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Quem não arrisca, também petisca

O LASK Linz é o vice-campeão da Áustria que foi a Alvalade defender com um bloco muito alto, não deixar um adversário sem pressão e ser intenso a reagir à perda da bola. Rematou e criou muito mais oportunidades, mas perdeu (2-1) com o Sporting de Silas, que apenas marcou na segunda parte quando deixou de fazer o que o novo treinador mais gosta: arriscar na saída de bola

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Há mil e uma formas de uma equipa ter a bola, olhar em frente e tentar chegar à baliza dos outros. Por hábito, ou lugar-comum, ou de tantas vezes se dizer uma ideia que ela se torna verdadeira, à força, só pelo milagre da repetição; ou, sendo sincero, nem sei bem o porquê, o sair a jogar rasteiro, na própria área e com o guarda-redes, é tido como o mais arriscado que se pode fazer no futebol.

Silas, porém, gosta bastante.

E importa-se tanto com isso do risco ser arriscado quanto um cachalote, algures no fundo do mar, se preocupa se vai chover, ou não, nesse dia. “Já nos conhecem e sabem que somos atrevidos”, disse ele, quando foi apresentado. Mas, desconfio, Silas não estará a marimbar-se para o risco como estão Wiesinger, Holland, Michorl, Frieser, Goiginger ou Raguz.

Não eram conhecidos, pouca gente saberia que eram loucos, mas bons malucos, a reagirem a duas bolas quase dadas pelo Sporting. Pressionaram, com linhas subidas, foram intensos a fechar o espaço ao portador da bola e Renan, aos 30 segundos, já esticara a perna e os braços para contrariar dois remates dos equipados de rosa, do clube de nome com siglas, do país que nunca teve uma equipa a não perder com o Sporting.

Coisas irrelevantes, que provam nada e valem nenhures, e lá foram os austríacos, sempre intensos a não deixarem que um adversário recebesse a bola à vontade, que, sequer, se virasse com ela. A definirem a primeira e a segunda linhas de pressão de um bloco compacto, que nem um tanque, no meio campo do Sporting, junto à área. E, sobretudo, a serem coletivamente espertos.

O LASK deixava cinco ou seis jogadores sempre subidos, a só deixarem que um dos centrais recebesse de Renan e, à primeira bola trocada entre eles, caíssem na pressão correndo de dentro para fora, obrigando o Sporting a jogar pelo lado que pretendiam e, aí sim, fecharem os espaços e as linhas de passe. Resultou, sempre, durante quase uma hora.

Esse passe entre centrais era, por tradição, de Coates para Mathieu, do menos dotado de pés para filtrar a bola para o mais capaz de dar vazão certeiro, rasteiro e tenso à saída da área. Era sobre o francês que caíam os gatilhos de pressão e foi do seu lado que mais bolas o Sporting perdeu nos primeiros 30 metros.

Cada insistência em sair de trás pela relva, de forma apoiada, era uma bola perdida.

Não apenas por Acuña pedir nos espaço e não se dar como opção no pé, por Doumbia não dar menos de cinco, seis toques em cada bola que receba de costas, por não se perceber se Neto era um terceiro central (para igualar a pressão dos austríacos e a dividir) ou um lateral adaptado, ou por Wendel e Bruno Fernandes tão pouco se aproximarem como linhas de passe vertical.

Mas, sim e sobretudo, porque o LASK pressionava muito alto, com o bloco junto, com todos os jogadores agressivos ao apertar quem pudesse receber a bola e a simplificarem, ao máximo, as ações que tinham ao recuperarem a posse. Reiser, Goiginger e Raguz remataram, várias vezes cada um, o último marcou (16’) e as oportunidades que desperdiçavam eram tantas quantos os méritos que tinham.

Carlos Rodrigues/Lusa

E, num canto, a bola parou e deixou de interessar o ritmo, a intranquilidade, a confiança e a dinâmica do jogo. A cabeça de Luiz Phellype desviou o que Bruno Fernandes cruzou e o Sporting, de repente (56’), empatou.

Já tinha uma linha de quatro na defesa, havia a calma de Vietto na frente e o potencial de condução de bola de Eduardo, ao meio O Sporting, porém, apenas se atinou a defender, porque juntou as linhas, compactou-se e deixou de arriscar a saída da área em passes curtos.

Para fugirem à brutal reação às perdas de bola do LASK, o inapto Renan, o intranquilo Coates e o rendido Mathieu bateram cada recuperação para a frente, durante 45 minutos. Um desses pontapés, vindo de Renan, foi apanhado por Luiz Phellype, que aproveitou uma raríssima apatia dos austríacos para deixar Bruno Fernandes na área (63’), com espaço, rematar o 2-1.

Em três passes o Sporting virou o resultado, mas não o jogo, que continuou a ver o LASK com mais bola metade do campo adversária, a rematar e a acertar mais vezes. Mas, baixando as linhas e evitando a pressão alta ao despachar as saídas para a frente, os austríacos demorariam eram obrigados a atacar com calma, em posse, com mais passes.

A pensarem como desmontar a organização do Sporting e não a reagirem, diretos e imediatos, a uma bola recuperada a menos metros da baliza de Renan.

Insistiram, remataram e tiveram outras oportunidades, avançaram a equipa e puseram-se a jeito para, a acabar, Luiz Phellype ver uma grande parada de Schlager bloquear o fim de um contra-ataque que tivera um mundo de espaço para explorar.

O LASK Linz do bloco alto, sem dar espaços para a construção apoiada, intenso a reagir à perda de bola e vertical nos poucos passes que precisa para, nessa forma de jogar, criar oportunidades, foi a melhor equipa, mas perdeu. O Sporting fartou-se de errar, não controlou a bola, foi incapaz de sair de trás com passes curtos e apoios frontais e só acertou quatro remates na baliza (contra sete dos austríacos), jogou mal, mas ganhou.

Porque o treinador, cujo confesso estilo é “arrojado e arriscado”, deixou de arriscar no ponto que mais gosta. Silas venceu pela segunda vez em cinco dias durante os quais pouco, ou nada, terá conseguido treinar. Controlou os danos na primeira semana e, agora terá duas para trabalhar, testar e melhorar o que, até aqui, só pôde experimentar em jogo.

Terá, finalmente, algum tempo para treinar o risco.