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Em maio, bebendo orchata

Foi com a calma de quem bebe um refresco sentindo o ar do Mediterrâneo que Pierre-Emerick Aubameyang e Alexandre Lacazette voltaram a dar cabo da defesa do Valência. Depois do 3-1 em Londres, o Arsenal venceu no Mestalla por 4-2 e está na very british final da Liga Europa

Lídia Paralta Gomes

Alex Caparros/Getty

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Algures a meio do Valência - Arsenal chegou uma imagem à minha mente. Alexandre Lacazette e Pierre-Emerick Aubameyang, os dois avançados dos londrinos, os dois em relaxado passeio pela cidade de Valência, com o mar ali ao lado e aquelas cores claras e lânguidas de eterno verão que só o Mediterrâneo nos dá. Os dois a caminharem e a sentarem-se numa qualquer esplanada numa daquelas praças amplas do sul da Europa, daquelas que aparecem como um oásis no deserto depois de se serpentear por ruelas muito estreitas e abafadas. E a pedir orchata, a bebida típica de Valência, feita de leite e de chufa, que é uma espécie de tubérculo de sabor adocicado que dá à bebida uma textura cremosa e agradável.

É possível que esta imagem tenha sido desencadeada pela alta rotação que o novo álbum dos Vampire Weekend tem tido no serviço de streaming que pago todos os meses e por esses mesmos Vampire Weekend terem uma música, mais antiga, que arranca o segundo álbum, digo assim de cabeça, cuja primeira frase é qualquer coisa como “Em dezembro, bebendo orchata”.

Mas, mais ainda, digo eu, a imagem foi espoletada pelo absoluto passeio mediterrânico que foi não só o jogo desta quinta-feira como o de há uma semana para a dupla de ataque do Arsenal nesta meia-final com o Valência. Há uma semana, em Londres, cidade cinzenta e chuvosa em que uma orchata não cai bem, os espanhóis entraram com seis defesas e sofreram três golos, dois de Lacazette e um de Aubameyang. E na 2.ª mão, com o vento quente do sul na cara, marcaram mais quatro, um para Lacazette e três para Aubameyang.

No final, o agregado de sete golos para o Arsenal contra os três que o Valência marcou, espelha bem aquilo que aconteceu na eliminatória. Tal como na 1.ª mão, o Valência entrou bem e marcou cedo. Para cedo sofrer e perder-se completamente num emaranhado de erros defensivos e no poder daquela dupla de ataque, que se entende de olhos fechados e aproveitou todos os deslizes oferecidos - e foram muitos, principalmente nesta 2.ª mão.

Nick Potts - PA Images/Getty

Talvez o único momento em que a orchata esteve um bocadinho mais para o azeda para o Arsenal nestas meias-finais foi mesmo nos primeiros quinze minutos do jogo no Mestalla. Aos 11’, Kevin Gameiro terminou uma jogada rápida que começou no guarda-redes Neto, passou por Parejo, continuou no transporte de Guedes e no cruzamento final de Rodrigo. Uma jogada de grande objetividade que dava forma a uma entrada forte da equipa da casa, a jogar em 4-4-2 depois do intento falhado da 1.ª mão, com uma tática esquisita de cinco defesas, demasiado conservadora, demasiado na expectativa. E que não resultou.

Parecia bem o Valência, mais confortável, rápido, principalmente na esquerda, com Gayá e Gonçalo Guedes a criarem perigo com facilidade.

Mas tudo se desmoronou ao primeiro erro. Aos 17’, Cech lançou lá para a frente, para a correria de Aubameyang e Lacazette, a defesa do Valência, mal posicionada, não conseguiu cortar e o francês ganhou de cabeça, deixando a bola à mercê de Aubameyang que com uma meia trivela fez o empate.

A partir daí e até ao final da 1.ª parte, o jogo perdeu interesse. O Arsenal conseguiu suster o ímpeto valenciano, controlando com os olhos face à falta de réplica. E pelo meio, ainda ia criando algum perigo: Lacazette enviou uma bola ao poste a cinco minutos do intervalo depois de um cruzamento do colega de esplanada Aubameyang.

David Aliaga/MB Media/Getty

Na 2.ª parte a eliminatória ficou mais ou menos definida (e digo mais ou menos porque depois do que vimos nos últimos dois dias é arriscado dizer que qualquer jogo está definido) com o golo de Lacazette aos 50’, aproveitando uma série de erros de jogadores do Valência, primeiro a má receção de Parejo, depois Gayá que se deixou ultrapassar e por fim Picinni que não conseguiu cortar.

O Valência ainda voltaria pelo menos à discussão do jogo com um golo de Gameiro aos 58’, Garay ainda assustaria Cech de longe, mas aí acabou a reação da equipa da casa, de rastos e atreita a erros na defesa, como foi o do mesmo Garay, que se deixou antecipar a Aubameyang na área no lance do 3-2 e, já quase aos 90’, quando não evitou que o gabonês fosse isolado por Mkhitaryan, para assim este fazer o hat-trick. Tudo fácil, sem sequer forçar muito o andamento, tal a diferença de espírito competitivo entre as duas equipas e, claro, de qualidade no plantel, que também conta.

E é assim de forma mais ou menos tranquila, de orchata na mão, mesmo que não seja dezembro e estejamos ainda em maio, que o Arsenal segue para a final da Liga Europa. O Arsenal de Unai Emery, el señor Liga Europa, ele que já ganhou três e pode agora ganhar mais uma, lá longe em Baku, onde na primavera o ar também é quente.