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Benfica, apresento-te a terceira divisão europeia. Acho que se vão dar bem

É isto que acontece quando a vulnerabilidade defensiva empata a invulnerabilidade ofensiva: a história descamba e pela primeira vez o Benfica é eliminado nos 16 avos da Liga Europa onde já não há equipas portuguesas. O nosso futebol bateu de frente com o espelho. E estilhaçou-se

Pedro Candeias

Soccrates Images

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Um de cada vez, Braga, FC Porto e enfim Sporting foram progressivamente eliminados por adversários de valias diferentes e por resultados diferentes - as gradações de escandaleira foram obviamente diferentes também.

Assim, pois, o Benfica iria entrar em campo na Luz com o Shakhtar Donetsk da Ucrânia como o último resistente do contingente português na Liga Europa, que até era o maior entre os que viajavam nesta segunda liga europeia.

Das quatro, ficaram três e acabou por ser uma questão de tempo até estar nenhum: em 24 horas, o futebol português dos múltiplos milhões em vendas de jogadores, do Ronaldo, do Euro2016, da Liga über profissional e da Federação altamente sofisticada (e bem relacionada) - e, vá, dos pequenitos probleminhas das alegadas corrupções, violências verbais e físicas - bateu de frente com o espelho. E partiu-se em bocadinhos.

Dos outros, já se escreveu aqui na Tribuna Expresso, pelo que vamos passar sem delongas ao Benfica 3-3 Shakhtar Donetsk (4-5, no combinado), que eu tenderia a resumir da seguinte maneira:

O Benfica está defensivamente fragilizado, é um facto assumido, e Bruno Lage não encontra forma de resolver a coisa, pois os golos continuam a entrar na baliza de Vlachodimos, sobretudo na Luz, onde há sete encontros consecutivos o grego cruza a linha para ir buscar a bola.

O treinador, que tem o mérito de não ser um negacionista, reconhece e atribui os tremeliques ao “momento” e insiste na ideia do futebol positivo que consiste, basicamente, em marcar mais do que sofrer, para lutar contra a inevitabilidade.

Ou seja, sim, aquele lado entre Ferro e Grimaldo é um íman para a asneira, a transição defensiva é pouco agressiva “porque não é esse o ADN” dos futebolistas do Benfica (Lage dixit), mas, caramba, se a equipa pressionar alto e recuperar a bola à frente e concretizar as oportunidades criadas pelo talento, tudo se compõe.

Bom, mais ou menos.

Porque, como se viu aqui, basta a vulnerabilidade defensiva empatar a invulnerabilidade ofensiva para a história descambar - o Benfica fez o 1-0 num belo golo de Pizzi (9’) e sofreu um autogolo de Rúben Dias no 1-1, após jogada, precisamente, pelo lado de Ferro e de Grimaldo; o Benfica fez o 2-1 numa redenção temporária num salto de Rúben Dias (36’) que falhou o pulo no 3-2 de Stepanenko (pelo meio, Rafa Silva, com jeito, fizera o 3-2); finalmente, Alan Patrick estilhaçou a esperança encarnada, aproveitando um notável desequilíbrio individual (falha de Tomás Tavares) e coletivo.

O Benfica não foi, então, controlado tatica nem emocionalmente, submetendo-se variadas vezes a dificuldades desnecessárias quando até parecia ter o jogo empacotado. Lá à frente, a teoria passava à prática e a vontade de roubar a bola traduziu-se em recuperações eficazes; lá atrás, era tudo uma questão de instinto, de quem-devia-estar-aqui-eras-tu entre Ferro e Grimaldo, etc.

Ora, é verdade que jogaram Chiquinho e Dyego Sousa de início, como se Lage não estivesse assim tão interessado na Liga Europa, e é indesmentível que, com Seferovic e depois Vinicius, a formação da Luz até podia ter reentrado na eliminatória em alguns lances de relativo perigo.

Mas não é de somenos avisar para o seguinte: pela primeira vez na sua história o Benfica não ultrapassa os 16 avos de final da Liga Europa. A segunda divisão europeia começa a ser curta para a Luz.

Felizmente, para o Benfica, isto não é só com ele. Infelizmente, para Portugal, isto é com todos nós.