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Afinal, havia um limite para o número de coisas que podiam correr mal, todas de uma vez só e todas ao Sporting: chamava-se Aberdeen

O Sporting, que soma vários casos positivos e não tinha um jogo oficial no calendário, ultrapassou um adversário clinicamente mais saudável, com oito encontros nas pernas – e futebolisticamente irrelevante. Não podia ter aparecido em melhor altura

Pedro Candeias

Tiago Tomás marcou um belo golo, cozinhado pelo talento presciente de Vietto. Foi ao minuto 7

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Afinal, havia um limite traçado para o número de coisas que podiam correr mal, todas de uma vez só e todas ao Sporting: chamava-se Aberdeen e o Aberdeen apareceu na hora certa.

Não é que não nos tivessem avisado que isto poderia acontecer, mas apesar da globalidade das análises pre-match o terem apresentado como um “adversário acessível” ninguém estava à espera de um livre-acesso ao play-off da Liga Europa. Pois foi o que aconteceu, e o Sporting, sem dinheiro para grandes contratações, com uma contestação presidencial sempre vigilante, somando vários casos positivos à covid-19, entre os quais o treinador e o médico e nove jogadores, enfim, o Sporting que não tinha um jogo oficial no calendário ultrapassou um adversário clinicamente mais saudável, com oito encontros nas pernas – e futebolisticamente irrelevante.

O guião era simples: entrar bem, aproveitar o embalo dos músculos descansados e marcar cedo. Do plano abstrato à prática em apenas sete minutos, Tiago Tomás tornou-se o sportinguista mais jovem a marcar nas provas da UEFA, com apenas 18 anos, três meses e nove dias. Tomás foi um dos muitos jovens escolhidos por Rúben Amorim e orientados do banco por Emanuel Ferro para Alvalade; a média de idades do onze, aliás, estava mais próximo de uma seleção olímpica, que habitualmente escala três ou quatro veteranos, do que de uma equipa profissional à procura do seu futuro na Europa.

Depois do primeiro golo, o Sporting procuraria o segundo sem sucesso, apesar de algumas boas ideias apresentadas - e sobretudo pelo talento presciente de Vietto, um futebolista cuja velocidade de pensamento não é acompanhada pelas pernas nem pelos seus colegas.

Já o Aberdeen alternava momentos de pressão altíssima e intensa (e até interessante), com outros bastante menos ambiciosos, em que a dificuldade era arranjar lugar para acomodar onze jogadores numa área equivalente a um quintal.

Só que a diferença de qualidade era grande e portanto suficiente para permitir curtíssimas trocas de bola aos escoceses em zonas onde os adversários talentosos costumam complicar estratégias - e, decididamente, o Aberdeen não era um deles.

De modo que em condições normais, apenas um episódio improvável - um lance de génio era uma impossibilidade -, impediria o Sporting de ultrapassar o Aberdeen: um golo de penálti, um autogolo, um golo marcado sem querer, um golo feito de costas para a baliza numa receção desorientada (convido o leitor a exageros semelhantes).

Ou então, o ácido lático.

Porque uma equipa que não corre é uma equipa fragilizada, e quando as justificadas diferenças de ritmo competitivo se foram acentuando, ali a meio da segunda-parte, o Aberdeen passou a chegar à linha de fundo - ou a meio desta - e a cruzar para a área do Sporting. Isto não significa que a seguir os escoceses tenham acumulado lances exuberantes, mas também não esconde os sobressaltos sentidos por Adán e pelos três centrais à sua frente.

Todavia, a previsibilidade dos dois planos do Aberdeen - atacar a profundidade sempre pelo seu lado esquerdo, pelo loiríssimo Hedges; bater bolas paradas para o poste mais distante, no meio de uma luta corpo-a-corpo lá dentro - facilitou a cobertura leonina nos momentos em que as pernas começaram a fraquejar. Ao Sporting coube, então, segurar a bola, congelar o jogo e rodar jogadores na defesa e meio-campo e no ataque para compensar o fulgor perdido - e sobretudo manter o sangue-frio.

Correu bem e enfim uma boa notícia. A seguir, vem o LASK e depois quem sabe o que virá.