem o passaporte e colocam no sistema que passaste”, isto apesar de, em termos teóricos, estarmos sempre dentro do território da Moldávia. Ainda assim, o peruano assegura que “não sabe de problemas para passar esse controlo, é tudo tranquilo”.

Perante o escasso reconhecimento jurídico que possui o passaporte da Transnístria, onde vivem cerca de 500 mil pessoas, muitos dos seus cidadãos pedem o passaporte moldavo ou russo. De acordo com a “Euronews”, cerca de metade das pessoas que vivem na Transnístria, cujo governo tem sido pró-Kremlin, têm cidadania russa.

Ora, foi em Tiraspol que, em 1993 (um ano após o cessar-fogo), foi criado o Sheriff, um grupo empresarial. Fundado por Viktor Gushan e Ilya Kazmaly, dois antigos membros do KGB, o Sheriff aproveitou-se das suas excelentes relações com o poder político (um dos principais dirigentes do grupo foi Oleg Smirnov, filho de Igor Smirnov, presidente da Transnístria de 1991 a 2011) e da confusão do período a seguir à guerra e ao fim da URSS para tornar-se omnipresente na região.

O Sheriff detém uma cadeia de gasolineiras, outra de supermercados, um canal de televisão, uma empresa de construção civil, hotéis, um distribuidor da Mercedes, uma agência de publicidade, duas fábricas de pão, uma rede de comunicações móveis, uma fábrica de bebidas alcóolicas — e um clube de futebol, o Sheriff Tiraspol.

Sabine Von Löwis, membro do Centro para o Leste Europeu e Estudos Internacionais de Berlim e académico que esteve no terreno a estudar a Transnístria, diz à “Deutsche Welle” que “o Sheriff é a instituição central do território”, não se “limitando a financiar o clube de futebol”, mas “controlando de maneira efetiva a economia e política da Transnístria”.

SERGEI GAPON/Getty

E, com o apoio do dinheiro e influência do Sheriff (e da região da Transnístria em si, tendo em conta as estreitas relações entre o grupo e o poder político), o conjunto rapidamente se tornou hegemónico na liga da Moldávia, na qual se viu obrigado a jogar porque a UEFA não reconhece qualquer federação da Transnístria. Fundado em 1997, os “Osy” (“as vespas”) venceram pela primeira vez o título de campeão do país do qual dizem não pertencer em 2000/01. Desde aí, o Sheriff venceu 19 das últimas 21 ligas da Moldávia, sendo, neste momento, hexacampeão nacional.

Um domínio possível graças à enorme discrepância financeira entre a equipa de Tiraspol — capaz de contratar bons jogadores no estrangeiro e de ter excelentes infra-estruturas graças ao apoio do grupo Sheriff — e as restantes formações da Moldávia, um dos mais pobres da Europa e cuja liga ocupa a 34.ª posição do ranking UEFA . Com o passar dos anos e os prémios monetários arrecadados pela equipa pelas presenças europeias (esteve quatro vezes na fase de grupos da Liga Europa), o cenário só piorou.

Exemplos da qualidade das instalações são o estádio do Sheriff, que, segundo o “New York Times”, custou 169 milhões de euros, ou o centro de treinos existente. De acordo com Gustavo Dulanto, “a academia é gigante, com 12 campos de futebol”, tratando-se de um complexo “de fazer inveja a qualquer equipa de qualquer parte do mundo”. No estádio da equipa de Tiraspol já chegou a jogar a seleção da Moldávia que, portanto, atuou como equipa da casa num território que não se considera parte da Moldávia.

SERGEI GAPON/Getty

Dulanto aterrou na Moldávia depois de atuar na Argentina, no Peru e em Portugal, ganhando rapidamente lugar de destaque na equipa. Apesar de só ter assinado em 2021, foi, por exemplo, capitão na 1.ª mão do play-off de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões, quando o Sheriff surpreendeu a Europa ao bater por claros 3-0 um Dínamo Zagreb que tinha, no onze inicial, cinco jogadores que marcaram presença no último Europeu.

O peruano rapidamente percebeu a força da aposta feita pelo clube, referindo que “o Sheriff vem investindo há muito tempo para chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões” e que “dá todas as comodidades aos jogadores e restantes trabalhadores para que trabalhem tranquilos”. Dulanto salienta que “este feito é o culminar de um processo de vários anos” e não surge “por acaso”, o que se vê também pela “crença” existente no clube na possibilidade de chegar à Champions.

Sobre a situação política, o central diz que “passa ao lado dos jogadores”, e que “nunca acontece nada de anormal” na cidade. Dulanto prefere vincar o “entusiasmo e felicidade” do plantel que está “a viver um sonho” e “concretizou uma grande ambição de todos”.

Pixsell/MB Media/Getty

Durante os próximos meses, Shakhtar Donetsk, Inter de Milão e Real Madrid desfilarão por Tiraspol.

Dulanto vinca o “grande entusiasmo” que há na cidade, porque vão “passar por aqui equipas de uma magnitude que nunca se tinha visto”. Mas o peruano rejeita por completo que só estar na fase de grupos já seja um êxito para o Sheriff, visto que o plantel “não se conforma” e “quer mais”. “Queremos passar aos 'oitavos'. Sabemos que é um grupo muito difícil, mas temos muita ambição”, diz à Tribuna Expresso, apesar de reconhecer que os “três adversários estão muito habituados a jogar Liga dos Campeões”.

Em Tiraspol, uma cidade que, diz Gustavo, “não é tão bonita como o Porto”, até porque “não tem um rio como o Douro”, faz muito frio — “quando cheguei estavam 17 graus negativos, não sabia que era possível haver temperaturas tão baixas”. Mas a convivência num plantel com jogadores da Moldávia, Grécia, Sérvia, Peru, Colômbia, Bósnia, Brasil, Macedónia, Mali, Gana, Luxemburgo, Costa do Marfim, Uzbequistão ou Eslovénia é “calorosa”, descreve o central, “tentando-se falar inglês, o que é algo engraçado”.

Para um grupo a viver algo que ficará “na história de todos” há outra ideia clara, “além da continuidade do sucesso coletivo”. É a valorização individual. “Todos sabemos que vamos estar numa grande montra. Estamos no foco do mundo, ainda para mais com este grupo”, reconhece o peruano, que gostaria “muito de jogar em Inglaterra, em Espanha ou em Itália”.

Pixsell/MB Media/Getty

Para os jogadores do Sheriff, disputar a fase de grupos da Liga dos Campeões e defrontar Lautaro Martínez, Karim Benzema, Nicolò Barella ou Luka Modric e pisar San Siro ou o Santiago Bernabéu será um culminar de carreira, ao mesmo tempo que poderá abrir novas portas. Para o clube, é um marco determinante num projeto que tem tanto de hegemónico como de motivo de críticas.

Sabine Von Löwis, estudioso que conhece bem a Transnístria, reconheceu à “Deutsche Welle” que “teme” que a Champions seja “uma oportunidade para que o grupo Sheriff se apresente como uma organização filantrópica que promove o desporto, encobrindo o seu monopólio na política e economia, e as falhas da democracia da região”. Por várias vezes o conglomerado empresarial que sustenta o clube já foi alvo de suspeitas de atividades ilícitas ou imorais, isto numa zona que é descrita pelo “New York Times como um “paraíso para todo o tipo de atividades ilegais, como o tráfico de droga, de armas ou a contrafacção de tabaco”.

As críticas ao Sheriff estendem-se ainda ao facto de, apesar da luxuosa academia, o clube apostar pouco ou nada na promoção e evolução do jogador local. Nas oito partidas da qualificação para a fase de grupos, a equipa só utilizou um moldavo, fosse como titular ou suplente utilizado (Henrique Luvannor, um brasileiro naturalizado que entretanto rumou à Arábia Saudita).

Gustavo Dulanto é alheio a todas estas questões, manifestando repetidamente o “orgulho” por ter contribuído para “um feito histórico para os jogadores, para o clube e para o país”.

Mas, para que país?

As pessoas da Transnístria que Dulanto conhece dizem que é qual? “A verdade é que falam russo e é difícil falar com eles. Nunca lhes perguntei isso, sou sincero”.

  • A Leste do golo
    Benfica

    O Benfica empatou (0-0) frente ao Dínamo Kiev, no primeiro jogo da fase de grupos da Liga dos Campeões. Num duelo quase sempre dominado pela equipa de Jesus, mas no qual as águias revelaram dificuldades para ter oportunidades de golo, o ucraniano Yaremchuk, diante do clube onde se formou, esteve perdulário. Na parte final da partida, Vlachodimos voltou a vestir a pele de herói, antes de o VAR anular um golo que teria derrotado o Benfica ao minuto 93