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A lógica de 2020 desabou sobre o Rio Ave e desancou-o

Lutar, suar, batalhar e, sobretudo, muito jogar até ao fim, só que não era o fim. O Rio Ave esteve a ganhar ao AC Milan até ao último minuto do prolongamento (2-2), quando sofreu um golo de penálti e toda a gente foi para um épico desempate: houve 24 penáltis batidos, os dois guarda-redes a falharem os seus, um Filipe Augusto a fazer um Panenka quando já era mata-mata e a equipa de Vila do Conde a desperdiçar três oportunidades de ganhar a eliminatória. Que perdeu, epica e ingloriamente

Diogo Pombo

Nélson Monte foi o azarado da noite: o seu penálti, o primeiro a poder fechar a eliminatória, fez a bola bater nos dois postes

JOSE COELHO/LUSA

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Poderíamos divagar na pertinência que era lembrar o que havia do lado opulento da coisa.

Havia o italiano Gianluigi Donnaruma, o turco Hakan Çalhanoglu, o dinamarquês Simon Kjaer, o marfinense Franck Kessié ou o argelino Ismael Bennacer, todos titulares das respetivas seleções e titulares esta noite, para não mencionar, mas mencionando-os, o sueco Zlatan Ibrahimovic, com quem a covid se meteu mas eu não me meto com o atrevimento de achar necessário descrever, e o croata Ante Rebic, titular de um finalista do último Mundial.

Era o AC Milan rico, titulado, poderoso e estranhamente a ter de trepar pelas catacumbas da Europa, uma trepadeira a que é raro o Rio Ave poder, sequer, agarrar-se, quanto mais contra um AC Milan que mesmo já não sendo bem o AC Milan da década passada, da anterior e de muitas das precedentes, que nos fez ter o AC Milan gigante no nosso imaginário e, por comparação, o Rio Ave pequeno e modesto. Mas o ponto no qual se cruzam é futebol.

Os pontapés à coisa arredondada apaixonam muito boa gente por mil e muitas razões, uma delas é o futebol nunca ser sempre redondo como o objeto que põe 22 humanos a correr atrás dele e, às vezes, esses humanos que a teoria tem como menos dotados, mais pobres e menores como um todo viram-se contra a lógica e, na prática, batem-se. E batem com força, como a bujarda que Francisco Geraldes soltou para empatar o jogo e o remate rasteiro com que Gelson Dala fez o 2-1, já no prolongamento, já com gigantes reduzidos a minimeus, já com eles a agigantarem-se na sua vez.

Um milagre no real sentido da palavra e do que se antevia, pré-jogo, esteve a um instante e a um braço por encolher de Borevkovic, saltador sem jeito a uma bola na área que nos circuitos do cérebro o fez tocar com a mão na bola, ou a bola tocar-lhe na mão, ou o que seja que fez um penálti acontecer ao 120.º e último minuto possível, para levar o desafio de diferenças para uma distância de 11 metros onde, também, essas diferenças interessam quase nada.

Aí, 2020 sentiu-se chamado ao jogo, este 2020 que conhecemos, o 2020 que em 10 meses vai em quase oito de pandemia e nós, e muitos biliões fechados em casa, a matutar mais sobre tudo o que acontece e a termos esta noção coletiva de que 2020 está a ser especialista em coisas esquisitas, insólitas, paranormais, lunáticas ou absurdas, já andámos demasiado tempo entre paredes ou então são os deuses do calendário a terem demasiado tempo livre, o que seja.

Mas o Rio Ave-AC Milan foi a penáltis.

JOSE COELHO/LUSA

A chuva a enlamear a relva, o vento a exigir mais energia dos corpos que se encaminhavam, um a um, até à marca. Os rotineiros cinco para cada lado foram batidos e não defendidos, o 5-5 punha a morte como conceito ao barulho, a fatalidade de quem falhasse primeiro poder personificar o falhanço de uma equipa, embora com essa ideia de perecer já desvalorizada pelo aço que só pode entupir as veias de Filipe Augusto - o brasileiro, ao 10.º pontapé que, se falhado, eliminaria o Rio Ave, decidiu picá-lo como o bigode checo de Panenka celebrizou esta afronta de marcar um penálti.

Daqui em diante, foi 2020 a sentar-se no sofá, já tocado por um ou outro copo a mais durante a noite e a encolher os ombros para tudo quanto é lógico nestas coisas.

Quatro tentativas depois, Colombo falhou e peça de dominó seguinte era Nélson Monte, também ele distorcivo de um conceito, o de colocar a bola: bateu-a rasteira contra o poste esquerdo, o ricochete fê-la rolar sobre a linha e foi tocar no outro poste, para seguir na direção do remetente. Dois mil e vinte a rir-se, à espera de quem ouse explicar isto recorrendo a leis e cálculos da Física.

O Rio Ave teria outra oportunidade, quando Donnaruma bateu um pontapé de baliza para a baliza e que passou por cima da baliza, desastre que também estava guardado no pé de Pawel Kieszek, único que restava bater em quem descambou também a falta de jeito de quem joga para guardar redes com as mãos e não responsabilidades destas nos pés. Porque, logo a seguir, o polaco provou-o ao atirar-se para a relva, esticar-se todo e rejeitar a bola de Bennacer.

Era o 21.º penálti. Os berros ecoavam no estádio, gente havia a esmurrar punhos na relva, outros arremessavam garrafas de água contra o banco de suplentes, Borevkovic, expulso no penálti que penalizara o Rio Ave para tudo isto, era a cara do desespero à porta do túnel.

À terceira seria a vez de Francisco Geraldes, a proveniência da bujarda em jogo, o marcador do primeiro penálti de todos, à terceira julgar-se-ia que seria de vez por esta roleta voltar a parar na vez do português. Ele enganou Donnaruma, o italiano a atirar-se para o lado contrário do poste onde a bola bateu e enganou este atrevimento em ainda se achar que haveria lógica esperançosa possível. Depois veio o míssil de Kjaer em trajetória reta e a seguir a capitulação de Aderlan Santos na mão de Donnaruma. O fim.

Foram 24 penáltis até a lógica inicial do gigante contra o pequeno provar a sua própria ilógica de forma inglória, mesmo que trágica para os portugueses a quem o absurdo desancou, sem piedade. Sem misericórdia. Mas de forma épica, que provou o quão gigante foi o Rio Ave.