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Eis Sporting, um desastre que pediu para acontecer

O 3-1 trazido de Lisboa fez Silas entrar com o Sporting sem o sistema habitual, com o bloco baixo e uma equipa apática, desorganizada e sem plano aparente para reagir, em Istambul, ao acessível Basaksehir, que levou o jogo para prolongamento e acabou por marcar o quarto golo (4-1) a dois minutos do fim. O Sporting foi acumulando más decisões em campo e no banco, os turcos foram forçando e fizeram com que, ao final de fevereiro, não haja mais coisas a disputar para uma equipa calamitosa e sem rumo

Diogo Pombo

TOLGA BOZOGLU/Lusa

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Outro dia, não sei se desatinado, ou invadido por um rasgo de impertinência, dei por mim a pensar como o futebolista é um auto-didata solitário, que convive com gente que foi ensinada para estar com ele. É um aprendiz de arte que se aprende praticando, havendo jeito prévio para tal, que passa o seu tempo de vida útil equipado, com bola, a receber ordens de gente que, por obrigação, tirou cursos para o poder treinar.

Lá vai o jogador, vivendo e aprendendo, das escolinhas à formação e acabando nos seniores, limando a convivência com a bola, o espaço e os outros jogadores, agindo e reagindo a tudo, se possível crescendo de nível enquanto lhe cresce a idade, o tamanho, a força e demais atributos. Faz o que sucessivos treinadores cursados o queiram ver a fazer, enquanto se cursa a ele próprio nisto de jogar futebol.

Muito dizem os treinadores que o início de um jogo é o mirrar da sua influência. Há padrões de equipa, comportamentos coletivos, todos mexerem-se assim se assado acontecer, uns a posicionarem-se aqui quando outros se movimentam para ali. Mas, rolando a bola, quem joga é que decide como agir, portanto, as decisões de Max, Ristovski, Coates, Illori, Acuña, Battaglia, Wendel, Bolasie, Jovane, Vietto e Sporar ditariam o que o Sporting fizesse em Istambul.

Por mais que tivessem acordo com os pés dentro de um pote de arrojo, criatividade e vontade em serem ousados, contudo, o cursado e, simultaneamente, sem curso Silas, pareceu dar a ordem a que se contivessem. E contidos lá entraram eles, linhas recuadas em campo, Sporar a montar a primeira linha de pressão em campo próprio e todos simétricos atrás do esloveno.

Deram toda a bola e consequente iniciativa do mundo ao Basaksehir, a lentos e previsível equipa turca, limitada a tentar tabelas nas alas, tão unilateral em associar os dois jogadores de cada corredor quanto o Sporting era, como um todo, em campo: apático, intenso em nenhures, sem linhas de passe com bola pois, ao recuperá-la, ninguém se mexia, nenhum jogador rompia com um movimento, vivalma se oferecia em apoio.

Era um Sporting murcho e amorfo, assim feito, também, porque Silas achou por bem jogar sem os três costumeiros centrais, distribuí-los em 4-3-3 em que a regra parecia ser afastar os setores, distanciar os jogadores uns dos outros com bola e todos se juntarem em bloco baixo, sem ela, pondo-os a jeito do que aconteceu.

Um-zero vindo de um canto em que Max parou o primeiro remate e não fechou as pernas para barrar o segundo, de Skrtel; dois-zero surgido no livre de Aleksic em que o mesmo Max se ajoelhou com um golpe de vista. A segunda parte começava com o virtual Sporting - como quem diz, esta simulação da equipa competente com bola, vertical no jogo interior e a pressionar no campo todo - virtualmente fora da Liga Europa.

NurPhoto

Logo na bola de saída, os jogadores que, há três jogos seguidos, vinham evoluindo, tocando rápido a bola, quebrando linhas de pressão com tabelas e jogadores a servirem de parede, mostraram não terem desaprendido o que vinham a melhorar, todos passando curto e avançando até Ristovski cruzar e Vietto, de primeira, obrigar o guarda-redes a esmerar-se como o Sporting nunca fizera antes.

A equipa já pressionava alto, a primeira linha a condicionar a saída turca, Vietto já se mexia ao centro ou entre central e lateral, nas entrelinhas, Wendel já ligava passes com o argentino e o critério, com bola, agradeceu quando Gonzalo Plata substituiu o errático primeiro toque de Bolasie, também já o Basaksehir, em contra-ataque, deixara Demba Ba a rematar duplamente na mesma jogada para Maximiano salvar a baliza.

Nunca o Sporting foi muito criterioso na posse de bola, não a recuperou rápido, mal a perdesse, não passou a preencher muito melhor os espaços, mas, avançando as linhas e acelerando um pouco o ritmo de passe, puxando Vietto para as saídas de pressão, conseguiu criar jogadas com fim na outra área. Até Acuña cruzar uma bola para a cabeça do pequeno argentino marcar o resgate da eliminatória.

Faltavam 22 minutos.

Tempo para, aos poucos, se desencadear uma série de decisões, que funcionaram como sinais subliminares para acomodarem o Sporting ao que acabaria por acontecer. Voltar a baixar o bloco em campo, encostar os pés e a cabeça criteriosos de Vietto à linha, para longe do curto raio de alcance das posses de bola, esticar a equipa com vertigem para a frente, até à área, em três contra-ataques seguidos, nos últimos cinco minutos, não concretizados por Doumbia, Battaglia e Sporar e a partirem a equipa pelo meio, com vantagem na eliminatória.

E, por fim, fazer uma substituição antes de um canto defensivo, contrariando a panaceia que sempre ouvimos ser aconselhada, precisamente o canto cuja segunda bola acabou em Edin Visca, já que o Sporting se organizou com todos os jogadores dentro da área, nenhum à entrada, para o capitão do Basaksehir cortar para dentro e rematar para o prolongamento, nas barbas de outra decisão calamitosa.

Contra um destro, Ristovski fechou-lhe o pé esquerdo, inclinou-se para fora, abriu o lado forte do adversário e ainda tentou adivinhar-lhe a finta.

SEDAT SUNA/Lusa

Resumindo, calamitosamente, este conjunto de ações, pareceu que os jogadores do Sporting tinham desaprendido a tomar boas decisões para o bem da equipa, enquanto o treinador não os ajudava com o que estava ao seu alcance decidir.

Houve prolongamento. Foram mais 30 minutos de arrastamento desordeiro em campo, reduzida intensidade nas ações, Sporting a defender junto à área, Eduardo, Doumbia e Battaglia a nada produzirem para ligar sectores, toda uma equipa apática e a ter apenas Plata a tentar um remate curvado, à entrada da área, aos 103’.

Depois, sem forçar muito, à boleia do fantasma de verões passados de Robinho, incapaz de sprintar, e de Viska, o Basaksehir foi, lentamente, forçando, levando jogadas até à cruzando, cruzando bolas e, pelo menos, conseguindo tentar que isto não chegasse aos penáltis. A dois minutos de tal suceder, Vietto fez Júnior Caiçara cair na área, Viska bateu o 4-1 e o jogo terminou ali, consequência de outra decisão despida de tino.

Assim caiu o Sporting, sofrendo quatro golos de uma equipa à qual marcara três, jogando menos que o Basaksehir que pouco joga, tendo futebolistas que decidiram quase sempre mal. Resistiu à catástrofe fazendo o suficiente para a adiar, não para a evitar. A 27 de fevereiro, o Sporting ficou sem Liga Europa quando já não tinha a Taça de Portugal e a da Liga, tendo 18 pontos a menos que o líder do campeonato.

Este Sporting, um conjunto de jogadores que, juntos, fazem uma equipa que se ajeitou para ser um viveiro de más decisões, também, porque o treinador decidiu mudar o que vinha sendo habitual no jogo em que se decidia o futuro competível da equipa, contradizendo o estilo e a postura com que chegou ao clube.

Não era um desastre à espera de acontecer, foi um desastre pedido que aconteceu mesmo.