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É possível o Sporting travar o Atlético? É. Basta fazer o que fez com Barcelona e Juventus

O 2º classificado da Liga espanhola defende muito e bem, pressiona com tudo e aproveita todos os espaços na profundidade, através da dupla atacante Griezmann e Diego Costa. E é por isso que, esta quinta-feira, em Madrid (20h05, SIC), nos quartos-de-final da Liga Europa, o Sporting tem de fazer o que fez (bem) com Barcelona e Juventus: sem bola, fechar-se num bloco compacto; com bola, atacar com muito critério

Tiago Teixeira, analista de futebol

O Atlético de Madrid já venceu uma Liga Europa, com Diego Simeone como treinador, em 2012

JAVIER BARBANCHO/reuters

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Depois de eliminar o Astana e o Plzen, com dificuldade, o Sporting tem agora pela frente o Atlético de Madrid, que chega aos quartos de final da Liga Europa depois de ter eliminado o Copenhaga e o Lokomotiv, com facilidade.

O futebol da equipa de Simeone melhorou consideravelmente a partir de janeiro, altura em que a média de golos marcados por jogo no campeonato espanhol subiu de 1.4 para 2, e isso significa que será certamente um adversário muito complicado de ultrapassar.

O que pode então o Sporting esperar na quinta-feira?

Ataque à profundidade

O Atlético de Madrid não é uma equipa coletivamente muito criativa quando tem a posse de bola. No entanto, com a chegada de Diego Costa ao ataque e a consequente maior liberdade posicional dada a Griezmann (tem mais liberdade para procurar o espaço entre linhas para receber a bola e ligar o processo ofensivo), a equipa de Simeone tornou-se mais perigosa ofensivamente.

O fogoso Diego Simeone é treinador do Atlético de Madrid desde 2011/12 Foto Javie Barbancho/Reuters

O fogoso Diego Simeone é treinador do Atlético de Madrid desde 2011/12 Foto Javie Barbancho/Reuters

Foto Javie Barbancho/Reuters

No Wanda Metropolitano, terá de haver um Sporting muito compacto defensivamente (seja em bloco baixo ou em bloco médio), porque se a equipa permitir muito espaço entre a sua linha defensiva e a linha média, o Atlético vai aproveitar para enquadrar um jogador nessa zona e posteriormente explorar os movimentos de rutura em profundidade de Diego Costa e Griezmann, que neste tipo de situações são exímios.

Correa posiciona-se muitas vezes no corredor central, deixando o corredor lateral para o respetivo defesa lateral subir e Saúl Ñíguez tem uma capacidade tremenda para, em condução desde zonas mais recuadas, associar-se com os colegas de modo a garantir que a bola chegue ao tal espaço entre linhas do adversário.

Video 1 - movimentos de rutura.mp4

Ainda no que diz respeito aos movimentos de rutura, a equipa do Sporting tem de estar preparada para a variabilidade de movimentos de Diego Costa e Griezmann.

Quando um dos dois avançados realiza um movimento de aproximação ao portador da bola e arrasta consigo um dos centrais adversários (atenção Coates e Mathieu), o outro avançado procura sempre receber a bola no espaço criado por essa movimentação.

Video 2 - aproximação e rutura.mp4

Espera-se então um Sporting muito estratégico defensivamente, à imagem do que aconteceu nos duelos contra Barcelona (o Sporting perdeu um jogo por 1-0 e outro por 2-0) e Juventus (o Sporting perdeu um jogo por 2-1 e empatou outro, 1-1), para a Liga dos Campeões, de modo a não permitir que o Atlético consiga explorar o corredor central.

Quando optar por pressionar mais alto, com a bola no corredor lateral, William e Bruno Fernandes deverão ter a missão de pressionar os médios centro do Atlético Madrid (Saúl e Thomas), tal como fizeram com Busquets e Rakitic, contra o Barcelona.

Mais recuado, como médio defensivo no triângulo de meio campo, estará Battaglia, dando cobertura defensiva aos dois médios à sua frente e vigiando Griezmann, como fez com Messi.

Na linha defensiva, o lateral do lado da bola estará mais pressionante, para não deixar o extremo adversário receber com espaço, como Coentrão fez com Sergi. E um dos centrais estará mais perto de Diego Costa, para não o deixar receber se o Atlético sair com um passe longo, tal como aconteceu com Suárez.

A pressão efetuada pelo Sporting contra o Barcelona, na Liga dos Campeões

A pressão efetuada pelo Sporting contra o Barcelona, na Liga dos Campeões

Em bloco médio, a estratégia poderá passar por algo parecido ao que sucedeu contra o Barcelona em Alvalade, onde a linha média procurou bascular para a zona da bola e ao mesmo tempo fechar os caminhos do corredor central para que a bola não chegasse a Messi.

Com a bola no corredor central mas a descair para o lado direito do ataque do Atlético Madrid, será Battaglia a dar cobertura a William, ao mesmo tempo que vigia de perto Griezmann (como vigiou Messi). Quando a bola chegar ao lado contrário, a linha média vai bascular, e posicionar-se de modo a que William corte a linha de passe para Griezmann (como cortou para Messi) e Battaglia ofereça cobertura defensiva a Bruno Fernandes.

sporting bloco médio basculação.mp4

Em organização defensiva, espera-se um Atlético Madrid organizado em 4-4-2, num bloco médio, sempre com grande preocupação em bascular muitos jogadores para a zona da bola.

Diego Costa e Griezmann serão a primeira linha de pressão dos colchoneros, alternando o seu posicionamento de acordo com a zona da bola. Quando um deles pressionar o portador da bola, o outro adotará um posicionamento mais recuado e em diagonal, de modo a dificultar um passe interior.

O posicionamento da linha média segue os mesmos princípios. Quando um dos médios centro (Saúl ou Thomas) adotar um posicionamento mais pressionante, o outro recuará para dar cobertura defensiva e ocupar o espaço entre linhas, de modo a tornar o bloco defensivo o mais compacto possível.

Video 3- org defensiva atlético.mp4

O que o Sporting pode explorar

Apesar destes comportamentos defensivos da linha avançada e da linha média, o Atlético Madrid nem sempre consegue tornar o seu bloco compacto.

Em alguns casos (apenas em bloco médio, uma vez que quando se posicionam mais perto da sua área isto não acontece), a linha defensiva posiciona-se demasiado baixa tendo em conta a zona onde os médios exercem pressão, o que leva a que o espaço entre a linha defensiva e a linha média aumente.

Este espaço entre linhas pode permitir ao Sporting, através dos passes de Mathieu e William Carvalho (jogadores com mais qualidade no passe vertical) e do posicionamento entre linhas de Bruno Fernandes (jogador que melhor consegue juntar a qualidade de condução de bola à capacidade de definir), ligar o seu jogo ofensivo pelo corredor central.

Com a bola a chegar a esse espaço, espera-se que o Sporting faça uso dos movimentos de rutura por parte dos seus extremos (Acuña e Gelson), de modo a procurar ultrapassar a linha defensiva do Atlético ou para alcançar zonas propícias ao cruzamento (para Bas Dost).

Video 4 Sporting org ofensiva.mp4

A alternativa: futebol mais direto

Caso esse espaço entre linhas não exista e o Sporting sinta dificuldades em ligar o seu jogo de forma curta e apoiada, é de prever que a equipa tente um futebol mais direto, o que pode acontecer de duas maneiras:

1- Um passe longo para Bas Dost disputar a primeira bola no ar (o holandês tem uma percentagem muito alta de duelos ganhos pelo ar neste tipo de lances), de modo a servir os extremos (Acuña e Gelson) ou o segundoavançado (Bruno Fernandes);

Video 5- jogo direto dost.mp4

2- Um passe longo para Bruno Fernandes, que irá realizar um movimento de dentro para fora (de uma zona mais interior para o corredor lateral), explorando o espaço entre o central e o lateral adversários.

Esse espaço pode ser criado por um movimento de aproximação de Gelson para o meio, uma vez que os laterais do Atlético Madrid marcam muito individualmente, seguindo de perto o jogador que estão a marcar.

Video 6 - bruno fernandes.mp4

Saídas rápidas para o ataque

Apesar do Atlético Madrid não ser uma equipa preocupada em ter a posse da bola durante muito tempo (nas 29 jornadas disputadas no campeonato espanhol tem em média apenas 48% de posse de bola), é de esperar que, jogando em casa, tenha mais iniciativa - nas duas eliminatórias anteriores da Liga Europa teve em média 57% de posse de bola nos jogos em casa.

Assim, o Sporting pode também ter nos ataques rápidos uma arma para conseguir chegar à baliza de Oblak.

Sendo o Atlético uma equipa bastante agressiva no momento em que perde a bola (tentam logo recuperar a bola na zona onde a perderam), é fundamental que o Sporting tenha capacidade para sair da zona de pressão criada pelos jogadores mais perto da bola.

Neste momento, William - recuperado de lesão - terá um papel fundamental, uma vez que é dos jogadores que melhor consegue proteger a bola e que tem mais capacidade para variar o centro de jogo, de modo a conseguir explorar a velocidade de Gelson em ataques mais rápidos e verticais, para conseguir 'ferir' o Atlético. E trazer a eliminatória para Lisboa.