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Promessas quebradas

O Arsenal - Valencia parecia ter tudo para ser um grande jogo de futebol. Duas equipas à procura da salvação da época na Liga Europa, sistemas estranhos e 25 minutos iniciais de alta voltagem. Acontece que depois disso o Valencia ficou preso na sua própria estratégia e o Arsenal não teve ambição para mais. O 3-1 com que os ingleses vão ao Mestalla, com o terceiro golo a aparecer aos 90', saiu melhor do que a encomenda ao Arsenal

Lídia Paralta Gomes

Shaun Brooks/Getty

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O Arsenal-Valencia desta quinta-feira jogava-se em condições, digamos, interessantes. Porque não deverá ser muito comum duas equipas que estão a jogar uma meia-final da Liga Europa nesta altura decisiva em competições europeias e campeonatos entrarem em campo em crise e por crise leia-se três derrotas seguidas para os ingleses e duas para os espanhóis.

E quando há crise, ou semi-crise, como queiram, e há uma final e uma vitória na final que poderá dar um lugar na Champions do próximo ano, há cabeças a muito magicar.

Talvez por isso, as duas equipas começaram o jogo com esquemas pouco usuais, ambas com três centrais e com o Valencia a levar a coisa ainda mais longe, colocando mais um homem que habitualmente vemos no eixo da defesa, Diakhaby, na linha média.

E, verdade seja dita, com tanto ainda em discussão para Arsenal e Valencia numa temporada que tem sido média para ambos, os primeiros 25 minutos foram bem animados, com oportunidades, golpes e contra-golpes e três golos.

O problema é que o jogo tornou-se depois num conjunto de promessas quebradas, ainda que, no final, o Arsenal, com aquele golo já para lá dos 90' de Aubameyang, o golo que fechou o resultado em 3-1, vá a Valencia com a eliminatória se não na mão, pelo menos muito bem encaminhada.

GLYN KIRK/Getty

Falo em promessas quebradas porque o Valencia, naquele esquema estranho, entrou a dar muitas dores de cabeça ao Arsenal, que tinha bola, mas ao mesmo tempo muita dificuldade em ultrapassar as linhas bem definidas dos espanhóis na hora de defender. E depois já se sabe que os espanhóis têm em Gonçalo Guedes e Rodrigo dois homens muito rápidos para as transições.

Acabou por ser ainda assim de bola parada e em jogadas estudadas que os ché criaram perigo nos primeiros minutos. Aos 7', na sequência de um livre, os jogadores do Arsenal acreditaram num fora de jogo que, de facto, não existia e deixaram um batalhão de jogadores do Valencia em frente à baliza de Cech. Mas Garay, com tudo para fazer golo, rematou por cima.

Não foi à primeira, foi à segunda, com o laboratório de Marcelino a funcionar finalmente aos 11': num canto, Parejo enviou para o 2.º poste, Rodrigo amorteceu de cabeça e Diakhaby saltou mais alto que Xhaka e Lacazette. E estava feito o 1-0.

A estratégia do Valencia parece ter baralhado o Arsenal, mas não por muito tempo. Dando de beber ao Valencia o seu próprio veneno, que é como quem diz, numa transição rápida, o Arsenal empatou aos 18', numa jogada que passou pelos pézinhos de veludo de Ozil, seguiu para Lacazette que lançou Aubameyang. O gabonês ainda se atrapalhou na receção, mas depois teve a presença de espírito para parar, respirar e ver Lacazette a entrar na área em seu auxílio. A bola foi para o francês, a baliza estava semi-aberta e 1-1 no marcador.

GLYN KIRK/Getty

Seria novamente o avançado francês a dar volume ao crescimento do Arsenal nos minutos que se seguiram. Já com o Valencia a ressentir-se defensivamente de um sistema ao qual não está propriamente habituado, aos 25' Lacazette aproveitou as falhas de marcação na grande área para responder de cabeça ao bom cruzamento de Xhaka. Neto terá ajudado, com uma abordagem ao remate talvez demasiado suave, e a bola entrou mesmo, apesar do brasileiro ainda ter tentado emendar a defesa incompleta.

Estava assim virado o jogo, nuns 25 minutos iniciais animados, mas em que rapidamente o Valencia quebrava a sua promessa de surpreender no Emirates. Porque a partir daí, raramente conseguiu criar perigo, raramente conseguiu colocar a bola na velocidade de Gonçalo Guedes e nem por isso Marcelino também fez muito por mudar.

E se o Valencia quebrou a sua promessa, o Arsenal, dali até ao minuto 90', quando surgiu o 3-1, também não foi particularmente incisivo. Com os espanhóis dominados durante a 2.ª parte, como que presos no seu próprio sistema, os ingleses raramente imprimiram um ritmo que lhes permitisse chegar à baliza de Neto. Muita bola, muitas trocas, mas pouca ação. E por isso, oportunidades flagrantes só mesmo aos 63', quando Lacazette falhou de forma quase cómica o tempo de salto quando estava sozinho na área para cabecear, e cinco minutos depois, com o mesmo protagonista: em frente à baliza, o francês atirou duas vezes contra Neto.

O golo de Aubameyang aos 90' acabou por chegar numa altura em que pouco faltava para se jogar a ritmo de amigável, com o Valencia de mãos atadas e o Arsenal pouco ambicioso. Um jogo que teve tudo para ser um grande jogo, acabou por não passar de entediante.

Ainda assim, no meio destas promessas quebradas, sorri o Arsenal, porque 3-1 numa eliminatória a duas mãos é muito melhor que um 2-1, mesmo que, por vezes, até parecesse que os ingleses estavam satisfeitos em ir jogar a Valencia no fio da navalha.

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