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A história do mister 'cenerentola'

O Chelsea venceu o Arsenal, por 4-1, e conquistou a Liga Europa - o primeiro troféu da carreira do treinador italiano Maurizio Sarri, aos 60 anos

Mariana Cabral

Michael Regan

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Quando o relógio atingiu a meia-noite em Baku, no Azerbaijão, o sonho tornou-se real. Não, Maurizio Sarri não perdeu o sapatinho de cristal - seria difícil tal acontecer num treinador que teima em manter o fato de treino em treinos, jogos e conferências de imprensa - nem sequer saiu a correr da festa que viria a tornar-se, muito provavelmente, a mais marcante da carreira.

À meia-noite de Baku, Emerson, de pé esquerdo, cruzou para a área do Arsenal e Olivier Giroud, o ponta de lança mal amado pelos poucos golos que concretiza, deu a volta ao compatriota Laurent Koscielny e apareceu a voar de cabeça em direção à bola, fazendo o 1-0 para o Chelsea.

Aos 49 minutos da final da Liga Europa, a magnífica história de Maurizio Sarri ganhava novos contornos.

Michael Regan

O quarentão italiano que passava os dias como bancário na Banca Monte dei Paschi di Siena e as noites e os fins de semana como treinador a tempo parcial só começou verdadeiramente a viver do futebol no Empoli, da Serie B italiana, em 2012/13, já com 53 anos.

Sarri não lhe chama(va) propriamente trabalho - "cresci numa família de trabalhadores e se oiço alguém a falar de fazer 'sacrifícios' no futebol, zango-me" - porque, para ele, o futebol é um jogo e o jogo, sendo lúdico, tem de ser sinónimo de diversão - com bola no pé, claro está.

Foi por isso que, no Empoli, o futebol de Sarri impressionou pelo caráter ofensivo (e obsessivo, ofensiva e defensivamente falando - chegou ao ponto de ter dezenas de lançamentos laterais treinados ao pormenor), que permitiu à equipa ascender à Serie A, e foi por isso que, já no Nápoles, a partir de 2015/16, o futebol de Sarri voltou a impressionar pela veia dominadora, conseguindo discutir o título italiano com a infinita campeã Juventus.

E foi assim que, em 2018/19, um ex-bancário de 60 anos chegou ao banco do Chelsea: pelo jogo que as suas equipas protagonizavam. Porque, enquanto profissional, Maurizio Sarri tinha aquela expressão que José Mourinho um dia popularizou: zero titoli. Pior: no seu primeiro ano em Inglaterra, sofreu a bom sofrer, sendo sempre desdenhado por críticos por ser demasiado "romântico", adeptos - "fuck Sarriball", chegaram a gritar - e até jogadores, mas terminando a Premier League no mesmo lugar em que Pep Guardiola a terminou quando se estreou no City: 3º.

É, portanto, uma espécie de história da Cinderela - cenerentola, em italiano - futebolística: começou bem lá em baixo, subiu a pulso e passou por dificuldades até chegar ao conto de fadas com que todos sonham.

Isto é: viver do futebol, jogar o jogo que se idealiza (dentro do possível, pois claro, porque todo o jogo pensado é utópico) e, por fim, conquistar troféus.

Valerio Pennicino - UEFA

O Chelsea venceu a final da Liga Europa, por ter sido melhor do que o Arsenal, particularmente na 2ª parte, depois de um primeiro tempo pouco entretido em que a equipa de Unai Emery (treinador que já contava com três troféus da Liga Europa no currículo) procurava impedir de forma agressiva a construção apoiada do Chelsea.

Um par de defesas excecionais de Cech - completou, aos 37 anos, o último jogo da carreira - mantiveram a igualdade, pelo menos até ao tal badalar da meia-noite - sim, a final da Liga Europa foi mesmo disputada a horas impróprias para quem lá estava, num local em que ninguém queria jogar (e em que o armeno Mkhitaryan, do Arsenal, nem pôde entrar) e, talvez por isso, as bancadas do estádio chocavam por estarem tão vazias.

Ainda assim, os adeptos ingleses que lá estavam viram que o Chelsea se superiorizou ao Arsenal na 2ª parte, cortesia de Giroud e, também, de Eden Hazard, outro que deve ter dito adeus nesta final, uma vez que provavelmente irá para o Real Madrid na próxima época. Aos 60 minutos, depois de uma grande recuperação de bola de Jorginho no meio-campo alheio, Hazard recebeu pela esquerda e ofereceu o golo, no centro da área, a Pedro, o veterano espanhol que foi titular, provavelmente pela experiência que detinha em jogos assim, preterindo Willian para o banco.

O Arsenal ainda mal estava refeito do 2-0 quando Maitland-Niles derrubou Giroud na área. Hazard aproveitou a oferta para bisar de penálti e fixar o jogo num 3-0 que parecia irreversível, dada a fraca réplica dos gunners.

OZAN KOSE

Emery mexia então na equipa - a bem da verdade, já se preparava para mexer quando sofreu o 3-0 - tirando Monreal e Torreira e fazendo entrar Guendouzi e Iwobi, e foi mesmo este último a ter logo efeito imediato no jogo, ao reduzir com um grande remate de fora da área.

Ainda assim, o 3-1 serviria de pouco: novamente numa recuperação de bola no meio-campo adversário, Hazard desmarcou Giroud pela esquerda e depois recebeu a bola na área para fazer o 4-1 final - antes de ser substituído para as palmas.

Nos últimos minutos, Willock, numa excelente combinação com Lacazette, ainda se viu em frente a Kepa, mas não acertou na baliza.

E o Chelsea conquistou a sua segunda Liga Europa. O primeiro troféu da carreira de Maurizio Sarri, italiano que pode voltar a casa... para a Juventus. Agora já pode ir descansado: ganhou, por isso já é bom. É assim que se avalia os treinadores, não é?