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Liga Europa

Está na hora de começarmos a chamar-lhe Liga Sevilha

O Sevilha bateu o Inter Milão por 3-2, conquistando assim pela 6.ª vez nos últimos 14 anos a Liga Europa, uma especialidade altamente específica, mas que dá um lugar na história europeia a uma equipa tantas vezes inconstante dentro de portas, mas um animal competitivo na hora do mata-mata

Lídia Paralta Gomes

Fernando (ex-FC Porto), a festejar com as duas bandeias do seu coração, a brasileira e a portuguesa

Soccrates Images

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Aqui há uns anos era vizinha de um restaurante simples e tradicional, onde não se comia maravilhosamente mas, posso dizer, bastante bem. E, essencialmente, bastante bem para aquilo que se pagava, muitas vezes contas que nem chegavam a dois dígitos. Os grelhados cumpriam na perfeição a sua missão de aconchegar o estômago, os jaquinzinhos fritos com arroz de tomate eram bem crocantes, só o arroz de cabidela era francamente mau, mas pode ser esquisitice minha, que acho que não há nenhum arroz de cabidela como o da minha mãe.

Mas havia um prato naquele restaurante com paredes de azulejo e toalhas de papel que era verdadeiramente de nível superior: um pernil no forno como não comi em mais lado nenhum, nem vindo do forno dos meus pais nem sequer dos restaurantes mais requintados em que uma especialidade destas pode custar o valor de vários dias de trabalho.

É um bocadinho como Sevilha, que anda há anos e anos a fazer boas mas nunca excecionais campanhas no campeonato, para depois chegar à Liga Europa e ter ali a sua grande especialidade, o seu prato de exceção, a competição em que é superior, a si mesmo e aos outros. É uma história de amor, como disse e muito bem o meu colega Pedro Candeias depois da meia-final, uma história de amor em que os números são de levantar o sobreolho: desde 2006, há 14 anos portanto, que o Sevilha já ganhou por seis vezes a Liga Europa, o que não anda muito longe de uma eficácia de 50%.

Desta vez, e principalmente depois daquela meia-final que o Inter fez com o Shakhtar, os andaluzes nem seriam favoritos, mas se calhar temos de aprender que nisto da Liga Europa o Sevilha será sempre favorito, as vitórias em 2006, 2007, 2014, 2015, 2016 e agora em 2020 dizem-nos isso, e talvez tenhamos até de começar a chamar a competição de Liga Sevilha e não Liga Europa, porque nesta taça a Europa está ali concentrada nas margens do Rio Guadalquivir e para todos os outros é apenas um desejo impossível de alcançar - que o diga o Benfica.

Wolfgang Rattay / POOL

São seis taças, seis como os títulos dos Bulls e esta sexta-feira até houve uma last dance, de Éver Banega, que depois de levantar mais uma Liga Europa, a terceira, vai ganhar dinheiro para as arábias, o que é uma pena porque ainda há muito futebol naqueles pés e ele é o homem que varia o jogo do Sevilha. Foi ele que ajudou tornar este Inter mais vulnerável, um Inter que tinha dado uma aula tática ao Shakhtar mas aqui apanhou uma equipa menos romântica e absolutamente talhada para estes momentos. O Sevilha foi, inicialmente, a equipa que todos esperávamos que fosse, com mais bola que o adversário, com mais iniciativa, mas que também soube deixar o Inter desconfortável quando dela desistiu, quando o relógio já jogava a seu favor.

A final em si valeu muito pela 1.ª parte, frenética, em que as equipas foram mais iguais a si próprias. O Inter até marcou primeiro e à sua maneira, num contra-ataque rápido em que a cavalgada de Lukaku foi demasiado forte para Diego Carlos. O ex-Estoril, que estaria no melhor e no pior do encontro, fez falta e na grande penalidade o belga marcou. Se se mantivesse organizado como na meia-final na defesa, poderia estar aqui a chave do jogo para os italianos, mas o Sevilha é uma equipa diferente do Shakhtar e fez mossa precisamente onde a equipa de Luís Castro nunca conseguiu fazer: variando o jogo, procurando o jogo exterior que tanto gosta, sempre com a ajuda do corredor central. E logo aos 12', numa jogada coletiva, o cruzamento de Navas, o eterno Navas, encontrou a cabeça do holandês Luuk de Jong, que à passagem da meia-hora marcaria de novo e de novo de cabeça, na sequência de um livre lateral.

Depois daquele início, aí estava o Sevilha europeu, pensámos nós, tal como se calhar pensámos no início que Lukaku faria miséria daquela defesa nos ataques rápidos. Mas a 1.ª parte foi feita disto, de muito a acontecer, em pouco tempo: logo na jogada seguinte, também num livre lateral, Diego Godín saltou mais alto para fazer novamente o empate.

Alexander Hassenstein - UEFA

Quem esperava uma 2.ª parte de igual qualidade e intensidade terá saído defraudado. A seguir ao intervalo, as equipas descaracterizaram-se, o Inter foi obrigado a ter mais bola, coisa que não adora particularmente e a perda de identidade saiu pior aos italianos, ainda que a primeira oportunidade dos segundos 45 minutos tenha sido para Lukaku, que apareceu novamente embalado desde o meio-campo, para ver o guarda-redes Bono fazer uma corajosa defesa.

E quando o jogo, apesar da imprevisibilidade latente, parecia mais próximo de caminhar para um prolongamento, Lukaku marcaria, mas na baliza errada: aos 74', o pé do belga encontrou o remate de bicicleta de Diego Carlos e a bola seguiu para a baliza e para o 3-2. Apesar de a UEFA ter considerado golo do defesa brasileiro, a verdade é que aquela bola provavelmente sairia pela linha de fundo.

Daí ate final o que já não estava a resultar para o Inter deixou de resultar de todo. Obrigado a ter bola, a construir, a equipa de Antonio Conte nunca esteve confortável neste papel e homens mais criativos como Christian Eriksen e Alexis Sánchez talvez tenham entrado tarde demais.

Até porque contra este Sevilha, numa final de Liga Europa, é preciso sempre um qualquer golpe de asa. Os espanhóis são uma equipa inconstante mas um monstro competitivo nestes jogos a eliminar, basta ver que além destas seis taças da Liga Europa, no mesmo período ainda ganharam por duas vezes a Taça do Rei num futebol dominado por Real Madrid, Barcelona e Atlético Madrid e tudo isto muitas vezes com equipas feitas de sobras, de saldos ou de jogadores que noutros clubes rendiam menos do que se esperava - Ocampos e Suso são dois bons exemplos. Esta temporada é disso paradigmática, com a aposta num treinador mal-amado (Julen Lopetegui, talvez aqui a calar alguns críticos), um início periclitante, mas um final de grande garra, a segurar um título e o 4.º lugar na liga espanhola.

E este coração, nem o cinismo italiano conseguiu quebrar.