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Uma tarde fria e chuvosa em Greymarães

Às 15h50 de uma quarta-feira, houve um jogo da Liga Europa no estádio do Vitória, onde o frio e a chuva lhe deram o melhor disfarce possível de intempérie inglesa, onde o Arsenal marcou no único remate que acertou na baliza. A equipa de Ivo Vieira apenas empatou (1-1) nos descontos de hora e meia com tiques do que o treinador queria evitar: uma vitória moral

Diogo Pombo

Octavio Passos/Getty

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Enraizou-se, na última década, um certo cliché de os ingleses que comentam, escrevem e analisam o seu futebol, de meio-elogiarem os feitos novatos de uma qualquer equipa, ou um jogador, perguntando: mas, será que o conseguem fazer numa fria e chuvosa noite, em Stoke?

Pela televisão, porque jamais lá estive, é senso comum ter Stoke-on-Trent como terra onde muito chove, venta e faz frio, o que, conjugado com uma equipa rija, sem nada contra as faltas e bastante a favor do pontapé para a frente e correr. Banalizou-se a perceção do lugar como um dos mais agrestes para se jogar à bola em Inglaterra.

Virou uma suposta escala de aferição, como se fosse ali, no meio da intempérie à antiga, que se devia provar ter calo. A coincidência fez com que, às anormais 15h50 de uma quarta-feira, Guimarães estivesse fria e chuvosa, ajudando a que Jack Lang e os jornalistas britânicos “se sentissem em casa”.

É uma anormalidade e Portugal não é, de todo, normal em horários de futebol, mesmo que a culpa, neste caso, seja da UEFA, por querer evitar “congestão de tráfego” caso houvesse jogos no mesmo dia em Braga e “Greymarães”, assim renomeada pelo jornalista do “The Athletic”, presente no estádio, de onde nos escreve que ele e os restantes jornalistas britânicos “nunca tinham trabalhado num jogo tão cedo, durante a semana”.

Sejam, portanto, bem-vindos à não vulgaridade, que também é ver o Vitória, mesmo que pelo segundo jogo consecutivo, a ter bem mais facilidade nos pés e na bola para chegar à baliza do adversário e ameaçá-la com remates. Ao intervalo, eram 10 contra um tentado pelo Arsenal, entre o míssil reto de Pêpê ao poste e a bola curvada por Lucas Evangelista, desviada pelo guarda-redes Martínez.

Como em Londres, o Vitória deixou os centrais contrários terem tempo na bola, apertou os espaços ao centro, obrigou os ingleses a só tentarem por fora. Matou muitas jogadas longe da área de Douglas e conseguiu cingir os jogadores a optarem pelas decisões fáceis e os passes simples, fiéis ao modus operandi até a equipa ter Davidson, Edwards ou Evangelista nos metros de campo onde já podiam fazer mal à baliza do Arsenal.

ESTELA SILVA/Lusa

Não que o truque estivesse na intensidade, porque o que de melhor o Vitória fazia era ter os jogadores nos sítios e momentos certos, bem posicionados. Mas, com os minutos, mais lentos ficaram nas reações, juntaram as linhas e não se revoltaram, com pressão, contra o maior tempo com bola que coincidiu com a entrada dos caracóis ambulantes de Guendouzi.

O Arsenal ganhou ordem e conforto com a bola, também já tinha as receções de Lacazette na área, ligou jogadas até mais longe, mas, só rematou na baliza quando houve um livre para Pépé cruzar. Os jogadores do Vitória ficaram parados, de apoios trocados e apáticos a cobrir o espaço no momento que Ivo Vieira lamentara ter pouco tempo para trabalhar. Mais uma vez, um golo sofrido de bola parada.

Nos 10 minutos que restavam, o Vitória esforçou-se para acelerar até ao ritmo que tivera na primeira parte. Atacou com mais jogadores, o primeiro ou segundo passe tentavam deixar os extremos na frente de um adversário, nas alas. Bruno Duarte bateu para a bancada um oportunidade na marca de penálti, o poste evitou um auto-golo de Mustafi, o pequeno Rochinha também rematou para este jogo imitar todos os anteriores da equipa na Liga Europa: os vimaranenses a acabarem como a equipa com mais remates em campo.

Mas, para variar, terminou com pontos e não tanto com uma vitória moral que o treinador desdenhara. O irrequieto Edwards sprintou uma última vez até à linha de fundo, picou a bola, o acrobata Bruno Duarte chutou-a de bicicleta e foi o ressalto na relva que fez o empate passar pelos vários jogadores do Arsenal que tentaram proteger a baliza.

Os vimaranenses somaram o primeiro ponto na Liga Europa e, sim, conseguiram fazê-lo numa tarde fria e chuvosa em Guimarães, caso esta ordem das coisas servisse de medida para qualquer coisa.