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Quem disse que o jogo tipicamente italiano morreu?

O Shakhtar Donetsk de Luís Castro tentou ser a equipa do passe curto e do futebol apoiado que sempre nos habituou, mas do outro lado estava uma raposa velha chamada Inter, a mostrar que o cinismo da tática ainda não deixou completamente a massa do sangue dos italianos. Exímio a fechar os espaços à equipa ucraniana, o Inter aproveitou primeiro os erros e depois o desmoronar do Shakhtar para construir um 5-0 gordo - talvez até demasiado gordo - e garantir um lugar na final da Liga Europa, onde já estava o Sevilha

Lídia Paralta Gomes

Lars Baron/Getty

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Andámos maravilhados todo o ano com o jogo de olhos na baliza da Atalanta, a equipa da Europa que mais golos marcou em 2019/20. Fizemos o funeral ao cinismo italiano, à eficácia de cubo de gelo nas veias, ao maquiavelismo em forma de futebol. Catenaccio nunca mais, isto agora é pé no acelerador.

Só que a Atalanta não é toda a Itália, claro que não, e o Inter de Milão está aí para nos dizer que o jogo tipicamente italiano - ou vá, uma versão disso - continua vivo, continua eficaz, continua a fazer vítimas entre os incautos adoradores dos passes curtos, do futebol apoiado, da procura dos espaços.

Porque espaço foi coisa que o Inter nunca deu ao Shakhtar Donetsk esta segunda-feira à noite em Dusseldorf, construindo uma teia da qual a equipa de Luís Castro não conseguiu sair. O resultado, 5-0, que coloca o Inter na final da Liga Europa, em que vai defrontar o finalista honorário Sevilha, é pesado e talvez enganador, mas um espelho da fria execução de um Inter que controlou o jogo sem bola e, quando a realidade se abateu por cima das cabeças dos jogadores da equipa ucraniana, foi à procura de sangue, aproveitando com uma eficácia infernal cada erro do Shakhtar, marcando três golos nos últimos 15 minutos de jogo.

Já se sabia que o Inter - Shakhtar seria um confronto de estilos, que os italianos seriam mais, lá está, italianos e o Shakhtar tentaria rendilhar o jogo, apoiado no equilíbrio e segurança que Stepanenko dá no meio-campo. Num jogo de paciência, a equipa de Luís Castro rapidamente tomou conta da bola e jogou o jogo da paciência, com passes curtos, um constante carrossel, variações contínuas, numa incessante busca pelo espaço que raramente apareceu - no último terço, o Inter esteve praticamente infalível e raramente se desorganizou.

SASCHA STEINBACH/Getty

Para tornar ainda mais complicada a vida do Shakhtar, aos 19’ apareceu o erro da praxe de Pyatov. O guarda-redes dos ucranianos aliviou mal e a bola foi ter com Barella que aproveitou o desequilíbrio momentâneo do adversário - que até aí tinha sido bastante competente a anular Lukaku - para cruzar, cruzamento que foi encontrar a cabeça de Lautaro Martínez.

Com 1-0, a ideia do Shakhtar não se moveu nem um milímetro. Marcos Antônio e Alan Patrick começavam aquilo que Marlos e Taíson acabariam por nunca conseguir: dar a bola a Junior Moraes pelo blindado corredor central. E só quando se afastou ligeiramente da sua ideia é que a equipa de Donetsk conseguiu chegar pela primeira vez com perigo à área do Inter: Dodô, depois de uma abertura alquimística de Matvienko, cruzou para Moraes, mas o remate não saiu bem ao brasileiro internacional pela Ucrânia.

A 1.ª parte terminaria com mais uma oportunidade para o Shakhtar, com Marcos Antônio, após um longo lance de insistência da equipa de Luís Castro, a tentar por todos os lados sem nunca ter uma nesga de espaço, a rematar de longe, um remate quase desesperado e que, na verdade, não passou nada longe da barra da baliza de Handanovic.

Os primeiros 45 minutos mostravam assim duas equipas a maximizar aquilo em que são boas, com o Inter a brilhar na pressão e na organização defensiva e o Shakhtar a fazer dançar a bola - o que marcava a diferença era apenas o erro de Pyatov.

A seguir ao intervalo o jogo não mudou de figura, ainda que, a pouco e pouco, o Shakhtar começasse a perder o discernimento. A entrada do avançado israelita Solomon não teve os efeitos desejados de dar mais peso e presença ao ataque dos ucranianos, ainda que tenha coincidido com a mais perigosa das oportunidades do Shakhtar: aos 62’, cruzamento de Matvienko, um raro erro de marcação dos centrais do Inter e Junior Moraes a cabecear, mas à figura de Handanovic.

SASCHA STEINBACH/Getty

Poderia ser o início de qualquer coisa, mas o Inter tem o pragmatismo do norte de Itália. Num timing perfeito, dois minutos depois e sem deixar sequer que o Shakhtar se entusiasmasse, na sequência de um canto D’Ambrosio saltou mais alto que Matvienko e fez o 2-0. A partir daí, o Shakhtar não só não entusiasmou como se desmoronou, como se todo o trabalho de paciência e insistência numa ideia de jogo fosse um balão que vai perdendo o ar. E o que se seguiu foi uma série de erros na primeira fase da construção que o Inter aproveitou de forma maquiavélica, com uma frieza e eficácia de assassino a soldo.

Aos 74’, Stepanenko, até então a fazer um jogo irrepreensível, errou na saída, deixando Lautaro pronto para bisar. E depois apareceu Lukaku, apagado durante todo o jogo graças a uma marcação sem mácula de Khotcholava, a marcar aos 77’ e 83’, o primeiro em mais um erro de construção e o segundo numa arrancada impressionante, na medida em que estamos a falar dos derradeiros minutos do jogo.

E assim se fez um resultado pesado para a equipa de Luís Castro, que tentou ser igual a si mesma e talvez só não tenha tido outra sorte porque a organização do Inter esteve praticamente perfeita durante os 90 minutos. A defesa, dizem, ganha campeonatos. Neste caso poderá ajudar a ganhar um troféu, não à nova maneira transalpina que a Atalanta parece querer tornar imagem de marca, mas sim à antiga, com o cunho de Conte e de um conjunto de jogadores mais duros e coesos que rocha vulcânica.