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Os turcos, o futebol, a bancarrota e Erdogan (o contexto indispensável para perceber o Galatasaray - Benfica)

O Benfica joga na Turquia, com o Galatasaray, numa altura em que o futebol turco está falido e sob apertado controlo governamental

José Pedro Tavares, correspondente em Ancara

Anadolu Agency

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Quem olhar esta semana para a classificação da Superliga turca, pode ficar algo surpreendido — o campeonato tem sido completamente dominado pelo quase desconhecido Istanbul Basaksehir, que tem 8 pontos de vantagem sobre o Galatasaray, segundo classificado, e 11 sobre o Besiktas, terceiro. O gigante Fenerbahce está afundado em 12º lugar, a 21 pontos do líder.

Isto não é mais do que o reflexo da crise financeira e desportiva que o futebol turco atravessa — a somar ao declínio dos três gigantes do futebol turco (que entre eles ganharam 55 dos 62 campeonatos já realizados), que estão falidos, registem-se os falhanços da seleção nacional, que já não se apura para um campeonato do mundo desde o brilhante 3º lugar em 2002, e que tem tido prestações medíocres nas últimas fases de qualificação. Entre eles, o histórico Galatasaray, adversário do Benfica na Liga Europa (quinta-feira).

Privilegiando uma política de contratações milionárias e mediáticas (mas na maior parte das vezes desastrosas) de jogadores estrangeiros em fim de carreira — no último jogo para o campeonato o Galatasaray começou com um onze sem nenhum turco — os três grandes vivem a crédito há muito, e têm um historial de gestões financeiras e desportivas pouco sustentáveis e muito opacas. Agora, com a desvalorização da lira, que perdeu um terço do seu valor no ano passado, e o aumento significativo das taxas de juro, que agravam as dívidas galopantes, os clubes estão à beira da bancarrota.

Segundo Tugrul Aksar, um economista especializado em temas desportivos, a liga turca tem receitas de €500 milhões de euros (é a 7ª na Europa em termos de valor de mercado), mas a dívida acumulada dos seus clubes totaliza €2,3 mil milhões — sendo que 70% deste valor astronómico são dos três grandes. Só o Fenerbahce tem uma dívida de €620 milhões.

O colapso da indústria do futebol turco não é muito diferente daquele que está a acontecer a outros sectores da economia: um endividamento sem limites quando o dólar estava barato e o crédito fácil entrava a rodos, e um modelo de negócio que gasta muito mais do que aquilo que ganha. Em vez de apostarem nas academias, os presidentes dos clubes rivalizavam para contratar a estrela mais mediática. O limite de jogadores estrangeiros foi sendo gradualmente eliminado, e mesmo contratos com jogadores turcos eram feitos em dólares. Agora a bolha rebentou.

Isso explica em parte as saídas de muitos jogadores nos últimos meses — entre os quais o português Pepe (ex-Besiktas), o holandês Robie Van Persie (ex-Fenerbahce, que ganhava quase €5 milhões/ano), o francês Bafetimbi Gomis (ex-Galatasaray) ou a estrela turca Cenk Tosun, que o Besiktas vendeu ao Everton no verão passado. Os clubes turcos arriscam-se também a ser multados — ou mesmo a ficar de fora das competições europeias, ao abrigo das novas regras de fair play financeiro impostas pela UEFA, que tentam proteger a sustentabilidade financeira dos clubes. O Galatasaray já foi, aliás, afastado das competições europeias na época de 16-17, e em junho do ano passado voltou a ser multado em €6 milhões, enquanto a UEFA pré-notificou também o Fenerbahce e o Trabzonspor.

Ajuda do Governo

A escassas semanas de eleições locais, e num país onde o futebol é vivido intensamente, o Governo tomou as rédeas. Perante o colapso iminente, “o Presidente Erdogan e o ministro das finanças Albayrak [genro do Presidente] disseram que teríamos de resolver o problema o mais rapidamente possível. E pusemos mãos à obra”, explicou há umas semanas Huseyin Aydin, o presidente da associação de bancos turcos, ao anunciar um pacote de restruturação da dívida dos clubes, juntamente com Yildirim Demiroren, o presidente da federação de futebol: “Os nossos clubes já não têm finanças sustentáveis”, explicou Demiroren. “Vamos travar o crescimento da dívida, e permitir aos clubes respirar”.
Mas muitos questionam se as finanças públicas turcas podem suportar este resgate, enquanto outros criticam o controlo político do futebol. Aydin é o diretor-geral do banco Ziraat, tradicionalmente uma Caixa Agrícola, atualmente o maior banco público, que tem sido utilizado pelo Governo para muitas operações de resgate financeiro. O mesmo Ziraat financiou um empréstimo de €600 milhões ao próprio Demiroren para este comprar no ano passado o maior grupo media do país (Dogan). O presidente da federação de futebol está próximo do Governo e os jornais e canais de TV do seu grupo alinham pelo diapasão de Erdogan, ele próprio um antigo jogador semiprofissional, que vem agora salvar o futebol turco.

As ligações entre política e futebol manifestam-se de outras formas — o líder Basaksehir, que já na época passada tinha ficado em 2º lugar, é um clube recente, propriedade de uma empresa cujos acionistas são aliados de Erdogan. Sem qualquer história nem claques ou apoiantes, o clube é visto como um “projeto” do Governo para controlar o futebol. Mas a verdade é que dentro das quatro linhas eles têm dominado a todos os níveis, e estão à beira de se tornar a sexta equipa a ganhar a Superliga (fundada em 1957).